DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

 

QUEM ME DERA:

o ceticismo de Machado de Assis

 

Gustavo Bernardo

 

 

 

Publicado originalmente na revista Sképsis nº 2

em abril de 2008

 

 

 

Não achareis linha cética nestas minhas conversações dominicais. Se destes com alguma que se possa dizer pessimista, adverte que nada há mais oposto ao ceticismo. Achar que uma coisa é ruim, não é duvidar dela, mas afirmá-la. O verdadeiro cético não crê, como o dr. Pangloss, que os narizes se fizeram para os óculos, nem, como eu, que os óculos é que se fizeram para os narizes; o cético verdadeiro descrê de uns e de outros. Que economia de vidros e de defluxos, se eu pudesse ter esta opinião!

 

 

 

A crônica em que Machado de Assis escreveu essas palavras data de 28 de fevereiro de 1897. Por elas o escritor parece recusar a pecha de cético, admitindo, todavia, que possa ser considerado pessimista. O trecho é muito citado, pois serve para descartar in limine o ceticismo incômodo de Machado.

O tom, no entanto, é irônico. O cronista diz que não vem escrevendo nenhuma linha cética. Não se refere à sua própria ficção, não diz que nunca escreveu alguma linha cética, mas que ao menos as suas crônicas dominicais não o seriam. Admite, porém, a acusação de pessimista. Não exatamente aceita a acusação de pessimista ou se confessa um pessimista, mas sim admite que possa haver alguma linha, das que escreve, que possa ser considerada pessimista. O torneio é sutil: ele aceita não a acusação, mas a possibilidade da acusação, para dela melhor escapar.

Escapar como? Distinguindo o ceticismo do pessimismo para desfazer o senso comum a respeito: enquanto o pessimismo tem certeza de que o mundo vai mal, o ceticismo prega apenas a suspensão do juízo perante o conflito de opiniões e filosofias. Se o otimista acha que os narizes se fizeram para os óculos porque estamos no melhor dos mundos,  o pessimista entende que os óculos é que se fizeram para os narizes porque estamos no pior mundo possível, onde os óculos não se encaixam nos narizes mas têm de ser usados assim mesmo. O cético, porém, não seria nem pessimista nem otimista, mas apenas alguém que suspende suas crenças e certezas. O cético reconhece que é míope, como todos, mas prefere não usar óculos para fingir que está vendo a verdade.

A frase final da crônica, “se eu pudesse ter esta opinião!”, deixa claro que Machado gostaria de ser cético. Se, no entanto, admitirmos que o pensamento e a obra de Machado de Assis caracterizam-se por um ceticismo muito bem definido, já lemos a frase final de outro modo, entendendo que ela deixa claro que Machado gostaria de ser cético, mas como se já não o fosse. A ironia é sofisticada: o escritor apóia-se na própria ficção, no seu como se, para se defender da recorrente acusação de ceticismo. Chamam-no de cético? Ao invés de retrucar dizendo “não sou” ou então “sou, e daí?”, ele responde: “quem me dera...” Desse modo, menos do que se defender, ele defende o ceticismo e a dúvida suspensiva, condições da sua ficção.  

Os comentaristas de Machado de Assis reconhecem a relação da sua literatura com o ceticismo filosófico. Entretanto, poucos trataram do tema. Trabalhos de Afrânio Coutinho (1940) e Miguel Reale (1982) falam da sua filosofia, mas um e outro escapam de enfrentar a questão do ceticismo. Antes deles, Alcides Maya (1912) chegou bem mais perto, embora seu objetivo fosse cuidar do humor de Machado. Depois deles, Kátia Muricy (1988) e Eunice Piazza Gai (1997) de fato tratam do ceticismo de Machado, mas ainda restringindo-o às discussões científicas e higienistas da sua época, no primeiro caso, e à comparação com Montaigne e Cervantes, no segundo. Quase todos os demais comentaristas se referem em algum momento ao ceticismo do escritor, mas sem definirem bem o ceticismo. Se o aceitam como cético, consideram que ele é bom apesar de ser cético, e não por ser cético. É freqüente se confundir o ceticismo com termos que lhe são próximos mas de nenhuma maneira iguais: pessimismo, ateísmo, niilismo e cinismo. No campo dessa confusão, o caso mais emblemático e mais grave é o de Octávio Brandão (1958), que merece outro ensaio.

