DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

 

o memento mori em um conto machadiano

Henrique Marques Samyn

 

 

I.

“Um esqueleto”, conto de Machado de Assis publicado originalmente no Jornal das Famílias, em 1875, talvez pudesse ser categorizado – se tal categorização for necessária – como uma narrativa de horror ou “quase-macabra”. O núcleo do texto é a estranha história do Dr. Belém: homem extravagante que, além de conservar consigo o esqueleto da esposa morta, revela-se obsessivamente ciumento, o que o leva a ameaçar de morte tanto sua nova esposa quanto seu melhor amigo. Esta história, não obstante, revela-se falsa no último capítulo do conto. O que pretendo neste ensaio é analisar o texto de Machado a partir de uma outra chave de leitura – mais especificamente, a partir do motivo do memento mori, topos que, em minha visão, pode ser percebido como central no conto machadiano.

 

II.

Comecemos com uma breve revisão da narrativa. Em uma praia solitária, dez ou doze rapazes conversam sobre artes, letras e política. A conversa de tal modo os entretém que não percebem nem o mar que estoura na praia próxima, nem a noite que ameaça chuva. Alguém fala sobre a beleza da língua alemã, o que faz com que a conversa mude de rumo: Alberto, um dos convivas, começa a falar sobre o homem que o instruiu nessa língua – um excêntrico senhor, alcunhado Dr. Belém, cuja história começa a narrar.

Mais que mestre e aluno, haviam sido amigos; e Alberto, vez por outra, tornava-se um confessor do Dr. Belém, o único a quem o doutor falava sobre seu passado. Certo dia, quando o jovem lhe pergunta se algum dia se casara, vê-se diante de dois mistérios: após responder afirmativamente e reiterar que, em precisos três meses, será outra vez casado, revela-lhe o doutor um armário de vidro no qual conserva o esqueleto de sua primeira esposa.

Confessa então o Dr. Belém que pensa em unir-se a uma viúva, D. Marcelina. Quando procurada, Macelina ela responde que fizera o voto de com ninguém mais se casar; todavia, na terceira vez em que a mão lhe é pedida, consente em desposar o doutor – confirmando, assim, o que ele havia previsto.

Embora o casamento pareça inicialmente satisfatório para ambos os cônjuges, aos poucos a personalidade do Dr. Belém começa a revelar-se problemática: de um lado, sua morbidez e sua obsessão com o esqueleto da esposa morta levam-no a, por exemplo, colocá-lo à mesa na hora do jantar; de outro lado, seus ciúmes, igualmente obsessivos, fazem com que ameace a nova esposa de morte, caso algum dia suspeite de qualquer infidelidade – embora admita a inocência da primeira esposa, que ele matou por esse mesmo motivo, o que lhe causa intenso remorso.

Finalmente, por ocasião de uma viagem, o Dr. Belém deixa a esposa aos cuidados da irmã de Alberto. Passado um mês, Marcelina recebe uma carta em que o esposo pede-lhe que, junto do jovem, vá até onde ele se encontra. Lá, a pedido do doutor, partem os três a sós, a fim de ver parasitas em uma região próxima; é nesse lugar que o Dr. Belém expõe suas suspeitas: Alberto e Marcelina amam-se; ainda assim, é incapaz de repetir o crime outrora cometido. São insuficientes os protestos do amigo e da esposa: o doutor agarra-se ao esqueleto e desaparece no mato, deixando o amigo a amparar a viúva que, inconsolável, chora.

Quando Alberto encerra a narração, há no ambiente um “silêncio de terror”. Então, diante da exclamação de um dos convivas  – “Mas é um doudo esse teu Dr. Belém!” –, Alberto revela que a história é falsa: “o Dr. Belém não existiu nunca, eu quis apenas fazer apetite para tomar chá. Mandem vir o chá.” Assim se encerra o conto.

 

III.

Há, como podemos ver, uma história dentro da história. A primeira narrativa, que poderíamos chamar de “real”, é a que se desenrola no primeiro e no último capítulos do conto: são os “dez ou doze” rapazes que, na praia solitária, discutem assuntos vários, até que Alberto começa a falar sobre seu convívio com o Dr. Belém. A narrativa desse convívio, que se estende do segundo ao quinto capítulos do conto, constitui a história que poderíamos chamar de “imaginária”, já que assim se revela nos últimos parágrafos do texto. Espero demonstrar que há uma clivagem entre as duas narrativas, marcada pelo estranhamento com que os personagens da história “real” reagem aos elementos da história imaginária.

