DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Vilém Flusser

 

PENSAMENTO APÁTRIDA

Manuel da Costa Pinto

 

 

Publicado originalmente na
Folha de São Paulo
de 16/06/2007

 

 

O nome de Vilém Flusser vem sendo redescoberto internacionalmente com a realização de congressos e a reedição de seus livros. Mas é justamente no Brasil que ele jamais poderia ser esquecido -- pois esse filósofo nascido na Tchecoslováquia desenvolveu seu pensamento em São Paulo e em “língua brasileira”, como mostra “Bodenlos: Uma Autobiografia Filosófica” (São Paulo: Annablume, 2007).

A dialética entre memória e esquecimento, bem como o trânsito lingüístico, estão no coração de suas reflexões, indissociáveis de uma trajetória de desenraizamento. Não por acaso, “Bodenlos” quer dizer “sem chão”, “sem terra”, mas também “sem fundamento” -- como explica o prefácio de Gustavo Bernardo, autor de “A Dúvida de Flusser” (Globo).

O filósofo judeu deixou a cidade de Praga (onde nasceu em 1920) após a ofensiva nazista sobre seu país. Em 1939, foi para a Inglaterra e, no ano seguinte, chegou ao Brasil. Autodidata, deu aulas em universidades paulistas, mas manteve-se à parte do tecnicismo acadêmico.

Nesse sentido, assemelha-se ao filósofo Vicente Ferreira da Silva (1916-1963) -- a quem dedicou três ensaios publicados em “Da Religiosidade” (Escrituras). E, como este, morreu num acidente de automóvel, no dia seguinte a seu retorno a Praga, para uma conferência no Instituto Goethe, em 1991.

“Bodenlos” inclui lembranças de encontros com o pensador brasileiro e sua mulher, a poeta Dora Ferreira da Silva, com artistas como Mira Schendel e Samson Flexor e os escritores Guimarães Rosa e Haroldo de Campos. Com todos eles, a cumplicidade se faz pela linguagem, vista como arquipélago de frágeis ilhotas de significação em meio ao naufrágio da história.

Nada disso é estranho à experiência moderna da perda dos fundamentos, que o pensador tcheco incorpora num livro como “Língua e Realidade”. Em “Bodenlos”, importa o modo como a vivência concreta do exílio se converte em filosofia apátrida. Escrito em português (idioma que o poliglota Flusser elegeu, desafiando o ditado segundo o qual “só é possível filosofar em alemão”), o livro recapitula suas ilusões em relação ao marxismo e ao sionismo durante o idílio de uma Praga cosmopolita.

Ao aportar no Brasil, ele está vacinado contra os discursos sobre a identidade nacional e, trazendo no bolso a filosofia de Wittgenstein e a ficção de Kafka, afirma que “pensar é pecar porque gira em roda infernal, roda esta que não toca a realidade, a qual, em sua estupidez impensável, nos tritura”.

Em outras palavras, Flusser buscou nesse país de comerciantes iletrados, nessa terra de ninguém, uma forma de vida que ao mesmo tempo esquecesse os dogmatismos arcaicos e escapasse das tautologias da lógica (que separa o “pensável” da existência).

Com isso, formula a tarefa de “habitar a casa na apatridade” -- expressão que dá nome a um dos capítulos de “Bodenlos” e designa a possibilidade de viver na negatividade redentora da linguagem.