A respeito do ceticismo machadiano, o melhor e mais abrangente trabalho é o de José Raimundo Maia Neto, publicado em inglês em 1994, sob o título de Machado de Assis: the Brazilian Phyrronian, e editado em português, como O ceticismo de Machado de Assis, em 2007. É este trabalho que ora comento.[1]

Maia Neto não é o primeiro a indicar uma dimensão cética na obra do escritor, mas é o primeiro a tomar por ceticismo a tradição filosófica iniciada por Pirro e a “qualificar o ceticismo não como aspecto, mas como o fundamento da ficção machadiana.” (p. 2). Ele parte da hipótese de que a prosa ficcional de Machado demonstra a evolução de uma dimensão reflexiva cética, que nasce na primeira fase e amadurece durante a segunda fase. O filósofo recorre à distinção tradicional entre as duas fases da obra de Machado, mas não sugere que haja homogeneidade no interior delas nem completa heterogeneidade entre elas. Defende o uso dessa distinção por ser operativa e porque o próprio Machado a aceita (p. 75). Nas obras da primeira fase se apresentam os elementos precursores do ceticismo protagonizado na segunda: esses elementos se encaminham para a adoção da perspectiva cética. Essa perspectiva se constrói como alternativa à hegemonia da “vida social” (lugar de opiniões precárias, de dualidade e de hipocrisia) que sufoca o “homem de espírito” (o personagem ético que pouco a pouco toma o controle da voz narrativa). Frente à crise cética, o escritor responde alçando seu protagonista à condição de espectador do mundo e de autor de memórias e memoriais. Em conseqüência, a perspectiva cética machadiana terá sua culminância exatamente no personagem do Conselheiro Aires e na redação do Memorial (p. 2).

As leituras de Machado de Assis, principalmente Montaigne, Pascal e o Eclesiastes, o levam a andar na contramão do dogmatismo positivista. Michel de Montaigne é o mais influente cético da modernidade, adequando o pirronismo à Contra-Reforma. Blaise Pascal qualifica o ceticismo como o aspecto epistemológico da nossa miséria sem Deus, enxergando a saída tão-somente na fé. O Eclesiastes é o livro do Velho Testamento preferido pelos fideístas céticos precisamente porque ressalta a vanidade do saber humano, ao pontificar: “qui auget scientiam, auget et dolorem”, ou: “quem aumenta a sua ciência, aumenta também a sua dor.” (em SCHOPENHAUER, 1819, p. 325) Escrito por volta do século dois antes da Era Comum, na Palestina, é provável que o Eclesiastes tenha sido influenciado pelo ceticismo grego (p. 3).

Em debate com o próprio Maia Neto, na UFMG, em 7 de dezembro de 2006, o professor Paulo Margutti contestou a sua concepção, considerando que o pensamento de Machado estaria mais próximo de Francisco Sánchez do que de Montaigne. A matriz do escritor residiria antes no pensamento colonial brasileiro, que combinava elementos céticos, estóicos e soteriológicos, isto é, salvacionistas. Essa matriz é antes pessimista do que cética, indicando o pessimismo como origem do ceticismo machadiano, e não o contrário.

A contestação de Margutti é arguta, mas tem problemas. Não há evidência de que Machado de Assis tivesse lido Sánchez a não ser indiretamente, através da presença do filósofo no Quixote de Cervantes. A lúdica ironia de Machado também aponta menos para uma postura pessimista do que para o ceticismo suspensivo, como defende Maia Neto. Das leituras atentas de Pascal e do  Eclesiastes não se deduz nenhuma resposta fideísta do escritor. A solução fideísta e salvacionista desvalorizou a razão para melhor valorizar a fé, usando o arsenal argumentativo dos céticos para combater a Reforma. No entanto, os personagens machadianos não dão o “salto da fé” perante a crise cética, assumindo, ao contrário, uma atitude estético-cognitiva de suspensão do juízo através da ironia. Como eles fazem isto no decorrer da sua obra, é o que se verá a seguir.

Machado de Assis publica em 1861 um panfleto dramático chamado Queda que as mulheres têm para os tolos, objeto de polêmica entre os estudiosos. Por muito tempo esse trabalho foi considerado o primeiro de Machado, constando das edições da sua obra completa. Entretanto, trata-se da tradução de um ensaio satírico de Victor Henaux chamado De l´amour des femmes pour les sots”. Ainda que não seja de sua autoria, Maia Neto supõe que a perspectiva cética machadiana nasça deste texto. Nele, um tolo suplanta um homem de espírito na relação com as mulheres. O tolo aqui não é o bobo, mas sim o macho vulgar e de poucas luzes  que quer apenas “se dar bem” com as mulheres. Ele costuma ser bem sucedido porque, como não ama, domina com facilidade as mulheres: elas se deixam enganar melhor por aquele que as faz rir e não as leva a sério. Para o homem de espírito, no entanto, o amor é sério e a mulher também, levando-o a tal nível de exigência que acaba por humilhar as mulheres. Em represália, elas o tornam objeto de chacota. Com o tempo, o fracasso afetivo do homem de espírito desloca sua perspectiva e favorece uma atitude distanciada e reflexiva, prenunciando a tranqüilidade irônica que se encontrará mais tarde no Conselheiro Aires (p. 7). A mulher é o alvo principal da reflexão do protagonista não apenas porque ele a deseja e não a entende, mas também porque ela é uma espécie de metonímia de toda a vida social baseada em ostentação, afetação e fingimento: “as mulheres representam a realidade em Machado” (p. 7) e a realidade é tão instável quanto o desejo de uma mulher. O homem de espírito, como não pode descer à vulgaridade dos tolos nem mudar a natureza das mulheres, progressivamente assume uma atitude reflexiva e observadora.

