DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Miguel de Cervantes

 

 

ESCRITURA CERVANTINA E MITO QUIXOTESCO
NO ROMANCE BRASILEIRO

Maria Augusta da Costa Vieira

 

 

Publicado originalmente na Revista Hispania
Volume 85, Number 3, September 2002

 

 

É muito provável que quando Cervantes se refere à recepção do Quixote em terras chinesas, na Dedicatória ao Conde de Lemos (1615), esteja implicitamente dialogando com Avellaneda. Conta Cervantes que recebeu uma carta do imperador da China, redigida em chinês, em que expressa o desejo de fundar um colégio onde se aprenda a língua castelhana a partir da leitura do Quixote. A carta ainda o convida para ser o reitor do colégio embora não lhe ofereça nenhuma ajuda financeira para tal empresa. A exaltação à difusão da obra no Oriente é, em seguida, rebaixada ironicamente por meio do relato da avareza do imperador, compatível, sem dúvida, com a precária situação financeira do autor.

Ao que tudo indica, embora o receptor explícito da Dedicatoria seja o Conde de Lemos, seu receptor implícito é Avellaneda, o autor do Quixote apócrifo, que teria parodiado o Prólogo cervantino de 1605 ao se referir ao alcance da obra. O tema desse duelo à socapa entre Cervantes e Avellaneda recai portanto na questão da recepção, evidenciando, se não um fato, ao menos a projeção de uma ampla divulgação da obra, com a intuição certeira de que ela correria mundo.

Com efeito, o Quixote se difundiu por todas partes, inclusive na China como queria o imperador, obtendo um alcance internacional inigualável. O próprio Galdós tratou de explicar o fenômeno do elevado número de leitores da obra cervantina em relação às demais obras clássicas do Ocidente por intermédio do excepcional poder comunicativo que o texto detém, capaz de atingir uma diversidade de leitores, jovens e velhos, cultos e ignorantes.(1) O alcance da obra pode ser avaliado pela quantidade de criações que de uma ou de outra forma, por meio de diferentes linguagens, trataram de recuperar as imagens do cavaleiro e seu escudeiro.

No Brasil, a obra não teve destino diverso. Como em outras partes, verifica-se a presença do mesmo paradoxo quando se trata da recepção do Quixote, ou seja, apesar de ser bastante conhecido, é de fato pouco lido. Constata-se que no caso da obra cervantina, o texto literário acabou criando um mito que na realidade se difundiu muito mais do que propriamente a obra, constituindo desse modo um percurso algo particular: uma obra literária que gerou um mito. Não é o caso, no momento, de averiguar as possíveis razões intrínsecas à obra que conduzem à esta solução, ainda que em sua recepção no Brasil prevaleça a abordagem por intermédio do mito.

Para tratar das andanças de Dom Quixote em terras brasileiras é preciso ter em conta ao menos três pressupostos: um deles se refere a questões de ordem histórica e cultural que envolvem as relações entre Brasil e a Península Ibérica; o outro diz respeito a uma questão teórica relacionada com a literatura comparada e o terceiro se volta para uma questão de crítica literária, situada no interior dos estudos cervantinos, com o objetivo de resgatar alguns dos parâmetros que, de um modo geral, balizaram as interpretações sobre o Quixote.

 

O Brasil e a Península Ibérica:

 

Seria possível afirmar que poucas vezes o Brasil esteve tão à procura de si mesmo quanto nos anos 20 e 30. A realização da Semana de Arte Moderna em 22, que por sua vez coincide com o centenário da independência, pode ser considerada como o início de um momento fundamental em que se repensa o Brasil e seu passado a partir de outras bases. Os trabalhos de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, entre outros, constituem marcos significativos desse momento. No entanto, a recorrência que ora se faz a algumas dessas reflexões obedecem a uma motivação muito específica: o resgate de algumas idéias, até mesmo secundárias dentro da complexidade das análises, que se referem às relações entre o Brasil e a Península Ibérica e que, indiretamente, podem situar a inserção do Quixote no contexto brasileiro.

De um modo geral, ao longo da história, a literatura brasileira manteve-se em estreito contato com as letras da metrópole, antes e mesmo depois da independência política. Mas, de um modo geral, quando o olhar brasileiro foi deixando as terras lusitanas, sem muita hesitação caiu nos braços da capital francesa. Em alguns momentos se tem a impressão de que se quis fabricar a idéia de que se a língua é portuguesa, a cabeça, ao menos, é francesa. Sem menosprezar o espaço que as demais culturas européias ocupam na história do Brasil, o fato é que somos ibero-americanos e os pensadores dos anos 30 sabiam que não se constrói um futuro melhor sem se deter nos percalços que o passado nos legou.