No princípio do texto, estamos diante de um grupo de rapazes que conversa sobre “arte, letras e política”. Estão absortos na seriedade da conversa, só rompida de quando em quando por alguma anedota ou trocadilho; Machado acentua o empenho com que os jovens dedicam-se ao debate ressaltando seu alheamento em relação ao que ocorre ao seu redor:

 

O mar batia perto na praia solitária... estilo de meditação em prosa. Mas nenhum dos doze convivas fazia caso do mar. Da noite também não, que era feia e ameaçava chuva. É provável que se a chuva caísse ninguém desse por ela, tão entretidos estavam todos em discutir os diferentes sistemas políticos, os méritos de um artista ou de um escritor, ou simplesmente em rir de uma pilhéria intercalada a tempo.

 

Vale notar que, em um nível formal, Machado expressa o ensimesmamento do grupo por meio de uma repetição de palavras que reforça a presença daquilo que é ignorado pelos jovens:

 

O mar batia perto na praia solitária... [...] Mas nenhum dos doze convivas fazia caso do mar. Da noite também não, que era feia e ameaçava chuva. É provável que se a chuva caísse ninguém desse por ela [...]

 

Não é, decerto, acidental esse relevo conferido à clivagem entre os rapazes e o mundo, por conta da atenção extrema com que se dedicam à discussão de suas próprias opiniões; encontramos aí, na verdade, um tema bastante comum na obra de Machado de Assis: o egocentrismo. Félix e Bentinho, Brás Cubas, Esaú e Jacó: é vasta a galeria dos personagens machadianos que pouco enxergam além de seus próprios interesses – ou, para ser mais preciso, além de suas próprias razões e obsessões; e aqueles rapazes que, absortos em seu colóquio, pouco vêem daquilo que os cerca, não parecem figuras estranhas a esse acervo. O sentido dessa inferência, todavia, só se torna efetivamente claro se pensado em relação com a perturbação que é introduzida por Alberto.

Já a primeira fala através da qual o personagem-narrador introduz sua história – a que chamamos de “narrativa imaginária” –  encerra a referência ao tema que logo se tornará central no texto. E a solução machadiana para caracterizar esse momento do texto é notável:

 

— Para lhes mostrar a excentricidade do Dr. Belém basta contar-lhes a história do esqueleto.

 

A palavra esqueleto aguçou a curiosidade dos convivas; um romancista aplicou o ouvido para não perder nada da narração; todos esperaram ansiosamente o esqueleto do Dr. Belém. Batia justamente meia-noite; a noite, como disse, era escura; o mar batia funebremente na praia.

 

Nesse trecho, encontramos não apenas a primeira ocorrência textual do substantivo que intitula o conto, como também vemo-lo repetido três vezes, com uma ênfase conferida pelo próprio Machado – “A palavra esqueleto aguçou a curiosidade dos convivas”; no entanto, além disso, há aí novamente o contraste entre a compenetração dos convivas e o ambiente que os cerca, por nenhum deles notado.

 

IV.

A narrativa imaginária possui dois elementos principais: o Dr. Belém e o esqueleto. Nesse ponto, vale a pena indagar: se o Dr. Belém, com seu comportamento excêntrico e mórbido, é o verdadeiro centro da narrativa, por que tanto destaque é conferido ao esqueleto – a ponto de ele fazer-se presente no título do conto?

Creio que a resposta para essa questão jaz precisamente na oposição estabelecida entre o que é simbolizado pelo esqueleto – ou seja, a morte – e o comportamento egocêntrico dos rapazes. Se o centro da narrativa real, o colóquio em que os jovens encontram-se entretidos em “discutir os diferentes sistemas políticos, os méritos de um artista ou de um escritor, ou simplesmente em rir de uma pilhéria intercalada a tempo”, está evidentemente relacionado ao mundanismo e à vaidade, não pode haver para essa maior ameaça que a morte. Podemos pensar, é claro, na “teoria do medalhão” machadiana; mas trata-se de recordar, em especial, a “Filosofia dos epitáfios” descrita em “Memórias póstumas de Brás Cubas”:

 

[...] gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Daí vem, talvez, a tristeza inconsolável dos que sabem os seus mortos na vala comum; parece-lhes que a podridão anônima os alcança a eles mesmos.

 

Esse egoísmo, que com tanto ressentimento encara a morte, é o mesmo que leva os jovens a reagir à menção ao esqueleto de modo tão brutal: a súbita eclosão de um símbolo da finitude é a maior agressão possível à sua vaidade, destinada a sucumbir. E isso é não mais do que uma retomada do motivo do memento mori: a afirmação da humana mortalitas como antídoto contra a humana vanitas.