Maia Neto não deixa de observar nuances na sua hipótese. Os primeiros contos mostram mulheres éticas que deploram a frivolidade dos tolos e se inclinam para o homem de espírito. Neles, a primeira alternativa à vida social de fachada ainda não será a observação distanciada mas sim o casamento, visto como lugar da verdade. Aos poucos, porém, a instituição do casamento é contaminada pelo jogo de máscaras da vida exterior, empurrando os personagens para a solidão. Conto de 1866 e que Machado não publicou em livro, chamado “Felicidade pelo casamento”, desde o título mostra o casamento como alternativa à vida exterior. O protagonista do conto começa tão pessimista quanto seus sucessores, mas é logo convencido pelo amor e pelo casamento: “todo o sentimento de reserva e de misantropia que caracterizava os primeiros anos de minha mocidade desaparecia [...] Procurei por tanto tempo a felicidade na solidão; é errado; achei-a no casamento, no ajuntamento moral de duas vontades, dois pensamentos e dois corações.”[2] A tese retorna sempre na obra de Machado, como em Dom Casmurro e em Memorial de Aires. Esse retorno, no entanto, comparece problematizado a ponto de Dom Casmurro poder ostentar o título de Infelicidade pelo casamento, ou: como casar e perder toda a tranqüilidade que se perseguia.

Em conto de 1869 também não publicado em livro, “O anjo Rafael”, um personagem secundário mostra a vida social como lugar da opinião e não da verdade: “a opinião, meu caro, não é mais do que uma opinião; não é a verdade. Acerta às vezes; outras calunia, e quer a desgraça que mais vezes calunie do que acerte. [...] A opinião pública é um muro em branco: aceita tudo quanto lhe escrevem em cima, quer venha da mão de um garoto, quer da de um homem de bem.”[3] Machado faz eco ao comentário secular: “dura servidão é se deixar levar pela opinião” (CHARRON, 1606, p. 32). Comentário equivalente reaparecerá no conto “O segredo do bonzo”: “se uma coisa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente.” (MACHADO DE ASSIS, 1882, p. 121) A opinião, que supomos contingente, seria necessária; a realidade, que supomos necessária, é apenas conveniente. Dito de outra maneira: o que chamamos de realidade é aquilo que nos convém.

Nos contos e nos romances o casamento já começava a perder o seu lugar de verdade para se tornar, como a própria verdade, frágil, instável e opaco. As mulheres, como Virgília e Capitu, se mostram mais ativas e manipuladoras. O escritor refina sua observação dos jogos sociais, percebendo que os próceres do patriarcado escravista fingem que controlam tudo quando na verdade acabam sendo controlados pelos oprimidos supostos: as mulheres, os agregados, mesmo os escravos. As narrativas mostram o avesso dos acontecimentos. Os protagonistas masculinos são promovidos à condição de narradores e autores, como Brás Cubas, Bentinho e Aires. Essa condição de autores criados por um autor reforça a progressiva adoção da perspectiva cética, a saber, a posição do observador que não interfere nem pontifica (p. 14).

Ressurreição, o primeiro romance de Machado de Assis, põe em confronto Félix, um “homem de espírito desencantado” (p. 17), e Lívia, uma viúva jovem e tão bela quanto digna. Considerar Félix um homem de espírito, ainda que desencantado, é pertinente dentro da argumentação de Maia Neto, porque ele mostra aspectos cultos e refinados. Tendo a vê-lo, porém, mais como uma espécie de tolo: Félix decerto tem mais luzes do que a média dos homens, mas as usa antes como um verniz para se disfarçar melhor.

O saudável desrespeito de Machado por seu protagonista começa pelo batismo irônico: Félix tem tudo para ser feliz, mas faz de tudo para se tornar infeliz. Zela como um usurário por sua felicidade, mas a perde à proporção em que tenta protegê-la. A ironia já está no título do romance: anunciam-se várias vezes as ressurreições de um amor e de um caráter que, todavia, nunca se consumam. Alguns comentaristas consideraram o título inadequado por não admitirem que um romancista iniciante ousaria romance tão irônico. A amargura do escritor se anuncia desde o primeiro parágrafo, que comenta o primeiro dia do ano: “Tudo nos parece melhor e mais belo – fruto da nossa ilusão – e alegres com vermos o ano que desponta, não reparamos que ele é também um passo para a morte.” (MACHADO DE ASSIS, 1872, p. 55) A reflexão amarga abre o primeiro romance do escritor que ousava construir, logo na primeira tentativa, caráter tão complexo: “naquele homem feito de sinceridade e afetação tudo se confundia e baralhava.” (MACHADO DE ASSIS, 1872, p. 56)

A descrição atende a Félix, mas serve aos protagonistas machadianos que se lhe seguiram. Machado não encontrava de princípio a sinceridade dissociada da afetação social, assim como não percebe a verdade dissociada completamente da mentira. Caracteriza seus personagens por contraste, representando-os em conflito com os outros e consigo mesmos. Os caracteres machadianos não se reconhecem iguais a si mesmos: o espelho da literatura os devolve trêmulos. O tempo afeta a subjetividade a ponto de transtorná-la em dramática duplicidade interna, reforçando a dúvida cética: “a cada minuto me parece que escapo de mim.” (MONTAIGNE, 1580, vol. I, p. 129).