Observa Sérgio Buarque de Holanda (1995), referindo-se a uma idéia que gira em torno do nosso passado colonial, que não é difícil encontrar a “opinião extravagante defendida por um número não pequeno de detratores da ação dos portugueses no Brasil, muitos dos quais optariam, de bom grado, e confessadamente, pelo triunfo da experiência de colonização holandesa, convictos de que nos teria levado a melhores e mais gloriosos rumos.” (1995: 43) Se o objetivo é desvendar os pilares que constroem a nossa identidade, o ponto de partida é o mundo ibérico e seus valores sociais predominantes. Como diz Buarque de Holanda, contrapondo-se à crença na radical singularidade brasileira, compartilhamos uma “alma comum a despeito de tudo quanto nos separa”. Se o personalismo é um traço decisivo da gente hispânica, é preciso ter em conta as “determinantes psicológicas” que atuaram no movimento ibérico de expansão colonial. Por meio da contraposição de dois tipos sociais que se manifestam nas mais diversas sociedades – o do aventureiro e o do trabalhador – o autor constrói a singularidade histórica brasileira que privilegiou o tipo aventureiro e reservou um papel quase nulo ao trabalhador. Isto é, privilegiou o tipo que valoriza o objeto final e não o seu processo de construção, que ignora as fronteiras e vive dos “espaços ilimitados, dos projetos vastos, dos horizontes distantes” (1995: 44). O gosto da aventura foi portanto um dos motores decisivos da vida nacional que incidiu numa disposição de conduta presente no próprio processo de formação.

Deixando de lado outros aspectos substanciosos de Raízes do Brasil, seria importante destacar o gosto da aventura como algo que integra a identidade ibero-americana e que em algum sentido coincide com as andanças da personagem cervantina, especialmente no que tange aos “espaços ilimitados, projetos vastos e horizontes distantes”. No entanto, se é possível encontrar a coincidência entre as motivações aventureiras da personagem e as disposições da “alma” ibero-americana, seria possível também contra-argumentar tal afirmação dizendo que esta aproximação se restringe ao campo das interpretações e que em nenhum momento Buarque de Holanda identifica explicitamente a presença de algo quixotesco nos andaimes da identidade brasileira.

Quem de fato recorre ao Quixote para a figuração do que seria a identidade ibero-americana é Gilberto Freyre. Em Casa grande & senzala (1933), Freyre encontra novos referenciais analíticos para investigar e reconstituir os diversos componentes da sociedade patriarcal que passam especialmente pelo estudo da vida cotidiana dos diversos elementos que constituem esta sociedade, com a preocupação contumaz de traçar a identidade do brasileiro, recorrendo a fontes não convencionais. Desse modo, utiliza uma metodologia inovadora que encontra no âmbito privado, e não nas instituições públicas, o eixo central para a análise da formação nacional, sempre tão conectada com as questões ibéricas. Um aspecto a ser observado é a presença marcante do pensamento espanhol, especialmente Ganivet, Unamuno, Pio Baroja, Ortega y Gasset, Américo Castro, Lain Entralgo, entre outros, no quadro de referências de Gilberto Freyre. Seu “iberismo”, no entanto, se explicita de forma mais contundente numa obra posterior – O brasileiro entre outros hispanos – em que o autor analisa “o que há de hispânico na cultura brasileira” ao mesmo tempo que persegue “o que há de transnacional na cultura hispânica” (1975: xxxi). Com esta preocupação Freyre redesenha a geografia, encontrando uma unidade ibero-americana que nos singulariza em relação aos demais países europeus e norte-americanos. Sem ignorar as diferenças lingüísticas e de algumas formas de comportamento, reconhece que as afinidades presentes nesse mundo hispânico – e hispânico, no caso, não corresponde a espanhol ou castelhano - são muito mais profundas que os contrastes que os diferenciam.

O aspecto fundamental na construção da singularidade ibero-americana encontra-se na noção de tempo que, ao contrário de outros povos, para os ibero-americanos ou hispanos o tempo não corresponde à idéia de progresso. O contato entre os europeus ibéricos com outras culturas como a oriental, ameríndia e africana, onde a noção de tempo se estrutura especialmente sobre o mito, a religião e o folclore , fez com que se afastasse a idéia do “progresso histórico” e se privilegiasse outra noção de tempo centrada na existência e não propriamente na história (1975: 10). Daí a preferência marcada dos hispanos, que optam sempre pelo ócio em detrimento do negócio (1975: 44).

