DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

 

O VALOR DA CERTEZA

Lucas Von Der Weid & Marco Marques

 

Publicado originalmente no nº 1 de RODA:
Revista dos Estudantes de História da UFF
http://br.geocities.com/rodauff/

 

 

No nº 0 d'A roda foi publicado um instigante texto intitulado “O valor da dúvida”. Saudamos o autor por sua iniciativa: num tempo de fundamentalismos e extremismos, chamar a atenção para a importância da dúvida na construção do conhecimento e na política é mais do que necessário. No entanto, embora reconheçamos o mérito de seu propósito, não nos furtamos a expressar algumas discordâncias. Não temos, obviamente, a pretensão de compreender o tema nas parcas linhas a seguir, porém julgamos estar, com esse texto, contribuindo para aquele que é um dos objetivos primordiais dessa revista, a promoção do embate construtivo de idéias.

Angústia, este foi o sentimento ao final da leitura do artigo, quando se suplica: “duvidemos”, “não tenhamos certeza de nada”. Será mesmo por aí? Não discordamos, de todo, do papel da dúvida nos dois aspectos mencionados no artigo, porém não concordamos, de forma alguma, que a dúvida seja um objetivo, muito menos o “objetivo primeiro”. A dúvida não é um fim, mas um meio para alcançarmos algo além, seja uma compreensão mais aprofundada sobre a realidade, seja a opção de uma determinada postura política, essas sim as coisas que importam. E é exatamente essa a raiz de nossa discordância, o papel da dúvida para o conhecimento e a política.

Há algum tempo se tinha por discurso científico tudo aquilo que poderia ser comprovado, testado ou verificado na realidade. Isto pode ser facilmente posto em dúvida; por exemplo, se toda informação do mundo nos vem por sentidos (visão, audição,...), e se somos acostumados com isso, como ter certeza de que essas crenças não são enganosas? Como ter certeza na comprovação? Como afirmar verdades?

Esse questionamento, fundamental, abriu portas a novas posturas diante da ciência; não se deve esperar do discurso científico uma confirmação definitiva na realidade, que é, por princípio impossível afinal, os modelos científicos não são a realidade. Do contrário, numa virada muito interessante, pode-se ver a ciência como a possibilidade, não de confirmar argumentos, mas sim de falsificá-los, criticá-los, ou seja, de duvidar deles na base de outros argumentos. Esta proposta, feita por Karl Popper, já seria um grande avanço; no entanto, é possível avançar ainda mais, conforme Thomas Kuhn, justamente quando este coloca a questão da historicidade no problema: o que pode ser tão profundamente questionado quando se vive sob a vigência de paradigmas limitadores? É certo que vivemos sob orientações conjunturais, seja na comunidade científica, ou mesmo na sociedade, que, conscientemente ou não, nos indicam métodos e problemáticas relevantes ou não. Essas influências que o contexto histórico amarra a nossos questionamentos, por si só já impossibilitam uma crítica ilimitada, acrítica é relativa. A incapacidade de lidar com tais limitações, por sua vez, faz com que a postura construtiva que se poderia ter diante da dúvida se degenere e a crítica se transforme numa negação a priori (muito bem expressa no uso corrente que se faz da expressão “eu duvido!”, já negando em vez de questionar) ou um simples relativismo. No entanto, o reconhecimento dos entraves à nossa ação crítica não nos deve conduzir ao pólo oposto; a sucessão e o aperfeiçoamento das idéias devem ter seu valor reconhecido. E então?, o que podemos tomar como 'certo'?