O médico Félix é um cético no mau sentido do termo, isto é, no sentido do senso comum, desconfiando por princípio do caráter da amada. Félix se apaixona aos poucos por Lívia e é correspondido, mas esse amor não se adequa bem aos clichês românticos: Lívia é bela, sim, mas viúva e com um filho. Na primeira conversa que Félix tem com a viúva, sente-se muito bem a seu lado, mas de repente lhe escapa “não sei que frase de melancólico cepticismo que fez estremecer a moça” (MACHADO DE ASSIS, 1872, p. 72). O primeiro grande personagem do escritor é mais melancólico do que cético, voltado antes à observação narcisista de suas desilusões, às vezes antecipando-as, do que à contemplação serena do mundo. O narrador não o define como mau, mas nele reconhece ceticismo “desdenhoso ou hipócrita”, conforme a ocasião. O personagem desconfia das pessoas não apenas graças às decepções que vai sofrendo, mas principalmente por ser fraco e volúvel (MACHADO DE ASSIS, 1872, p. 110). Depois de alguns encontros, Félix deseja dizer que ama Lívia, mas tanto ele quanto o narrador sabem, ora cínicos, ora céticos, que o amor é uma maneira de dizer – que o amor é também um como se: “A tarde estava realmente linda. Félix, entretanto, cuidava menos da tarde que da moça. Não queria perder o ensejo de lhe dizer, como se fora verdade, que a amava loucamente.” (MACHADO DE ASSIS, 1872, p. 85)

À proporção que os amantes representam o amor que deveras sentem, triângulos amorosos se sucedem e suscitam a suspeita da traição. Por qualquer coisa Félix desconfia de Lívia e escreve cartas ofendidas. Lívia luta por ele a ponto de visitá-lo em casa, o que pode provocar a maledicência do povo. O moço pergunta, reticente, “não receou que os olhos da sociedade...”, mas ela lhe responde, procurando sorrir: “a sociedade está tomando chá.” (MACHADO DE ASSIS, 1872, p. 100) Nessa única frase irônica – “a sociedade está tomando chá” – o escritor resume a moralidade social. Quando o casal ainda esconde o namoro, um personagem de nome Meneses procura Félix para lhe dizer de sua paixão por Lívia. “Uma só palavra bastava ao médico para arredar do seu caminho aquele rival nascente”, mas Félix repele a idéia por orgulho e por cálculo. O cálculo é diabólico: quer aquilatar “a constância e a sinceridade de Lívia” frente ao assédio do outro. A partir daí, o narrador o vê como único responsável pela dúvida e decepção futuras: “Assim pois era ele o artífice do seu próprio infortúnio, com as suas mãos reunia os elementos do incêndio em que viria a arder, senão na realidade, ao menos na fantasia, porque o mal que não existisse depois, ele mesmo o tiraria do nada, para lhe dar vida e ação.” (MACHADO DE ASSIS, 1872, p. 116)

Porque “artífice do próprio infortúnio”, o final do romance não é feliz para Félix, como não o é também para Lívia. Mas não há mortes ou tragédias abruptas. Tanto duvida Félix sem motivo que a viúva não o perdoa mais e, com dor serena, opta pela solidão ao lado do filho. “No tempo em que os mosteiros andavam nos romances”, a viúva acabaria os seus dias no claustro – mas, como esse romance é secular, “os heróis que precisam de solidão são obrigados a buscá-la no meio do tumulto.” (MACHADO DE ASSIS, 1872, p. 165) Lívia envelhece sozinha, com poucos amigos. Ela é logo esquecida. Félix sofre um pouco, mas não demora a ter dúvidas de novo, apesar das muitas provas que teve da honestidade de Lívia: “a dúvida de Félix”, segundo Maia Neto, “não deriva da situação cética mas de sua incapacidade de discernir a verdade.” (p. 18) Covarde, se sente aliviado com o desfecho, o que autoriza o juízo final do narrador: “Félix é essencialmente infeliz.” (MACHADO DE ASSIS, 1872, p. 166)

