Páginas de Vilém Flusser
NOMADISMO COMO LIBERTAÇÃO
Manuel da Costa Pinto
Publicado originalmente no número 20 da Revista 18
do Centro de Cultura Judaica de São Paulo
“O ensaio, essa forma híbrida entre poesia e prosa, entre filosofia e jornalismo, entre aforismo e discurso, entre tratado acadêmico e vulgarização, entre crítica e criticado, constitui um universo que é habitat apropriado para o ‘exilado nos picos do coração’ (para falarmos com Rilke). Quem tem a sua práxis, quem vive ensaisticamente (isto é, não quem apenas escreve ensaios, mas aquele para o qual a própria vida é ensaio para escrever ensaios), sabe que, a rigor, o problema do tema a ser escrito nunca se coloca. Ou, para ser exato: se coloca negativamente.”
Essa profissão de fé na escrita ondoyante e na “errância” temática remete, sem dúvida, àquela tradição fundada pelos Ensaios de Montaigne no final do século 16. O tipo de leitura à qual convida, porém, está bem longe da fruição “vabagunda” proposta pelo humanista que pode contemplar a comédia humana da torre de sua biblioteca, no convívio amigável com os livros .
Pois a frase – extraída de Bodenlos: uma autobiografia filosófica, de Vilém Flusser – é o ponto de chegada de uma trajetória marcada pela guerra e pela perseguição nazista, na qual a vivência “natural” do descentramento se radicaliza em desterro metafísico.
Flusser (1920-1991) deixou sua Tchecoslováquia natal após a anexação dos Sudetos pela Alemanha nazista (um dos marcos iniciais da 2a. Guerra Mundial). Depois de breve passagem pela Inglaterra, veio para o Brasil, mais especificamente São Paulo, onde esse autodidata sem formação acadêmica deu aulas na USP, no ITA e na FAAP, colaborando com os principais jornais paulistas e escrevendo em português as primeiras versões de sua obra (cujos mais de 30 volumes foram depois publicados em outros idiomas, com tradução do próprio autor).
Naturalizado brasileiro, Flusser só retornou à Europa em 1973, estabelecendo-se em Robion, na França. Em 1991, revisitou Praga pela primeira vez desde a guerra, para dar uma conferência no Instituto Goethe – mas morreu no dia seguinte, em acidente de automóvel, enquanto passeava pelos arredores da cidade na companhia da mulher, Edith.
Essas informações factuais não aparecem no texto do próprio Flusser, mas estão no prefácio de Bodenlos escrito por Gustavo Bernardo – estudioso das relações entre literatura e ceticismo cujo trabalho junto à editora Annablume foi responsável pela redescoberta do filósofo tcheco no Brasil.
Teórico da filosofia da linguagem e da comunicação, Flusser vem sendo tema de congressos internacionais e teve algumas de suas obras reeditadas nos últimos anos – como Língua e realidade e A história do diabo (ambos pela Annablume), A dúvida (Relume Dumará), Ficções filosóficas (Edusp) e Da religiosidade: a literatura e o senso de realidade (Escrituras). Sobre ele, foram lançados A dúvida de Flusser, de Gustavo Bernardo (Globo) e Vilém Flusser no Brasil, organizado por Gustavo Bernardo e Ricardo Mendes (Relume Dumará).
Em Bodenlos, o trabalho do conceito aparece como produto de uma vida que se embrenha na reflexão, de uma vida que vai descobrindo, em progressão abissal, sua ausência de fundamento. É esse, aliás, o significado ao mesmo tempo literal e metafórico do título que (explica Márcio Seligmann-Silva no texto de orelha) significa “sem chão”, “sem terra” ou “sem fundamento”.
O livro surge sob o signo do trânsito lingüístico. Publicado postumamente na Alemanha, foi escrito em português, possivelmente nos anos 70, após o retorno do filósofo à Europa. Das quatro partes que compõem Bodenlos, as duas últimas só foram localizadas na versão em alemão (e traduzidas aqui por Raquel Abi-Sâmara).
E, no prefácio, Gustavo Bernardo esclarece uma recorrência estilística que, em se tratando de alguém cuja língua materna não é o português, parecerá um barbarismo. Flusser usa com freqüência quase insuportável a expressão “a gente”, que corresponde ao pronome neutro on do francês ou man alemão, remetendo ainda à impessoalidade do das Man heideggeriano.
Assim, explica ele, Flusser “provoca um estranhamento poético que desautomatiza a leitura” e “questiona de dentro, na forma, o ‘eu solar’, isto é, o ‘eu’ centro do sistema e do universo”.
Seria possível acrescentar às observações de Gustavo Bernardo que Flusser introduz aí modulações sutis, que correspondem ao modo como esse “a gente” vai se desvencilhando de toda viscosidade, de toda determinação externa – de todo fundamento.
