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DA ADAPTAÇÃO DE UM CLÁSSICO
COMO CRIME DE LESA-LITERATURAGustavo Bernardo
(versão integral)
Publicado originalmente
no Jornal do Brasil
de 19 de maio de 2007
Na edição passada do Idéias Álvaro Costa e Silva fez uma boa defesa das adaptações literárias para jovens, tendo o cuidado de ressalvar que há gente boa pronunciando-se a favor e contra essas adaptações. Como faço parte da gente boa que é contra essas adaptações, apresso-me em fazer o devido contraditório. Para limpar o terreno, retiro do campo das adaptações o famoso Dom Quixote das Crianças, de Monteiro Lobato: aquela obra é uma apropriação honesta do livro de Cervantes, trazendo-o para dentro do Sítio do Picapau Amarelo. Monteiro Lobato não esconde a Dona Benta nem a si mesmo, como autor da obra que quis fazer uma homenagem ao outro autor, Miguel de Cervantes. A esta e a outras apropriações não faço restrição. Terreno limpo, argumentemos.
Considero as adaptações literárias para jovens uma praga e ainda quando bem feitas, porque o mal que fazem se torna mais difícil de perceber. Na prática, todas as adaptações são muito menores do que os originais que adaptam, corroborando a tese de que a velocidade da vida moderna exige livros cada vez mais finos. Ora, esta exigência implica outra: deve-se ler cada vez menos.
Adaptadores e professores têm boa intenção: divulgar um grande autor para jovens leitores que de outra forma não o conheceriam. No entanto, ler o “grande” na forma “pequena” impede a compreensão e até o conhecimento do verdadeiramente grande. Crianças que lêem uma adaptação crescem convencidas de que já leram o livro que de fato nunca leram. O argumento de que só através das adaptações as crianças podem ser apresentadas aos clássicos é falacioso. Na verdade, elas são apresentadas a versões tão reduzidas que não sobra praticamente nada do estilo original. Como literatura é forma e estilo, pode-se dizer que sobra apenas uma anti-lição de facilitação, tão ruim quanto a rima que acabei de fazer.
Nenhuma adaptação de Alice no país das maravilhas, por exemplo, enfrenta os seus paradoxos lógicos. O episódio em que Alice cresce e diminui até se deformar numa menina de cabeça enorme e corpo pequenino é emblemático do dilema das adaptações dos clássicos. Nossa época e ensino acabam produzindo Alices ao contrário: leitores de corpo enorme, alimentado a toddynho, e cabeça mínima, alimentada por adaptações e outras facilitações.
A única maneira de levar os jovens aos clássicos está em levá-los a ler cada vez mais e melhor, e sem pular etapas. Há literatura de excelente qualidade para todas as idades: por que adotar livros em miniatura? Por que seguir o exemplo nefasto das nefastas Seleções do Reader’s Digest ? Admito que a intenção possa ser boa, mas o resultado é um crime de lesa-literatura que afeta tanto o livro, que perde a oportunidade de ser lido adiante, quanto o leitor, que perde a oportunidade de ser desafiado. Reforça-se assim uma cultura do facilitário, vendendo o gato no lugar da lebre e a adaptação, ou melhor, a redução, no lugar do livro original.
De adaptação em adaptação chegamos ao mundo de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury: aquele em que todos os livros são adaptados, ou seja, simplificados, depois reduzidos a meros verbetes de uma única enciclopédia, finalmente queimados em praça pública. O passo seguinte? Incinerar os próprios leitores, por inoportunos e obsoletos.