Memórias póstumas de Brás Cubas, de 1881, seria a manifestação da zétesis, a investigação filosófica que examina a própria filosofia e procura demolir as crenças dogmáticas (p. 29). A doutrina submetida à zétesis é o Humanitismo de Quincas Borba, uma espécie de suma caricatural das doutrinas do período: darwinismo, positivismo e evolucionismo. Machado identifica nessas doutrinas uma variante moderna do estoicismo que mescla aspectos deterministas com concepções otimistas. Como na Grécia antiga os estóicos foram os principais adversários dos céticos, o escritor revive um combate milenar. Brás Cubas é um cético que ainda não pode viver o seu ceticismo (p. 31). As rabugens de pessimismo do personagem e o final melancólico do livro ainda se mostram distantes da tranqüilidade intelectual. Brás Cubas parte da tranqüilidade facultada pela morte, quando não há mais padecimentos ou perturbações; só desse modo a melancolia se converte em galhofa e apresenta uma solução cética a la Pascal, sim, mas sem apoio na graça divina. A vida humana é uma perpétua ilusão, se não fazemos outra coisa senão nos enganarmos mutuamente.

A condição defunta do narrador das Memórias póstumas ainda lhe permite um mínimo possível de distanciamento. Dessa condição já não usufrui o narrador de Dom Casmurro. O apelido é pregado no narrador por um poeta ressentido: o velho Bento cochilou enquanto o ouvia declamar versos. Os hábitos “reclusos e calados” do personagem deram curso à alcunha, assumida pelo personagem sem mágoa. “Casmurro” está menos no sentido de “teimoso” do que no sentido de “ensimesmado”, ou seja, “homem calado e metido consigo.” (MACHADO DE ASSIS, 1899, p. 20) Os dicionários brasileiros já dão o segundo sentido de “casmurro”, o de homem ensimesmado, apresentando como exemplo o romance de Machado. Por esse sentido, a casmurrice do personagem equivalerá à afasia do cético, à sua impossibilidade de decidir frente às dúvidas que o tomam.

Como Dom Casmurro é o autor suposto do livro, fica sob suspeita o valor de verdade da própria literatura. Reforça-se no entanto o seu poder de plantar dúvidas e assim estimular o pensamento do leitor, sugerindo que a afasia não equivale à paralisia mas sim ao esforço consciente de adiar qualquer asserção o máximo de tempo possível. O personagem reage à monotonia da vida lembrando-se de escrever um livro, ou melhor: “lembrou-me escrever um livro.” (MACHADO DE ASSIS, 1899, p. 21) Ao dizer que lhe lembrou de escrever um livro (e não de que se lembrou), Casmurro desvaloriza o império da subjetividade e seus correlatos, como a noção do livre-arbítrio. Ele parece duvidar de que haja um eu indivisível e solar que pense os pensamentos ou escreva os livros: “como nós, nossos pensamentos têm grande participação do acaso.” (MONTAIGNE, 1580-I, p. 424) Já no segundo capítulo do romance o narrador admite que possa estar sendo pensado por alguém (quiçá o autor verdadeiro...).

Dom Casmurro tem consciência de que a sua principal afirmação, a do adultério de Capitu, é desprovida de fundamento. Revela, desse modo, consciência da precariedade do juízo (p. 48). Essa interpretação de Maia Neto desqualifica tanto aquelas que não duvidam da traição de Capitu quanto aquelas que defendem a fidelidade de Capitu. O tema do romance é o da impossibilidade de saber. Enquanto o drama da finitude humana, nas Memórias póstumas, enfatiza a ação destruidora do tempo, a mesma questão, em Dom Casmurro, deriva de alterações de perspectivas que atribuem significados distintos às experiências: “a miséria humana passa a radicar-se portanto na precariedade das opiniões.” (p. 51)

A mulher encontra nesse romance sua figuração mais forte. Se as mulheres representam a realidade em Machado, “vista como fundamentalmente precária, pois identifica-se com a vida social” (p. 7), então Capitu representa o olhar mais inteligente sobre a realidade. Capitu é uma mestra de dissimulação e estratégia, enquanto o perplexo Bento se deixa conduzir. No esquema de Maia Neto, Bentinho começa como um bobo e alcança a condição de homem de espírito desencantado: como ele não desce à vulgaridade dos tolos nem consegue mudar a natureza da mulher, aos poucos assume uma atitude reflexiva. Essa atitude, porém, é dominada pelo ressentimento, impedindo-o de suspender o juízo – ao contrário, ele opta pela condenação de Capitu e, por extensão, do filho.