Há que se notar que, no conto, a atitude de Alberto relativamente ao Dr. Belém é fundamentalmente diferente de sua atitude relativamente ao esqueleto. O Dr. Belém, responsável por colocar Alberto diante do esqueleto, é simultaneamente desqualificado como uma expressão da alteridade negada e louvado como o ser humano que é; em outras palavras, é reconhecido simultaneamente como “um de nós” (por ser um dos vivos) e como expressão do “outro” (por permanecer-se – voluntariamente – tão próximo da morte). Decorre daí a maneira ambígüa como Alberto se relaciona com o Dr. Belém, sempre oscilante entre o estranhamento e a empatia: já após o horror inicial diante da revelação do esqueleto, o jovem justifica para si mesmo o comportamento do amigo: “Naturalmente, disse eu comigo, amou-a muito, e por esse motivo ainda a conserva”; essa atitude ambivalente atravessa todo o texto –

 

Era singular como aquele homem, que por certos hábitos, maneiras e idéias, e até pela expressão física, assustava a muita gente e dava azo às fantasias da superstição popular, era singular, repito, como me falava às vezes com uma meiguice incomparável e um tom patriarcalmente benévolo.

 

Por outro lado, o aspecto mais positivamente ameaçador do Dr. Belém está relacionado precisamente à sua ligação com o esqueleto – e, por conseguinte, com a morte. É a sua insistência em afirmar a morte como destino inevitável o que o torna particularmente perturbador: aquilo que o esqueleto simboliza é o que o Dr. Belém verbaliza, e é dessa maneira que o tema do memento mori se efetiva no texto machadiano.

 

V.

Machado explora a obsessão mórbida do Dr. Belém de modo a aprofundar contrastes, o que intensifica a afirmação da finitude em meio a discursos marcados pela trivialidade. A forma súbita como é feita a referência à humana mortalitas amplifica a eclosão do memento mori, já que esse irrompe em momentos aparentemente banais. Três dessas ocorrências merecem destaque particular.

Primeiro, há o momento em que o esqueleto é revelado a Alberto. Ele e o doutor conversavam sobre a idéia do casamento do Dr. Belém com D. Marcelina; levado para o gabinete, Alberto está curioso e aterrado, já que está prestes a conhecer, embora não saiba ainda como, a esposa anterior de seu singular amigo:

 

No fundo do gabinete havia um móvel coberto com um pano verde; o doutor tirou o pano e eu dei um grito.

Era um armário de vidro, tendo dentro um esqueleto. Ainda hoje, apesar dos anos que lá vão, e da mudança que fez o meu espírito, não posso lembrar-me daquela cena sem terror.

— É minha mulher, disse o Dr. Belém sorrindo. É bonita, não lhe parece? Está na espinha, como vê. De tanta beleza, de tanta graça, de tanta maravilha que me encantaram outrora, que a tantos mais encantaram, que lhe resta hoje? Veja, meu jovem amigo; tal é última expressão do gênero humano.

 

A naturalidade com que o doutor expõe e fala sobre o esqueleto acentua a estranheza do momento. Vale perceber que sua fala desenvolve-se em três momentos: inicialmente, o Dr. Belém ressalta a beleza da esposa como se ela não estivesse, agora, reduzida aos ossos: “— É minha mulher, disse o Dr. Belém sorrindo. É bonita, não lhe parece?”; repentinamente, muda o discurso afirmando o que, em verdade, é não mais que o óbvio: “Está na espinha, como vê.”; por fim, procede à afirmação da morte propriamente dita: “De tanta beleza, de tanta graça, de tanta maravilha que me encantaram outrora, que a tantos mais encantaram, que lhe resta hoje? Veja, meu jovem amigo; tal é última expressão do gênero humano.” A forma como se estrutura o discurso ressalta a efemeridade da vida; a contradição intrínseca à fala do doutor – que inicialmente ressalta a beleza da esposa, não mais que um esqueleto, para depois reconhecer que a beleza não se faz presente nos ossos – obtém o mesmo efeito.

A segunda ocorrência se dá quando a proposta de casamento já foi aceita:

 

O doutor estava alegre; apertava-me muitas vezes as mãos agradecendo-me a idéia que lhe dera; fazia seus planos de futuro. Tinha idéias de vir à corte, logo depois do casamento; aventurou a idéia de seguir para a Europa; mas apenas parecia assentado nisto, já pensava em não sair de Minas, e morrer ali, dizia ele, entre as suas montanhas.

