Vilém Flusser
BODENLOS
Márcio Seligmann-Silva
Publicado como “orelha” do livro
Bodenlos, de Vilém Flusser
(São Paulo: Annablume, 2007).
O ser humano desde os tempos mais remotos sempre habitou algum lugar, mas apenas recentemente se tornou agregado a uma pátria, Heimat. Esta é a proto-verdade que o exilado Flusser descobre a partir da sua situação singular de exilado, que aos 19 anos teve que abandonar a sua Praga, em 1939, por causa das invasões nazistas. Desta experiência terrível e traumática narrada neste livro (ele perdeu sua família nas mãos dos nazistas), conseguiu derivar uma crítica radical da identidade. “Nós, os inumeráveis milhares de migrantes (sejamos trabalhadores estrangeiros, expatriados, fugitivos ou intelectuais em visitas freqüentes a seminários), nos reconhecemos então não como marginais, mas sim como vanguardas [Vorposten] do futuro.” Ao invés de pessoas dignas de pena, estes deslocados seriam “modelos”, pois a migração, além de ser um sofrimento, é uma ação criadora. Flusser viu na sua saída de Praga um “desabamento do Universo”, mas também, dialeticamente, uma “vertigem da libertação e do ser-livre”.
Walter Benjamin, em seu “Experiência e Pobreza”, de 1933, já realizara uma reviravolta da posição melancólica para uma comemoração da “nova barbárie positiva” e da liberdade que esta significa com relação ao peso do passado. Flusser leva mais adiante esta revolução ao perceber na ruptura dos seus laços com a sua Pátria-Praga uma libertação do sedentarismo e um mergulhar no nomadismo. A quebra da pátria também serve de laboratório para a decomposição e análise de seus elementos originários, míticos e estruturais. Com este Bodenlos (em alemão: sem-chão, sem-terra, sem-fundamento) vemos como Flusser construiu a partir da sua vida uma das mais potentes filosofias do século XX. Nada de tão inteligente e criativo nasceu da ensaística brasileira nas últimas várias décadas. Vamos “devorá-lo” assim como ele mesmo “devorou” a cultura brasileira.