Um outro traço hispânico seria a predileção pela mescla entre o “nacional e o local, o hispânico e o universal, o histórico e o não-histórico” já observada por Karl Vossler (1975:l-li). Mescla tão ao gosto cervantino e também machadiano que, no dizer de Freyre, além de ser característica dos dois autores, se configura como uma tendência marcadamente hispânica.(2) O Quixote intervêm em vários momentos dessas reflexões multidiciplinares de Gilberto Freyre como paradigma do ethos hispânico, seja por meio da “busca de uma nova linguagem coloquial” (1975: liv) em que se dignifica o popular e o cotidiano, seja pelo “gosto louco de aventura à la Dom Quixote” combinado com um gosto de segurança da vida humana (1975: 47). Desse modo, Cervantes não seria apenas o autor clássico da literatura espanhola e sim do mundo ibero-americano que, para Freyre, se move entre o “trasnacional sem repudiar o nacional; suprapessoal, simbólico, universal nas suas culminâncias, sem rejeitar o pessoal, o individual, o particular, nas suas raízes; busca do essencial, sendo constantemente existencial” (1975: 115).

Se as idéias dos anos 30 apontaram para um novo conceito de Brasil integrado no contexto hispânico, é preciso ter em conta que esta não foi a tendência predominante ao longo da história. A constatação, nas próprias colônias latino-americanas, das múltiplas deficiências das metrópoles ibéricas, acabou promovendo uma abertura progressiva para o exterior, especialmente para a França e Inglaterra que constituíam grandes centros produtores de idéias. No Brasil, em consonância com a reação antilusitana, se assistiu a uma francofilia que se propalou no âmbito ideológico, artístico e cultural, privilegiando a onda neoclássica em detrimento das criações barrocas, tão fecundas e originais, tanto no Brasil quanto nos demais países latino-americanos (Machado. 1999: 47). Com isso, seria possível indagar se no âmbito dos estudos de literatura comparada não ocorreu algo semelhante no sentido de se ter privilegiado um quadro de referências muito mais centrado na França e Inglaterra do que propriamente nas produções ibero-americanas. Tendo em conta esta possibilidade, o presente trabalho se insere portanto dentro da perspectiva que trata de recuperar os laços ibéricos e que, guardadas as devidas diferenças,  reconhece as estreitas conexões de ordem cultural.

 

A recepção do Quixote no Brasil e a literatura comparada:

 

É preciso reconhecer com Antonio Candido (1993, 211) que “estudar literatura brasileira é estudar literatura comparada” devido aos estreitos vínculos que a produção literária manteve com exemplos externos e também devido ao procedimento recorrente dos estudiosos que formavam o juízo crítico a partir de possíveis aproximações a textos estrangeiros. Desse modo, antes mesmo da instauração e divulgação da literatura comparada, existiu a prática espontânea de um certo comparatismo que tratava de considerar as obras a partir de referenciais criados pela literatura estrangeira. Nem sempre, no entanto, esta crítica esteve atenta ou considerou com maior abrangência a questão da “influência” da literatura estrangeira sobre a nacional, no sentido de deslindar o que veio como “transposição direta” do que se incorporou à estrutura da obra, adquirindo “um significado orgânico” (Candido, 1972. 38).

Uma questão semelhante incidiu também na própria definição de literatura comparada. Semelhante porque quando se trata da crítica literária que se desenvolveu no Brasil, se está pensando em resultados, enquanto que quando se trata da definição da literatura comparada, se está pensando em princípios, em caminhos críticos. Mas de qualquer forma, um dos problemas que recaíram sobre a definição da literatura comparada, cujos conteúdos e objetivos mudam com certa freqüência, girou em torno do que deveria ser privilegiado: se os contatos históricos reais ou as semelhanças tipológicas. Em outros termos, o problema recaiu na definição do objeto dos estudos comparados no sentido de definir para onde deveria convergir o olhar comparatista: para o estudo das relações que de fato se estabelecem historicamente entre os textos, que é a postura mais tradicional, ou para o estudo das afinidades tipológicas centrado na literariedade e na idéia de que a literatura forma uma unidade que ultrapassa fronteiras lingüísticas e nacionais, defendida especialmente por Wellek (1963). O avanço dos estudos comparados acabou conduzindo à constatação de que não se podia estabelecer uma literariedade abstrata e descontextualizada e, entre as orientações do novo paradigma da literatura comparada que se deu na década de 80, a “situação de comunicação literária” passou a constituir objeto de pesquisa que inclui a diversidade do público leitor e dos contextos de recepção. Uma das conseqüências da incorporação da diversidade como objeto de análise foi a de que a interpretação dos grandes textos da literatura não têm uma única interpretação adequada e “as interpretações se diferem entre si porque há interesses e contextos de recepção diferentes” (Fokkema, 1982). Esta idéia é especialmente importante quando o objeto de estudo que se tem em mãos é a recepção do Quixote no Brasil, com a perspectiva nítida de abarcar a diversidade.