Uma das discussões mais quentes sobre a obra de Machado versa sobre a suposta traição de Capitu. Até o estudo de Helen Caldwell, em 1960, os críticos costumavam confiar no marido de Capitu, dando por consumado o adultério. Depois de Caldwell o paradigma se inverteu, passando-se a se desconfiar do narrador que estaria falando em causa própria baseado apenas em indícios. Mais recentemente, os comentadores têm decidido que não é possível decidir nada, isto é, que não há como saber se Capitu traiu ou se não traiu, sendo o livro precisamente o congelamento dessa dúvida cruel. Para Haroldo de Campos, a personagem principal de Dom Casmurro na verdade não é Capitolina, vulgo Capitu, mas sim o capítulo: "esse capítulo gaguejante, antecipador e antecipado, interrompido, suspenso, remorado, tão metonimicamente ressaltado pelo velho Machado em sua lógica da parte pelo todo, do efeito pela causa, como os olhos e os braços de Capitu.” (em BAPTISTA, 1998, p. 78)

Bento é o narrador da história, mas Capitu detém as rédeas do enredo. À medida em que o o romance prossegue, Bentinho se transforma em Dom Casmurro, isto é, ele se cala: “a desqualificação do discurso é a avenida que conduz ao ceticismo.” (p. 54) Com seus olhos de cigana dissimulada, Capitu confunde Bento e se torna o enigma da narrativa. Quando se casam, o narrador imagina que passou a deter o controle sobre o enredo da sua vida – mas a felicidade dura pouco. Logo Capitu se mostra ansiosa para mostrar ao mundo que está casada: “Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores; precisava do resto do mundo, também.” (MACHADO DE ASSIS, 1899, p. 172) Enquanto para ele o casamento é o reino da intimidade, para ela se mostra a porta de entrada para a vida exterior, como se ele quisesse casar com ela e ela quisesse ser uma mulher casada – o marido não passa de um detalhe, diria o humorista. Mas não é Capitu que o escritor diminui e sim Bento Santiago, que desde o início tenta congelar a instabilidade feminina pela qual se apaixonara. Ele, que buscava a verdade, percebe que não pode ter mais do que uma possibilidade.

O último grande personagem de Machado de Assis supera a casmurrice e chega próximo da desejada ataraxia. Esse personagem é o Conselheiro Aires, que sustenta uma atitude “estético-cognitiva”: a atitude é estética porque implica a contemplação do mundo como se fosse uma obra de arte; a atitude é cognitiva porque essa contemplação é a forma possível de se conhecer o mundo. A atitude estética deixa o observador livre dos espinhos que magoam o homem de espírito, enquanto a atitude cognitiva permite a dimensão reflexiva que se anuncia desde o primeiro romance de Machado de Assis.

Aires viveu a maior parte da sua vida no estrangeiro, como diplomata. Ao se aposentar, retorna ao Brasil, mas vê o seu país com olhos de estrangeiro, nos lembrando que os gregos se tornaram céticos quando passaram a olhar para si mesmos com olhos de estrangeiro (VAZ, 1994, p. 8). Como aposentado, não tem projetos, o que facilita a sua atitude desinteressada. Não se sente pressionado a se envolver com os acontecimentos ou a adotar crenças, mostrando que as crenças refletem demandas da vida ativa, não da vida contemplativa. Aires assume a atitude reflexiva que lhe permite fruir as aparências sem se deixar perturbar por elas.

Reconhecendo que as opiniões e as filosofias se equivalem, o Conselheiro Aires garante uma distância equivalente de todos os sistemas. Essa distância encontra metáfora clara nos dois gêmeos de Esaú e Jacó, lembrando de perto a postura do cético antigo perante o estoicismo e o epicurismo: ambos não dizem nem esgotam a verdade, mas ambos servem para pensar melhor. Os gêmeos mantêm posições opostas em quase tudo. Enquanto um é monarquista ferrenho, o outro é republicano. Proclamada a República, o republicano se bandeia para a oposição e o monarquista se alia à situação. Apesar de tomarem sempre partidos opostos, estão sempre no mesmo espaço como iguais: um não consegue se mostrar melhor ou mais correto ou mais verdadeiro do que o outro. Se lembramos que a mulher em Machado de Assis representa a vida exterior, entendemos porque ambos gostam da mesma mulher, Flora. Flora não consegue escolher entre Pedro e Paulo, amando a ambos. A jovem fica tão inquieta perante o seu dilema que chega a falecer para não escolher. O Conselheiro Aires também não toma partido de Pedro ou Paulo, mas não se inquieta por causa disso. Ele prefere não escolher. Mas os dois rapazes são objeto da investigação do Conselheiro – “Aires estudava os dous rapazes e suas opiniões” (MACHADO DE ASSIS, 1904, p. 100) –, mas sem a preocupação de entendê-los ou avaliá-los.

A escolha dos nomes dos personagens é poucas vezes casual em Machado. A viúva Lívia, no primeiro romance, sugere-se “lívida”, por conta da viuvez  e da decepção amorosa. O seu pretendente se chama Félix, mas não é e não pode ser feliz. Essa ironia comparece até o último romance, Memorial de Aires, de 1908, mas pesa mais em cima da personagem feminina chamada Fidélia: viúva jovem e bela como Lívia, ela é batizada com ironia mais agressiva, quer porque o nome é feio, quer porque provoque justamente a suspeita da infidelidade. O nome remete à sua fidelidade ao marido morto, à conciliação desta fidelidade com um novo amor, chamado Tristão, mas também ao interesse nunca declarado do velho diplomata por ela. O triângulo, portanto, nunca é um só. A agressividade contida no batizado autoral de Fidélia se esconde na narrativa: Aires toma distância suficiente para compreender as contradições afetivas da jovem e a impossibilidade das suas próprias pretensões amorosas.

