Páginas de Ceticismo
BENTO XVI, O LIMBO E O SÃO BENTO
Antônio Carlos de Mello
A Igreja Católica Apostólica Romana decretou o fim do limbo, aquele lugar que não era nem céu nem inferno para onde iam todos os nenéns e também aqueles que habitaram a Terra antes de Cristo.
O comentário geral é de que a abolição pura e simples do limbo é um avanço e todos comemoram essa, chamemos, abertura do papa Bento XVI.
Eu, graças a Deus, sou ateu. Mas, quando menino, acreditava firmemente em Deus, do modo como acreditam as crianças: Deus é aquele homem de barba branca que fica nos espiando e a qualquer momento pode nos mandar para o inferno. Ele é O Inspetor (estamos na fase escolar da vida) de nosso comportamento.
Estudei em colégio de padres, interno. Apenas dois anos (dos oito aos dez) de incontáveis missas e da eterna corrida para buscar a absolvição dos pecados. O principal deles, o de colocar o cotovelo no encosto da cadeira no refeitório para sentir o corpo da servente a la Tia Nastácia, que nos servia a comida. E Deus sempre me lembrava de que eu deveria confessar aquele pecado - o que eu fazia, para tornar a pecar.
Era uma regra do jogo e, à época, ela me parecia bastante razoável. Mas não achava justo, sempre me soou incompreensível, a ida para o limbo das crianças não-batizadas e de todos os que vieram antes de Cristo. Eu imaginava o avô de José ou de Maria. Ou o bisavô. Eles não viram o Cristo, mas antecederam aqueles que o trouxeram ao mundo. Por que então estavam barrados da festa no céu, como o sapo da historinha infantil? No dizer do próprio sapo: “Tá erraaaaado”.
Nesse sentido, o fim do limbo parece uma coisa boa. Mas só a princípio. Se eles iam para o limbo, por que são frutos do mesmo pecado original de todos nós, e se morrem sem o batismo, para onde irão?
Porque se o limbo era o local onde estariam, além das almas dos nenéns não-batizados, Sócrates e toda a sua turma - os que o antecederam e os que o sucederam imediatamente, naquele esfuziante período de século IV antes de Cristo -, o limbo era o lugar ideal para se estar após a morte, sem a xaropada celestial nem a bestialidade infernal. O local dos pecadores de almas puras.
No entanto, agora, numa penada, a Comissão Teológica Internacional da Igreja diz que o limbo reflete uma "visão excessivamente restritiva da salvação". Como assim? Com a extinção do limbo para onde irão os seus habitantes naturais? Para onde irão os seus habitantes vocacionais?
O texto da Comissão também afirma que a graça é mais poderosa do que o pecado e que a restrição ia de encontro à preferência e ao carinho especial que Cristo tinha pelas crianças. Mas só descobriram isso agora?
Nos tempos do colégio interno, enquanto esfregava o cotovelo no corpo macio e quente da servente, depois confessava, pagava minha penitência, e estendia minha alma novamente pura e branca no varal, eu já achava a medida incompreensível.
Agora, a extinção do limbo precisa ser mais detalhada. Ela tem efeito retroativo, ou como as nossas leis só vale daqui para diante?
Se o Papa é infalível, como é que, desde o século XIII - quando foi criado o conceito de limbo - os papas que antecederam Bento XVI tiveram “essa visão tão restritiva da salvação”? Erraram?
Para esclarecer o título: eu estudei no São Bento.
Em http://blogdomellocronicas.blogspot.com/