Certamente, este tipo de investigação se insere no conjunto de estudos voltados para a intertextualidade, com a preocupação de abordar o trabalho de transformação e assimilação que ocorre em vários textos a partir de um texto centralizador (Jenny, 1976). Além disso, seria fundamental esclarecer que no caso específico do Quixote, se impõe a noção de recepção compreendida num sentido amplo que englobe não apenas os textos literários mas também outras linguagens que se pautaram pela obra de Cervantes.

 

Alguns parâmetros na interpretação do Quixote:

 

Como é sabido, o Quixote foi perpetuado não apenas pelas inúmeras reimpressões e traduções como também pela criação de muitos personagens que contêm nítidos elementos quixotescos. A rigor, todo romance em alguma medida deve seu tributo ao Quixote, ou melhor, como diz René Girard (1961. 57), não há uma idéia no romance ocidental que não esteja presente em germe em Cervantes. Embora esta afirmação por um lado seja convincente, por outro ela perde pela generalização na medida em que não contribui para a avaliação dos diversos matizes presentes nas projeções quixotescas em outras literaturas. Além do mais, se concentra numa das possibilidades de difusão da obra – o romance - quando se sabe que a obra de Cervantes seduziu uma multiplicidade de linguagens, não apenas no âmbito literário, isto é, a lírica, o drama e também a crítica literária mas também no campo da música, pintura, escultura, teatro, cinema, artes gráficas, etc.

Não resta dúvida de que a mais completa sistematização que se fez a respeito da recepção do Quixote no contexto internacional se concentre no campo da crítica literária, mais especificamente no âmbito da interpretação, onde vários cervantistas, nem sempre de modo muito sistemático, trataram de colocar ordem num verdadeiro oceano interpretativo. Quem se dedicou especialmente a esta tarefa nos últimos anos foi Anthony Close que extraiu do conjunto das muitas leituras que se fez da obra uma organicidade relativa às tendências mais pronunciadas presentes nos trabalhos críticos sobre o Quixote.

Seguindo os parâmetros apontados por Close (1998), os estudos cervantinos não fugiram à regra que norteia os estudos clássicos. Isto é, tiveram que optar seja pela compreensão histórica baseada no domínio lingüístico e nas circunstâncias específicas do autor e de seus leitores contemporâneos, seja pela adequação da obra à perspectiva mental do leitor moderno. O equilíbrio entre estas duas tendências se dá por intermédio de uma terceira tendência que tem uma natureza híbrida pois tenta aliar as duas tendências anteriores. A primeira tendência conta com o rigor metodológico enquanto que a segunda apresenta um caráter acomodatício que trata de ajustar a obra a outros tempos. Entre estes dois procedimentos encontra-se a terceira tendência que apresenta um movimento complementar ou conciliador entre um fluxo liberalizante e um refluxo regulador.

Anthony Close ilustra de modo sugestivo os diferentes procedimentos interpretativos recorrendo à discussão que se dá entre Dom Quixote e Sancho no episódio do “yelmo de Mambrino” (XXI; Quijote I). Como se sabe, para Dom Quixote o objeto encontrado é o autêntico elmo enquanto que para Sancho não passa de uma bacia de barbeiro. A disputa entre as duas designações se apazigua quando Sancho, brilhantemente, propõe a solução “baciyelmo”. Para Close, “bacía” se refere à atitude pautada pelo historicismo e pelo rigor metodológico mais característica de Sancho enquanto que o “yelmo” diz respeito à atitude acomodatícia predominante em Dom Quixote. O resultado dessa tensão é a criação de um objeto híbrido – “baciyelmo” – que também constitui uma possibilidade de abordagem crítica.

A tendência de fluxo regulador é sem dúvida a que freqüenta com maior familiaridade a academia e os estudos especializados enquanto que a tendência de fluxo liberalizante está declaradamente mais próxima do mito e das livres interpretações sem temer eventuais e prováveis anacronismos. Talvez não seja muito lembrar que embora essas possíveis atitudes intervenham especialmente na abordagem dos textos clássicos, elas se pronunciam mais enfaticamente quando a obra que se tem em mãos é o Quixote - objeto privilegiado para o estudo filológico, estilístico e histórico, ao mesmo tempo que se mostra extremamente permeável às questões mais contemporâneas, tocando de modo particular nas fibras do leitor moderno.