O nome do Conselheiro Aires, “José da Costa Marcondes Aires”, lembra de perto o de “Joaquim Maria Machado de Assis”. As iniciais são praticamente as mesmas, à exceção do segundo nome. O sobrenome “Aires” alude ao plural de “ar”, em espanhol (e no português antigo), sugerindo que o personagem paira não entre mas sobre os demais. No corpo da narrativa, o personagem refere-se a si mesmo com apelativos complacentes: “querido velho”, “querido amigo”, “velho diplomata”, “meu velho Aires, trapalhão da minha alma”. Este movimento de auto-referenciação o ajuda a se pôr de fora, a observar a si mesmo no mesmo plano em que analisa os outros personagens de modo a se compor à parte, de lado, como se fosse um figurante sereno e não o protagonista (RIEDEL, 1974, p. 129).

A condição de diplomata aposentado é fundamental para a filosofia do personagem, aproximando-o de Pirro. As viagens do filósofo grego ao Oriente e do personagem brasileiro pelo mundo moderno permitiram a ambos contato com outras culturas e, em conseqüência, a relativização de costumes, crenças e valores. Para Brochard, segundo Maia Neto, “as viagens são uma escola de ceticismo.” (p. 72) No caso de Aires, a condição de diplomata o afasta dos partidos, levando-o a não assumir posições nem adotar crenças. Quando Batista, personagem de Esaú e Jacó, lhe pede conselho quanto a se deve aceitar participar de uma comissão proposta pelos liberais, Aires lhe dá a resposta suspensiva habitual: “Comigo não podia ser. Sabe que eu já não sou deste mundo e politicamente nunca figurei em nada. A diplomacia tem este efeito que separa o funcionário dos partidos e o deixa tão alheio a eles, que fica impossível de opinar com verdade, ou, quando menos, com certeza”. (MACHADO DE ASSIS, 1904, p. 124)

O paradoxo é um dos melhores de Machado: Aires é o conselheiro que não pode dar conselhos, exatamente porque é um “conselheiro cético”. A aproximação entre Aires e Pirro fica mais estreita se recordamos a característica mais marcante do primeiro: o famoso tédio à controvérsia. Esse tédio se relaciona à postura cética, sim, mas também à condição de aposentado: Aires não se encontra aposentado apenas do emprego mas também da vida exterior, ou seja, da vida afetiva que tanto o perturba. Os fragmentos de Timon, discípulo de Pirro, apresentam o seu mestre evitando igualmente as discussões, considerando-as vãs e as reprovando pela manifestação usual de arrogância (p. 72). De modo equivalente, Aires se recusa a polemizar por observar toda polêmica distorcendo não apenas os fatos como ainda o rosto mesmo das pessoas: "Hás de lembrar-te que ele usava sempre concordar com o interlocutor, não por desdém da pessoa, mas para não dissentir nem brigar. Tinha observado que as convicções, quando contrariadas, descompõem o rosto à gente, e não queria ver a cara dos outros assim, nem dar à sua um aspecto abominável.” (MACHADO DE ASSIS, 1904, p. 182)

A misantropia de Aires é tão paradoxal quanto a condição de Conselheiro. Ele procura as pessoas mas se esquiva do conflito com elas através de encenações retóricas: gestos que mostram atenção e ao mesmo tempo distância – “Aires não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma coisa, e fez um gesto de dois sexos” – frases que mostram respeito e ao mesmo tempo não se comprometem com nenhuma posição categórica – “como insistissem, não escolheu nenhuma das duas opiniões, achou outra, média, que contentou a ambos os lados, coisa rara em opiniões médias”. Essa postura resguarda sua tranqüilidade mas também beneficia o interlocutor. O benefício é terapêutico: “tinha que nas controvérsias uma opinião dúbia ou média pode trazer a oportunidade de uma pílula, e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se não sarava, não morria, e é o mais que fazem pílulas. Não lhe queiras mal por isso; a droga amarga engole-se com açúcar.” (MACHADO DE ASSIS, 1904, p. 45)

Como se define o ceticismo, se não como terapia da razão dogmática? Contrariamente ao que sempre disse o senso comum, o cético não se afasta da vida. A distância que toma o ajuda a ajudar, e para tanto não precisa e não deve tomar partido, assim como um bom médico. Que o principal divulgador do ceticismo no Ocidente, Sexto Empírico, tenha sido um médico não é mera coincidência. Foi ele quem disse: “o cético, como philántropos, deseja curar pela palavra, tanto quanto possa, a vaidade e a precipitação dos dogmáticos.” (em LESSA, 1996, p. 156) De modo equivalente, os romances de Machado de Assis apresentam as convicções dogmáticas como uma espécie de vírus que se deve isolar pela reflexão: Brás Cubas amaldiçoou as idéias fixas que o perturbaram até matá-lo, assim como Bentinho foi torturado pela oscilação de sua opinião a respeito de Capitu.