A humanidade, ao longo do tempo, construiu sistemas explicativos, ou orientadores, baseada no que tinha em mãos à época, o 'certo', portanto, também é relativo. Porém, sucessivamente superados, pois sempre limitados, esses sistemas explicativos não estavam necessariamente "errados" por terem sido ultrapassados. Os sistemas mais aprimorados, afinal, são criados a partir das limitações dos mais primitivos, alguns conceitos confusos podem ter sido substituídos, mas por outros criados para refutá-los, em diálogo. O que acontece, e isso é importante, é a superação dos sistemas baseada no que se tem a mão na própria época, à base dos 'certos' e 'errados' relativos ao tempo se encontram incoerências nos modelos, o que permite a transformação do conhecimento. E o que importa, repetimos, é ter o conhecimento dos sistemas explicativos do presente momento em que se vive, sem pressupô-los certos ou errados de antemão, mas conhecê-los, saber apreciar a sua estrutura, a sua justificação, até mesmo para poder criticá-los, se assim se quiser.

A dúvida, por outro lado, não deve ser tratada de modo exclusivamente teórico, uma vez que possui também implicações práticas, dentre as quais certamente a que mais nos preocupa é a paralisia que um suposto questionamento 'ilimitado' pode nos conduzir, em especial no campo da política. Se buscamos atuar no mundo, transformá-lo, devemos nos esforçar por fazer de nossas concepções, convicções, para que sustentem nossas ações, para que sejam ações responsáveis. Como afirmou o pensador peruano José Carlos Mariátegui: “o homem resiste a seguir uma verdade enquanto não acreditar nela como absoluta e suprema”. Se, por um lado, muito se tem criticado a ação dos militantes políticos, afirmando-se que suas ações são pautadas por um posicionamento acrítico, deve-se reconhecer um mérito mesmo no mais dogmático dos militantes, o do não se entregar à imobilidade do ceticismo absoluto. Mariátegui, ao afirmar que “o homem chega para partir de novo; no entanto, não pode prescindir da crença de que a nova jornada é a jornada definitiva”, nos dá uma boa mostra da relação construtiva que se poderia estabelecer com nossas convicções, ou seja, enquanto elas pautarem nossas ações, devem ser absolutas, porém, a partir do momento em que percebamos uma discrepância entre elas e a realidade, não devemos nos furtar a criticá-las e, caso necessário, substituí-las.

Nesse sentido, estaremos avançando um passo além do que nos propôs Descartes no século XVII. Como é sabido, o filósofo francês associou a essência de sua própria existência aos atos de pensar e duvidar. Entretanto, suas reflexões encontram limitações na medida em que objetivam encontrar uma verdade única e imutável, não reconhecendo, assim, o caráter relativo e dialético do conhecimento, bem como em sua proposta de estabelecimento de uma moral provisória. Tal moral, balizada por preceitos de extremo conformismo, teria por objetivo pautar sua atuação no mundo enquanto submetia suas antigas convicções ao escrutínio da crítica. Dessa forma, o próprio Descartes demonstra a impossibilidade de conjugar a crítica absolutizada à ação transformadora.

Cabe ainda uma terceira e talvez mais fundamental objeção às idéias de Descartes. Não cremos que a dúvida se aplique a toda a realidade; temos por certo, por exemplo, que nós dois existimos, que vocês, leitores, existem, que não estamos perdendo tempo escrevendo estas muitas palavras, pois essas palavras existem e poderão suscitar muitas críticas, questionamentos e, quiçá, respostas. E vamos acabar com esta história de “será que eu existo?”. Vivemos num tempo e num ambiente em que tudo está sob crítica depreciativa - se comemos algo mais gostoso, isso é ruim para a saúde, vamos morrer disso ou daquilo; se acreditamos numa divindade ou filosofia, nossa!, quão tolos somos!, vamos dar com a cara na parede na "hora do vamos ver"; se somos assim, devíamos ser assados, se somos assados, devíamos ser cozidos, estamos fritos! Não é a toa que pesquisas indicam que os crentes são mais felizes.

Fazemos, pois, a nossa súplica: Vivei!, errar é humano, ninguém perfeito. Mas somos, isso sim, feitos, ou melhor, somos a soma dos passos que damos nesta incompreensível porém deliciosa trajetória de vida.

E podem ter certeza de que nós estamos caminhando!