Na recepção do Quixote no Brasil, prevaleceu a atitude acomodatícia, o que se explica em parte pelo fato de não se dispor, em terras brasileiras, de uma tradição de estudos hispânicos e muito menos de estudos cervantinos. Assim, o inusitado cavaleiro muitas vezes se amoldou ao mito ou à leitura da obra lapidada pela interpretação romântica e se ajustou às questões que inquietavam o panorama nacional. Quando as vozes cervantinas se manifestaram, é possível dizer que se tratou de uma exceção à regra.

 

Andanças quixotescas e vozes cervantinas no romance brasileiro:

 

Como em outras partes, o Quixote no Brasil, graças ao seu enorme poder imaginativo, estimulou não apenas a criação, recorrendo a diversos gêneros e linguagens, mas também despertou para a reflexão por intermédio de interpretações e comentários sobre a obra preocupados em desvendar o universo dos sentidos. O que mais suscitou interesse foi sem dúvida a figura do cavaleiro que, em alguns momentos se compõe com o escudeiro e mais raramente com a amada.

Dentre a pluralidade de recriações quixotescas, destacam-se a comédia Vida do grande D. Quixote de La Mancha e do gordo Sancho Pança (1733) de Antonio José da Silva, por antonomásia o Judeu, as revistas satíricas que exploraram a caricatura no final do século XIX e primeiras décadas do XX (3), o “Grupo Quixote” de Porto Alegre que se forma em 1947, com a proposta de criar um movimento modernista no sul do país, o ensaio que atravessa várias gerações passando por Olavo Bilac, José Veríssimo, Josué Montello, Câmara Cascudo, Brito Broca, Vianna Moog, San Tiago Dantas, Augusto Meyer, entre outros, as adaptações da obra para o público infanto-juvenil das quais se destaca O Dom Quixote das crianças (1936) de Monteiro Lobato e a combinação dos desenhos de Portinari com os poemas de Carlos Drummond de Andrade (1973) a partir de uma seleção de fragmentos da obra. O repertório é incompleto, sem dúvida, no entanto oferece uma mostra do interesse que a obra suscitou no Brasil, particularmente, ao longo do século XX.

Com relação ao gênero romance, é necessário reiterar a idéia de que o Quixote está na matriz do gênero e, implícita ou explicitamente, a partir de contatos reais ou por intermédio de semelhanças tipológicas, o fato é que a obra cervantina se encontra nas reminiscências da forma. Tendo em conta esta onipresença, se é possível dizer dessa forma, seria importante encontrar outros referenciais que possibilitem diferenciar matizes na recepção da obra.

O conjunto das “reescrituras” permite definir duas possíveis relações com o Quixote: uma delas se baseia no mito quixotesco; a outra, na escritura cervantina. Quando se tem em conta a relação pautada pelo mito, são privilegiados os aspectos temáticos e as conexões entre história e ficção. A idéia de um projeto grandioso e impossível, seja no âmbito rural ou urbano, com tendência mais ou menos social, está sempre presente. Por outro lado, quando o vínculo se dá por meio da escritura, o que entra em cena de modo privilegiado são as questões voltadas para a composição, para o modo de contar a história, para tensão entre leitor e narrador e, em última análise, para a perspectiva estética.

Quando se trata de considerar os vínculos do Quixote a partir do mito é importante ter em conta que o Romantismo, de um modo geral, contribuiu consideravelmente para a difusão da obra e sobretudo as interpretações dos românticos alemães abriram novas vertentes imaginativas. Em alguns casos, as reminiscências do engenhoso cavaleiro, confundido com sua névoa idealista, passaram a estabelecer conexões com a história de modo que suas loucuras já não seriam um “privilégio pessoal” e sim representariam algumas das aspirações mais genuínas de um grupo social. É como se através de Dom Quixote se tornasse possível a recuperação das raízes cavaleirescas combinadas com um heroísmo romântico, às vezes de caráter messiânico, como ocorre em Portugal com alguns escritores do século XIX (Abreu, 1994). Ainda em relação ao mito quixotesco é importante considerar que o ímpeto que orienta a ação de Dom Quixote tem sua origem nos livros de cavalaria e baseia-se sobretudo na convicção de ser capaz como cavaleiro de transformar o mundo, de modo que seu projeto pessoal redunde num benefício social. Considerando as façanhas do cavaleiro a partir dessa perspectiva, é possível encontrar na literatura uma enorme descendência de personagens que, mais ou menos loucos, porém aliados aos princípios humanitários, acreditaram nas transformações do mundo.

Na literatura brasileira é possível destacar dois romances que de algum modo remetem à obra de Cervantes a partir do mito quixotesco. Talvez seja aconselhável mencionar que os dois autores em questão foram apreciadores da obra cervantina e que seus respectivos romances foram publicados nas primeiras décadas do século XX. Posteriormente se fará uma volta no tempo com o intuito de considerar a obra de Machado de Assis a partir das prováveis conexões com a escritura cervantina.