Àqueles que vêem o ceticismo como um perigo social porque torna tudo permitido, o cético responde que o perigo reside antes no dogmatismo, se a dúvida cética é aliada natural da tolerância: “se eu não sei como eu devo viver a minha vida nem como avaliar a sua maneira de viver a sua, então a melhor alternativa é viver e deixar viver; o ceticismo é visto, portanto, como uma saudável força moderadora.” (LOM, 2001, p. 5) Como um médico à antiga, o Conselheiro Aires visita as casas dos amigos nos dois romances que protagoniza. Ele o faz para melhor entender, embora sem a preocupação de concluir ou julgar. Os conselhos-pílulas que oferece evitam colocá-lo como um tutor ou guia, antes formulando o que a pessoa quer ouvir. O Conselheiro Aires escuta bem mais do que fala, obrigando o interlocutor a escutar a si mesmo e, portanto, a curar a si mesmo.

É o Conselheiro que, no último romance de Machado, pode observar Fidélia e sua beleza sem julgá-la nem desdenhá-la, apesar do seu interesse masculino. Ele compreende que Fidélia possa ser fiel à memória do marido morto tanto quanto à presença do noivo vivo: “a compreensão de Aires é que Fidélia unifica e compatibiliza as duas pessoas – o morto e o vivo.” (p. 69) Aires não vai “ficar” com Fidélia, como se diria hoje em dia, mas também não vai diminui-la como a raposa às uvas. Ele pode falar, sem dualidade, de duas Fidélias, ambas fiéis (ainda que nenhuma delas a ele), porque não precisa afirmar uma subjetividade essencial definida num quadro a priori.

Mas o Conselheiro Aires, autor do seu Memorial, não é o autor do romance chamado Memorial de Aires. Logo, não se pode lhe atribuir a responsabilidade pelo batismo irônico de Fidélia. Essa responsabilidade cabe tão-somente ao senhor Joaquim Maria Machado de Assis, o qual, como sugerem suas biografias, deveria ser bastante ciumento, ainda que de maneira reservada. Todavia, conseguia estabelecer distância crítica suficiente de si mesmo e de seus sentimentos para deixar acontecer um personagem melhor do que ele mesmo.

O ceticismo, como o senso comum o reconhece, é estruturalmente negativo. Observando a equipotência das teorias e a impossibilidade de escolher isto ou aquilo, escolhe “nem isto nem aquilo” e enfraquece as demais teorias sobre o mundo. A fórmula crítica “nem isto nem aquilo” leva no limite à afasia, ou seja, ao silêncio pessimista. Mas essa fórmula pode ser expressa de maneira construtiva: em função do contexto, “ora isto ora aquilo”. A fórmula “ora isto ora aquilo” é propriamente a da ficção, que torna compossíveis universos diversos. Aires pensa em Fidélia nos termos de “isto e aquilo” e, por extensão, faz o mesmo com a idéia da fidelidade. Ele aceita a jovem como fiel ao marido morto sem ser infiel ao noivo vivo, assim como o contrário também seria verdadeiro. Já casados Tristão e Fidélia, Aires tem mais uma idéia: “A idéia é saber se Fidélia terá voltado ao cemitério depois de casada. Possivelmente, sim; possivelmente não. Não a censurarei, se não; a alma de uma pessoa pode ser estreita para duas afeições grandes. Se sim, não lhe ficarei querendo mal, ao contrário. Os mortos podem muito bem combater os vivos, sem os vencer inteiramente.” (Machado de Assis, 1908, p. 168)

É uma bela reflexão, superior ao impasse de Dom Casmurro. Aires, mais velho e mais sábio do que Bentinho, leva o procedimento cético até o seu final ataráxico, isto é, tranqüilo. Ele fica em paz com Fidélia e consigo mesmo, ainda que sob um fundo suave e melancólico. É o que conclui José Raimundo Maia Neto, percebendo que Aires compreende a conciliação dos contrários que caracteriza a mulher e a realidade da qual ela se mostra metonímia (p. 70).

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

 

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[1]         A análise de Maia Neto é mais extensa e envolve outros contos e romances de Machado; limito-me a recortar os pontos que me pareceram mais relevantes. Enquanto escrevo, a edição brasileira da obra ainda não está publicada: as páginas que indico são as da versão digitada pelo próprio autor. Doravante, sempre que citar apenas o número da página, me refiro a esta versão. Nos demais, para evitar o anacronismo de associar a um autor um ano muito posterior à sua morte, como “Montaigne, 2003”, indico sempre o ano da 1ª edição, tal como aparece nas Referências finais.

[2]         Documento on line, conferir referência final.

[3]         Documento on line, conferir referência final.