DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ficção

 

A ALÇA DO CAIXÃO

Giselle Maria

 

 

I

 

Elias aguardava o almoço com ansiedade. Faltava meia-hora, meia-hora e estaria lá, no momento exato. Enfrentaria a multidão com olhar comovido, cabeça baixa, no limite da pressa. Nem perceberiam. E quando alguém se desse conta já seria tarde. O horário de almoço para o segurança do mercadinho era o melhor momento do dia: no cemitério em frente, por volta das uma, sempre havia enterros. Elias trocava o uniforme do trabalho por uma camisa preta e seguia para o funeral. Tinha uma espécie de tara, fixação que ninguém compreendia, um prazer estranho: adorava segurar a alça do caixão.

Não é tão raro casos de pessoas que gostam de enterros. Quem já não ouviu histórias como a da mulher que chora à beira de caixões de desconhecidos, numa esperança quase infantil de ser consolada, abraçada, protegida; ou então dos rapazes, de preto dos pés à cabeça, que gostam de caminhar entre os túmulos à noite, invocando o que nem eles sabem, se Deus, o diabo ou a própria solidão; ou ainda aquela moça que passeia entre as lápides, comparando-se com as fotos antigas, tentando se encontrar no mundo dos mortos porque não tem caminho no mundo dos vivos. A morte como uma atração irresistível para aqueles cuja esperança na vida parece falhar. Mas Elias era diferente. Não era o enterro em si que o atraía, não era a solidão, o desejo de proteção que o levava ao cemitério. Não era egoísmo também, ruindade, Elias não era daqueles que se sentiam bem com a desgraça alheia, a visão do fracasso do outro a esconder seu próprio fracasso. Seu prazer era carregar o caixão, sentir o peso do defunto nas mãos calejadas de trabalho. Um tipo de prazer que o fazia grande: sentia-se, após o feito, com três metros de altura.

Quando o enterro era de conhecidos, segurar a alça do caixão não era apenas prazer, era questão de honra, como foi o caso do amigo militar. Funeral oficial, com salva de tiros e tudo, companheiros de farda a segurar o caixão. Briga feia: Elias não admitia perder a vaga no espetáculo da morte, morte do amigo de tantos anos. Fazia questão, discutiu em plena capela, na frente da família. Chorou e tudo. E garantiu o lugar, o único sem farda na marcha fúnebre. E nada de revezar, palavra que odiava. Segurava a alça do início ao fim do percurso, melhor quanto maior fosse o cemitério. Não lhe pesava: quanto mais próximo da morte, sentia-se pronto para a vida. Feliz.

Uma coisa odiava mais que revezar: o maldito carrinho que alguns cemitérios cismavam em ter. Estraga prazeres. O carrinho era sua perdição. Chegava todo animado e quando avistava o carrinho emparelhando com o cadáver, tudo ia por água abaixo. As mãos coçavam, as pernas tremiam de raiva, em alguns casos chegava a sugerir a troca do carrinho pelos braços de outros cinco homens que, como ele, se sentiriam honrados em levar o caixão. Os tais homens honrados não apareciam, por certo, e Elias tinha que amargar a frustração de longe, porque nem se movia quando avistava aquele conjunto de ferros sem vida carregando o pobre do morto.

Naquela uma hora, Elias teve uma grata surpresa: o primeiro enterro era de criança, o caixão pequenininho, pequenininho, branco, parecia um pombo de asas abertas. Elias não se conteve. Perguntou à família do menino se poderia carregar o caixão, de tão pequeno no colo mesmo. Não havia quase ninguém no enterro, a família, muito pobre, se mudara há pouco para a cidade. Permitiram. Chorou sincero Elias com o branco do caixão fazendo par com o preto da blusa, a irmãzinha do menino morto olhando doído para o homem que levava embora seu bebê. O enterro foi sem nenhuma palavra, não eram de fala os pais nordestinos. Uma tristeza silenciosa, parada. Elias ainda foi em outros três enterros - e nos três segurou a alça do caixão (tinha uma estratégia: achegava-se aos pouquinhos e quando a dor familiar atingia o extremo tomava o seu posto e não largava) - mas saiu do cemitério com o olhar da menina magricela na cabeça. O prazer de carregar os caixões ia se diluindo ante a lembrança da criança.

 

II

 

Elias chegou em casa, tomou banho, comeu, tentou dormir. Levantou. A menina magrinha na cabeça. Tanta dor em olhos tão miúdos. Quantos anos teria? Cinco, seis, se muito, se bem que tão mirrada, poderia ser mais. Poderia haver dor maior que naqueles olhos de criança? Sentiu-se mal. Como podia ter prazer, contentamento, diante da morte alheia? Por certo não se sentia bem com a morte dos outros, mas tampouco se sentia mal. Era muito pior: realizava-se com o dourado do bronze, ou com o cinza da prata da alça do caixão entre os dedos. Estava enojado de si, principalmente porque sabia que não podia se conter: gostava, de um gosto de algodão doce na boca dissolvendo de mansinho, do ritual da morte. Precisava se redimir, ao menos por um instante, ao menos pela menina de olho doído. Então teve a idéia.