Muito familiar ao universo quixotesco é Policarpo Quaresma, personagem central de Triste fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto. A personagem se concentra num projeto de caráter épico que propõe alternativas para redirecionar os tortuosos caminhos da nação. Patriota empedernido, busca o ressurgimento das raízes brasileiras no momento em que as referências estrangeiras, especialmente os modelos da vida urbana parisiense, vão se impondo na vida nacional. O romance, publicado em forma de folhetim em 1911 e como livro em 1915, surge em tempos de profundas contradições sociais e políticas. A ideologia do êxito econômico e da ascensão social ganham espaço no momento em que ainda predominam valores e estruturas tradicionais.

Policarpo Quaresma é um comandante militar que se dedica a trabalhos burocráticos no Arsenal de Guerra no Rio de Janeiro. Nos momentos de lazer, se fecha em sua biblioteca e se põe a estudar o Brasil: riquezas naturais, geografia, história, política, cultura e literatura. Está convencido de que seu conhecimento o autoriza a propor reformas radicais. Apesar das muitas leituras que foi acumulando, Policarpo é um tipo tímido que não dispõe da grandiloqüência quixotesca. Deixa a impressão de ter passado a vida dialogando com os livros, submerso no seu silêncio. Como o cavaleiro, por volta dos cinqüenta anos, torna público seu projeto que trata de uma extremada reforma lingüística no sentido de adotar o tupi como língua oficial do Brasil, resgatando assim as legítimas raízes brasileiras. Com uma idéia tão desatinada, não demora muito para se tornar vítima da opinião pública que o exclui da sociedade, internando-o num manicômio. Seu segundo passo caminha na mesma direção: apresenta ao governo um memorial para a recuperação da agricultura nacional, o que certamente não recebe a menor atenção das autoridades. Novamente é submetido à exclusão social, só que dessa vez vai parar na prisão. De certo modo, Policarpo recupera para o Brasil da belle époque a figura satírica do arbitrista, tão fecunda na Espanha do “Século de Ouro”, que não hesitava em propor planos mirabolantes, na maioria das vezes, para soerguer no âmbito ibérico o vasto império de Felipe II. Vítima de uma profunda desesperança, Policarpo já não acredita nas possíveis transformações na ordem das coisas e, sem projetos, se deixa morrer.

A configuração quixotesca da personagem não se limita ao inconformismo que se consumiu em anos de silêncio repletos de espelhismos ou ao afã de erudição unido a excêntricas idéias nacionalistas. Sua convivência social é limitada e seus interesses incompatíveis com os da sociedade. Do desencontro entre a visão da sociedade e a do protagonista nasce o projeto crítico da obra que configura um Brasil arcaizante, contraposto a um sonho utópico. Em meio ao riso que provocam as loucuras de Policarpo, desponta o cerne do personagem que se caracteriza por um idealismo social e patriótico incongruente, combinado com uma ferrenha fidelidade aos princípios. Assim como Dom Quixote, o personagem se situa na imbricação do trágico e do cômico, da loucura e da sensatez. Sua trajetória, semelhante à do cavaleiro, parece estruturar-se sobre um projeto essencialmente ingênuo e grandioso que teve que se deslocar do âmbito da épica para o mundo circunscrito da individualidade.

Com destino diferente e com marcas quixotescas mais discretas, o Coronel Vitorino Carneiro da Cunha, personagem de Fogo morto (1943) de José Lins do Rêgo constitui outra retomada dos passos do cavaleiro. Na linha do romance social que se desenvolve por volta dos anos 30 e 40, junto com Gilberto Freyre e outros, José Lins cria o Movimento Regionalista com o intuito de assegurar tradições e valores nordestinos e com a preocupação de aprofundar a visão crítica da sociedade por intermédio da criação de personagens com consistência social e psicológica.

O romance se instala na decadente realidade rural do nordeste e a análise do tempo e do espaço se desenvolve a partir de três personagens nucleares que ocupam diferentes posições na sociedade e sofrem as conseqüências de uma realidade de alternativas escassas ou quase nulas. Um desses personagens, o Coronel Vitorino, embora guarde parentesco com os senhores de engenho, representa a parte empobrecida da aristocracia rural. O que o distingue dos demais é a perspectiva quixotesca que o converte num paladino da justiça e dos necessitados, encontrando na palavra sua arma principal e rondando os campos sempre montado num cavalo franzino. No entanto, sua intervenção é quase sempre improdutiva pois seus critérios já não correspondem à realidade social. O narrador garante a visão ampla do personagem compensando a fragilidade física pela densidade moral, o fracasso na ação pela intenção humanitária. Embora mantenha o distanciamento em relação aos impulsos ineficazes do Coronel Vitorino, o narrador não carrega tanto nas tintas realistas a ponto de transformá-lo num personagem cômico. A presença do cavaleiro no romance se concentra sobretudo na expressão da resistência, no sentido de assegurar os princípios humanitários num mundo que parece se perder num redemoinho. Ainda que o personagem não tenha capacidade para transformar a realidade, sua ação alimenta o projeto quixotesco de uma sociedade nova.

