DUBITO ERGO SUM

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A SACRALIZAÇÃO DO COTIDIANO

Gustavo Bernardo

 

Resenha do livro Profanações, de Giorgio Agamben;
publicado no Jornal do Brasil de 01/06/2007

 

 

No livro Ideia da prosa, de que há tradução para o português apenas em Portugal, Giorgio Agamben diz que “em todas as vidas existe qualquer coisa de não vivido, do mesmo modo que em toda palavra há qualquer coisa que fica por exprimir. O caráter é a obscura força que se assume como guardiã desta vida intocada: vela atentamente por aquilo que nunca foi e, sem que o queiras, inscreve no teu rosto a marca disso. Por esta razão a criança recém-nascida parece já ter semelhanças com o adulto: de fato, não há nada de igual entre esses dois rostos, a não ser, num como no outro, aquilo que não foi vivido”.

O trecho pode bem ser tomado como suma do pensamento deste filósofo italiano que foi aluno de Martin Heidegger e trabalhou com Pier Paolo Pasolini: destaca-se nele que a linguagem e a vida só valem à pena enquanto incompletas, projetos da palavra que ainda não dissemos e da pessoa que ainda não somos.

A obra de Giorgio Agamben centra-se nas relações entre filosofia, literatura e política. A relação entre filosofia e literatura se dá não apenas na temática ou nos objetos escolhidos, mas principalmente através do seu próprio estilo: trata-se de um filósofo rigoroso que escreve muitíssimo bem, como o mostra o trecho acima. A relação entre filosofia e política não se separa, no entanto, da sua discussão estética.

No ensaio “Elogio da profanação”, do livro Profanações, recém lançado pela editora Boitempo, o filósofo tece a sua crítica ao capitalismo por caminho inusitado: ele considera que o capitalismo se transforma numa espécie de religião que não se pode profanar porque tudo ou está no museu ou no shopping ou na mídia. Desta forma, tudo parece devidamente catalogado e exibido no espetáculo que impede o próprio espetáculo, ou seja, que anestesia toda surpresa e toda admiração.

Assim como a religião separa do uso comum aquilo que não pode pertencer aos homens mas tão-somente aos deuses, a política vigente separa do uso comum todo o restante de modo a melhor “capitalizar” as principais conquistas da humanidade, e o faz separando essas conquistas das pessoas. Assim como o pensamento sempre precisou profanar os símbolos religiosos para permanecer pensando, vale dizer, duvidando, a tarefa política da próxima geração passa a ser, então, trazer ao uso comum o que se encontre segregado, ou seja: aprender a profanar para melhor sacralizar o cotidiano, no sentido de torná-lo admirável e espantoso. Para fazê-lo, arte e política devem se misturar, porque somente através dessa aliança podem garantir, para horror dos dogmatismos, que nada se fixe.

Em dez pequenos e iluminados ensaios, Agamben propõe várias profanações. No primeiro ensaio, “Genius”, ele garante que para compreender a concepção de homem é preciso compreender que o homem não é apenas Eu. Do nascimento à morte convivemos com um elemento impessoal, e é precisamente esse elemento impessoal que se pode dizer genial, ele é o nosso Genius: “viver com Genius significa viver na intimidade de um ser estranho”; “é Genius que rompe com a pretensão do Eu de bastar-se a si mesmo”; “Genius é a nossa vida, enquanto não nos pertence”.

O poeta precisa desconfiar da sua autoria para começar a esboçar a sua poesia, ele precisa enfim fingir tão completamente a dor que deveras sente, ao contrário de tentar expressá-la sinceramente. Como diz esse poeta, Fernando Pessoa, no seu Livro do desassossego, a comunicação é impossível mas o fingimento é possível: “fingir é amar”, logo: “amamo-nos todos uns aos outros, e a mentira é o beijo que trocamos”.

A ausência do Eu (e do Deus) nos ajuda. É preciso reaprender com as crianças que sentem um prazer especial em se esconder: “há no próprio fato de ficarem escondidas (...) uma alegria incomparável, uma palpitação especial, a que não estão dispostas a renunciar por nenhum motivo". Assim como a criança, o poeta celebra o seu triunfo no não-reconhecimento. Ainda não é poeta quem lamente que a plebe ignara não o compreende. Serve à liberdade do leitor apenas aquele que escreve livre de si mesmo, isto é, com a ironia que sempre diz outra coisa e que sempre faz de quem escreve e de quem lê um outro.

Por isso, no último e mínimo ensaio, Agamben elege como “Os seis minutos mais belos da história do cinema” aqueles em que Dom Quixote assiste um filme (dentro do filme de Orson Welles) numa cidade do interior da Espanha por volta de 1960. Sobre o telão correm cavaleiros armados, até aparecer a inevitável donzela em perigo. Dom Quixote se levanta, desembainha a espada e com ela ataca o tecido do telão, cortando-o para matar as imagens-vilãs. O público se retira indignado, mas todas as crianças, menos uma, deliram com a performance do cavaleiro que já era anacrônico quando estava no romance de Cervantes. A única criança que não o aplaude é uma menina: ela o fixa com reprovação.

Essa menina é uma pequena Dulcinéia: “a Dulcinéia – que salvamos – não pode nos amar”.