Nos documentos do cemitério encontrou o endereço da família. Não foi difícil ter acesso aos papéis: de tanto ir a funerais era mais conhecido que os coveiros. No final da semana seguinte, tomou o trem para Aliança, um bairro distante de Nova Iguaçu - se é que se pode chamar de bairro os caminhos estreitos abertos ao léu em meio ao matagal. As construções precárias davam pena. Viver ali era morrer em vida: mato, esgoto a céu aberto, barro, ratos, barracos, uma pobreza que afrontava. Elias caminhava tentando encontrar o endereço, desviando-se dos  estrumes de cavalos que se espalhavam aos montões.

 

III

 

Era um barraco nos fundos de uma viela, delimitado por uma cerca de arame farpado. Elias chamou, batendo palmas. Ninguém atendeu. Chamou de novo. Sem resposta. O portãozinho de madeira estava aberto. Arriscou entrar. Era tudo pouco no barraco, mas de uma limpeza surpreendente. Surpreendia porque tudo em volta era sujo, decadente, o valão em frente, o esgoto na “porta”, e a limpeza das panelas ariadíssimas, do chão de barro forrado de panos alvos, da imagem de São Benedito sem um pingo de pó, faziam um contraste enternecedor. Não havia ninguém na moradia improvisada, mas Elias não foi embora. Sentou-se numa cadeira, sentindo-se confortável e acolhido como jamais fora.

 

IV

 

Passaram-se horas ou minutos? Elias não sabia, acordou meio tonto, como se despertasse de anos de sono. O ambiente acolhedor propiciou um descanso que nunca teve em sua casa. Estava escuro, devia ter dormido muito, a noite caiu. Mas não estava mais só. Sentiu um foco de luz queimando suavemente as costas na cadeira. A lamparina, daquelas antigas, a óleo ainda, acesa. Virou-se de uma só vez, pronto para se desculpar pela invasão a casa. A cena o assustou pelo inesperado: estava de pé a pequena família, a mãe, o pai, a irmãzinha, calados. Elias pensou em falar mas desistiu ao ver o olhar da menina magricela. Os olhos da criança não estavam como da primeira vez, havia alívio neles. Parecia um reconhecimento, um reencontro.

 

V

 

Sim, a noite caiu. Somente a escuridão diante dos olhos. Elias se sentiu um pouco sufocado, mas não era ruim. Onde estava? Na casa da família do menino morto? Não podia se mexer. O que o impedia? Estava deitado, não ouvia som algum. Onde estavam todos? Outro focozinho de luz, mas não era da lamparina. Era luz do sol, uma luz forte de sol do começo da tarde. Sim, o sol amarelava seu rosto pela moldura de vidro. Mas onde estava? Parecia se mover sem andar, o vitralzinho tinha desenhos de flores nos lados em tons leitosos.

Elias tentou levantar mas não conseguiu. Ficou assustado. Por que não levantava, saía dali, daquele lugar que não sabia sequer aonde era, por que não se movia? Angustiou-se. Queria  correr dali, mas não sabia como; tentava socar, bater, mas em quê? E o vitral, que vitral é esse? Tão pequeno, mal cabia seu rosto colado nele. Elias se desesperou. Seria um pesadelo? Era um pesadelo, a escuridão iluminada pelo amarelo da luz que penetrava pelo vidro. O movimento, de súbito, cessou. A luz que entrava pelo vitral foi cortada por uma sombra. Elias congelava de medo, mas queria ver, precisava ver. Um rostinho magro surgiu no vitral, olhos tão miúdos, olhar tão doído, a irmãzinha magricela sorrindo sem nenhum som, o metal dourado na mão.

Elias gritou ao ver terra sendo jogada sobre o vitral, tingindo o sorriso da menina de marrom. Mas não ouviu a própria voz.

 

VI

 

— Estava marcado para as uma o funeral. Não havia quase ninguém no enterro, a família era muito pobre, sabe, tinham se mudado há pouco para a cidade. Só a mãe, o pai e a irmãzinha do menino morto olhando para o coveiro que levava embora seu bebê. O enterro foi sem nenhuma palavra, não eram de fala os pais nordestinos. O menino se chamava Elias, morreu de pneumonia aos quatro anos, assim que eles se mudaram para Aliança, aquele bairro horrível aqui de Nova Iguaçu, se é que se pode chamar de bairro aquelas ruelas no meio do mato -, contava Seu Antônio, o coveiro mais antigo do cemitério, ao jovem coveiro contratado.

— Rapaz, foi uma tristeza silenciosa, parada... A garotinha olhava doído pra gente. E o pior você não sabe: eles morreram num acidente dias depois, a família toda que sobrou. Parecia até que foram se encontrar com o menino... Sabe, foi o enterro mais triste que já vi. Mas isso já tem muito tempo, pra lá de vinte anos, eu era novinho assim que nem você.

A alça do caixão branco de Elias era dourada, como de bronze. Mas o caixão não foi carregado. O carrinho de ferro era novidade no cemitério municipal, foi inaugurado naquele dia. O caixão, pequenininho, pequenininho, sacolejou entre os paralelepípedos do caminho até o túmulo. Parecia um pombo de asas abertas.