Tanto em Policarpo Quaresma quanto em Fogo morto o mito quixotesco se amolda às personagens. As alusões à obra são implícitas e deixam entrever uma leitura romântica que privilegia o simbolismo da ação quixotesca e sua verdade idealista a partir de diferentes realidades brasileiras.

Uma relação diferente se estabelece quando a zona de contato se dá por intermédio da escritura cervantina. Em lugar de enfocar a presença do cavaleiro carregado de simbolismos, o foco se volta particularmente para questões relacionadas com a composição num sentido amplo. Essa relação constitui, em certa medida, uma exceção à regra quando se tem em conta os ecos do Quixote em diferentes literaturas e em diferentes tempos. No caso do Brasil, Machado de Assis parece ter sido aquele que ultrapassou os lados mais sedutores do cavaleiro impregnados de idealismos e melancolias e abarcou em seus olhares a complexidade literária cervantina. Certamente a questão é intricada e exige um estudo rigoroso da obra machadiana. Também é bom lembrar que embora o Quixote tenha sido livro de cabeceira de Machado, a fortuna crítica não deu atenção às possíveis assimilações com respeito à obra de Cervantes, o que não aconteceu com autores ingleses e franceses dos séculos XVIII e XIX. No entanto, é necessário se ter em conta que, no caso, a inexistência de estudos críticos não corresponde à ausência das marcas cervantinas.

Ao que tudo indica, Machado, como Cervantes, concebia a literatura como um oceano onde as águas se entremeiam continuamente. Diz em Esaú e Jacó (1904), como que legitimando um procedimento iniciado em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881): “as próprias idéias nem sempre conservam o nome do pai; muitas aparecem órfãs, nascidas de nada e de ninguém. Cada um pega delas, verte-as como pode, e vai levá-las à feira, onde todos as têm por suas.” Este amálgama de idéias dificulta o reconhecimento da paternidade, no entanto na obra de Machado de Assis as alusões ao ao Quixote são várias, algumas mais explícitas, outras mais figuradas.

Limitando-se a apenas dois exemplos situados nos momentos que abrem e cerram o romance Quincas Borba (1891), é possível constatar estas duas modalidades alusivas. No diálogo inicial, quando o “filósofo” trata de explicar a Rubião em que consiste a frase célebre “ao vencedor, as batatas” e a filosofia do “humanitismo”, há uma alusão explícita à obra cervantina focalizando sua imortalidade: “Vês este livro? É Dom Quixote. Se eu destruir o meu exemplar, não elimino a obra, que continua eterna nos exemplares subsistentes e nas edições posteriores. Eterna e bela, belamente eterna, como este mundo divino e supradivino.” (Quincas Borba, cap. VI, 11). No final, na narração dos últimos instantes de Rubião que delirante propaga “ao vencedor, as batatas”, o narrador relata seus derradeiros movimentos que buscam fixar uma imagem que existe unicamente na imaginação: “Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça – uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor, ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada;” (cap. CC, 185). A cena já foi tratada pela crítica que encontrou na ação de Rubião a nítida correspondência com um episódio da história francesa quando Napoleão I, “durante sua coroação pelo papa, tira dele a coroa e a coloca sobre a própria cabeça” (Passos, 2000. 77). No entanto, se a coroa se remete a Napoleão, a que se refere a “bacia”, objeto tão inesperado e semanticamente deslocado do contexto, que integra a explicação dada pelo narrador? Ao que tudo indica, encontra-se aqui uma alusão figurada a Dom Quixote – provavelmente a única personagem da literatura ocidental que correu mundo levando na cabeça uma bacia de barbeiro - que faz resvalar a imagem de Rubião pela figuração do cavaleiro.