No início, “a gente” é a comunidade dos judeus de Praga, que extraem desse “clima existencial” cosmopolita (que ajudaram a criar) um antídoto contra as vulgaridades ideológicas: “Passava-se a desprezar toda identificação nacional como arcaísmo. Era-se internacionalista nato, já que o ridículo de toda diferenciação nacional mostrava-se intimamente vivenciável”.
O marxismo surge aí como alternativa ao sionismo, como engajamento supranacional que a invasão nazista tornará derrisória. A partir dessa primeira catástrofe, “a gente” passa a designar os sobreviventes em fuga e, numa inversão irônica, Flusser transforma a perseguição implacável em prova da culpa daqueles que fogem:
“Jamais se perderia a convicção irracional, mas existencialmente válida, de que ‘de direito’ a gente deveria ter morrido nos fornos. Que doravante a vida passava a ser emprestada. Que foi a gente própria que se arrancou do seu fundamento (dos fornos) ao ter fugido, e que ‘com razão’ (?) o abismo sem fundo era o único futuro possível.”
Com isso, Flusser identifica o núcleo da ideologia anti-semita (o fundamento natural do judeu é o extermínio), mas também define o não-fundamento como sobrevivência, destino e iluminação. O judeu “naturalmente” apátrida deixa seu chão para fugir do ímpeto daqueles que deitam raízes no solo profundo, dele extraindo as potências de um ser coletivo (segundo uma mitologia telúrica e irracionalista).
A imagem do judeu errante, assim, será vista menos como a figura ominosa saída do imaginário cristão do que como afirmação herética da autonomia e da ruptura com quaisquer laços: “Doravante a vida passou a ser diabolicamente sagrada. Vivia-se doravante com nossas próprias forças, não com as forças que vinham da seiva fundante. (...) E aí veio uma sensação de todo inesperada. A sensação de libertação vertiginosa. Doravante não se pertencia mais a ninguém e a lugar nenhum, era-se independente”.
Se a “seiva fundante” levou à perseguição dos judeus é porque toda idéia de fundamento equivale à aniquilação do ser – incluindo-se aí a própria religião (qualquer que seja ela). Logo no início de Bodenlos, aliás, Flusser afirmara que as religiões são “métodos de proporcionar fundamento”, concluindo: “Todos os nossos problemas são, em última análise, religiosos”.
Seria interessante notar, de passagem, como Flusser inverte a ontologia de Heidegger: neste, “a gente” é a esfera da banalidade, da tagarelice, da “impropriedade” do ente, oposta ao domínio do ser, do próprio, do autêntico, que o autor de Ser e tempo identifica às raízes do “povo” como “singular coletivo do Dasein” (segundo a fórmula de Rüdiger Safranski).
No pensador tcheco, desde cedo desconfiado do jargão da autenticidade, “a gente” designa, ao contrário, a impessoalidade como refúgio à apropriação pelas identidades estáveis, a possibilidade de sobreviver sozinho no negativo, na periferia dos modelos de vivência e dos valores que haviam ficado para trás, no idílio multiétnico de Praga.
Ao longo de Bodenlos, Flusser empenha-se em “ser mestre na arte da falta de fundamento” – um leitmotiv que encontra no Brasil um campo de provas. Seus primeiros anos em São Paulo são um misto de fascínio e nojo: atração por esse povo de mascates, negociantes sem metafísica, mas também repulsa por uma burguesia que não conseguia ver na “vulgaridade kitsch dos nazistas” uma “massificação mecanizada” travestida de “potência mística”.
Daí seu peculiar mergulho na paisagem e na cultura tropicais, vistas como possibilidade de habitar uma “vastidão desumana” e conviver com pessoas indiferentes às suas raízes: “A gente identificava ‘cultura brasileira’ com ‘luta contra a natureza brasileira’ (...) e, por extensão, a gente passava a identificar ‘cultura tout court’ com ‘luta contra a natureza tout court’, inclusive contra a natureza humana”.
Tal passagem parecerá pouco “ecológica” a leitores politicamente corretos, mas explica-se: natureza, para Flusser, era a segunda natureza, em que “a gente” já não pode mais ser definida como grupo social ligado por laços de sangue ou como cultura ancestral, mas corresponde a um conjunto de individualidades girando em torno do único território habitável: a escrita, a palavra, a língua.
Toda a segunda parte de Bodenlos será, assim, um relato de seu convívio com personagens como o filósofo Vicente Ferreira da Silva e sua mulher, a poeta e tradutora Dora Ferreira da Silva, a artista plástica Mira Schendel, o jurista Miguel Reale, o pintor romeno Samson Flexor (como ele radicado no Brasil) e os escritores Guimarães Rosa e Haroldo de Campos. A arte do encontro representa, afinal, a Terra Prometida desse pensador do exílio – que nas duas partes finais do livro resume de maneira rapsódica a idéia de nomadismo e o tema de “habitar a casa na apatridade” que atravessam sua filosofia.