— Já vejo que está perfeitamente noivo, disse eu; tem todos os traços característicos de um homem nas vésperas de casar.

— Parece-lhe ?

— E é.

— De fato, gosto da noiva, disse ele com ar sério; é possível que eu morra antes dela; mas o mais provável é que ela morra primeiro. Nesse caso, juro desde já que irá o seu esqueleto fazer companhia ao outro.

 

Nessa ocasião, a morbidez irrompe de forma repentina, precisamente no momento em que o jovem julgava perceber, no doutor, uma nova disposição existencial, motivada pela concretização do matrimônio. Por outro lado, há que se notar aí a nítida clivagem entre duas percepções distintas de uma mesma situação: enquanto Alberto vê o casamento como algo trivial, o que o leva a (outra vez) “normalizar” o comportamento do Dr. Belém – “tem todos os traços característicos de um homem nas vésperas de casar” – , essa percepção é logo frustrada pela atitude do próprio doutor, que volta a revelar sua obsessão pela morte.

Por fim, a terceira ocorrência dá-se no momento em que Alberto encontra o doutor jantando ao lado de suas duas esposas. Para justificar seu próprio estranhamento, o rapaz evoca um princípio moral: a piedade com os mortos. A réplica do doutor é severa:

 

O doutor deu uma das suas singulares gargalhadas, e estendendo-me o prato de sopa, replicou:

— O senhor fala de uma piedade de convenção; eu sou pio à minha maneira. Não é respeitar uma criatura que amamos em vida, o trazê-la assim conosco, depois de morta?

Não respondi cousa nenhuma a estas palavras do doutor. Comi silenciosamente a sopa, e o mesmo fez a mulher, enquanto ele continuou a desenvolver as suas idéias a respeito dos mortos.

— O medo dos mortos, disse ele, não é só uma fraqueza, é um insulto, uma perversidade do coração. Pela minha parte dou-me melhor com os defuntos do que com os vivos.

E depois de um silêncio:

— Confesse, confesse que está com medo.

Fiz-lhe um sinal negativo com a cabeça.

— É medo, é, como esta senhora que está ali transida de susto, porque ambos são dois maricas. Que há entretanto neste esqueleto, que possa meter medo? Não lhes digo que seja bonito; não é bonito segundo a vida, mas é formosíssimo segundo a morte. Lembrem-se que isto somos nós também; nós temos de mais um pouco de carne.

 

Inicialmente, o Dr. Belém relativiza a observação de Alberto, com vistas a enfraquecê-la; na segunda fala do trecho citado, desqualifica-a explicitamente. A argumentação da fala final é um desenvolvimento da apresentada nas falas anteriores: se Alberto e Marcelina têm medo dos mortos, é porque os julgam segundo a vida; se os julgassem segundo a morte, perceberiam que há nela um conjunto próprio de valores, consoante os quais os mortos têm sua beleza; por outro lado, é absurdo considerar incompatíveis os dois sistemas axiológicos – que é o que fazem Alberto e Marcelina – , precisamente porque não há nenhuma distinção fundamental entre os vivos e os mortos: “Lembrem-se que isto [i.e., o esqueleto] somos nós também; nós temos de mais um pouco de carne.”

 

VI.

Quando, no desfecho do conto, Alberto revela que o Dr. Belém nunca existiu, já não há nisso qualquer relevância: mesmo sendo uma fraude, nesse momento o doutor já cumpriu sua função na narrativa – que é precisamente servir como veículo para a efetivação do memento mori: o Dr. Belém é quem confere um sentido concreto ao esqueleto, na medida em que o inscreve no âmbito existencial de Alberto e seus companheiros, impossibilitando assim o processo por meio do qual esses poderiam exclui-lo como algo alheio a si.

A frase que encerra o conto é particularmente instigante: por que é “inútil dizer o efeito desta declaração [de que o Dr. Belém nunca existiu]”? Com esse desfecho, Machado deixa efetivamente em aberto o final da narrativa; à luz da leitura proposta neste ensaio, todavia, podemos pensar esta conclusão da seguinte forma: é inútil dizer o efeito da declaração porque ela não possui mais qualquer importância – uma vez que a consciência da morte já está existencialmente instalada nos convivas. Pouco importa, portanto, que tenha ou não existido um Dr. Belém, ou que tenha ou não existido um esqueleto: o que importa é que há a morte enquanto destino inevitável – e que seu esquecimento já deixou de ser possível.