Talvez não seja precipitado afirmar que o silêncio da crítica machadiana em relação ao Quixote se deva ao conhecimento diminuto em relação à obra de Cervantes ou mesmo a uma leitura inflexível, fixada no mito. Não é necessário percorrer toda a obra de Machado de Assis para constatar, por exemplo, a presença do humor e da ironia, de personagens vítimas de uma idéia fixa e a recorrência ao tema da loucura imbricada com a razão, questões que se encontram no núcleo da própria identidade de Dom Quixote, definido com perplexidade por vários personagens como “un entreverado loco, lleno de lúcidos intervalos” (DQ, II, 776)

É louvável o trabalho de Eugenio Gomes sobre a influência inglesa em Machado no sentido de deslindar em vários níveis a presença de autores ingleses, algo semelhante ao que outros fizeram em relação à literatura francesa. No entanto, é fundamental se ter em conta que uma grande referência para os narradores ingleses foi a narrativa espanhola do “século de ouro”: mais especificamente, o romance picaresco e a obra de Cervantes, sobretudo o Quixote.

Num capítulo dedicado à presença de Sterne em Machado, Eugenio Gomes chama a atenção para a rede textual que conta também com o influxo de Garrett e Xavier de Maistre em Memórias póstumas de Brás Cubas. Destaca, particularmente, o percurso ziguezagueante da narrativa presente nos romances em questão, com as digressões do narrador que parecem evitar o anedótico. Se de fato Machado entrou em contato com Sterne por intermédio de Garrett, é importante se ter em conta que tanto o autor inglês em Tristram Shandy quanto o lusitano em Viagens na minha terra se remetem seguidamente ao Quixote.

Em Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado também adota a narração descontínua e faz de seus percursos um tema de modo que o leitor se vê envolvido nas fibras da narrativa. Enquanto o narrador se distrai da fastidiosa condição de defunto, o leitor se vê em mãos de um narrador cuja atitude roça a loucura. Como em Garrett, Sterne, e Xavier de Maistre, a digressão é um elemento estruturador do romance, responsável pelo estilo sinuoso que conta a história sem os alinhavos, como se estivesse seguindo o traçado de um ébrio.

É ineludível o fato de que Cervantes tenha sido o primeiro a introduzir no romance as digressões metalingüísticas com tamanha agudeza, humor, ironia e provocação. O entranhado desabafo de Cide Hamete Benengeli, ao chamar a atenção para as diferenças entre a primeira e a segunda parte da obra por meio da declaração de seus objetivos estéticos (DQ, II, 44), é um exemplo preciso de um procedimento narrativo que será retomado por múltiplos escritores.

Segundo Carlos Fuentes, Machado de Assis foi o único romancista ibero-americano do século XIX que trilhou as sendas de Cervantes, inscrevendo-se dentro do que convencionou designar como “tradição de la Mancha” (4). Dentro do romance latino-americano marcado pela hispanofobia gerada pelos movimentos independentistas, Fuentes considera Machado uma exceção. É curioso observar que foi necessária uma voz externa – externa no sentido de não brasileira, ainda que ibero-americana – para que se apontasse o vínculo entre Machado e Cervantes. No entanto, se as idéias de Fuentes são sedutoras no sentido de deslindar as linhagens do romance e destacar as conexões do romancista brasileiro com a obra do espanhol, a argumentação não chega a convencer plenamente sobretudo pelo anacronismo que paira em algumas de suas considerações sobre Cervantes e a Espanha do “Século de Ouro”.

Para fechar o trajeto em busca da presença do Quixote no Brasil, seria possível dizer que as criações pautadas pelas marcas cervantinas se traduzem pela leitura instigante que suscita no leitor a análise. Por outro lado, as obras orientadas pelo mito quixotesco provocam no leitor o sentimento desconcertante, fixado na imagem do herói eternamente incompreendido.

 

Notas:

 

1. O comentário de Galdós parte de um estudo de Harry Levin. Diz o artigo que embora o romancista espanhol aponte a flexibilidade do texto cervantino em relação ao público, ao mesmo tempo admite que há na obra prazeres particulares de reconhecimento, inacessíveis a um estrangeiro.

2. Diz Gilberto Freyre: “O tempo dos artistas espanhóis e dos portugueses mais hispânicos é sempre um tempo que, sem deixar de ter marcas de uma época, está em processo de ser superado. Por isso Santa Teresa é tão espanhola em seu modo de ser Santa de igreja; e o brasileiro Machado de Assis atinge o “atemporal” sem nunca deixar de ser carioca: sobretudo um carioca do fim do reinado de Pedro II.” (1975: li)

3. Refiro-me à revista Dom Quixote (1895-1902) criada por Angelo Agostini e D. Quixote (1917-1927), dirigida por Bastos Tigre, ambas publicadas no Rio de Janeiro.

4. Carlos Fuentes distingue duas tendências no romance: a “tradição de La Mancha” criada por Cervantes e seguida por Sterne e Diderot entre outros, onde predomina a prática da metaficção e a “tradição Waterloo” que significou uma resposta realista à Revolução Francesa e tem como expoentes, Stendhal e Balzac.

 

 

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