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A GENTE DE FLUSSER
Gustavo Bernardo
Publicado originalmente como prefácio do livro
Bodenlos: uma autobiografia filosófica.
São Paulo: Annablume, 2007.
O filósofo judeu Vilém Flusser nasce em 1920 em Praga, na antiga Tchecoeslováquia. A invasão nazista força-o a fugir, em 1939, junto com a namorada, Edith Barth, primeiro para a Inglaterra, depois para o Brasil, onde chega no ano seguinte. Seu pai, sua mãe e sua irmã são assassinados nos campos de concentração. No Rio de Janeiro, casa-se com Edith. Em São Paulo, trabalha na pequena indústria do sogro e no comércio. Vilém e Edith têm três filhos: Miguel, Dinah e Victor. Na década de 50, Flusser naturaliza-se brasileiro.
Perto de 1960, passa a se dedicar também à filosofia. Sem diploma, apenas com a cara, a coragem e o saber acumulado de maneira autodidata, leciona na FAAP, no ITA e na USP, ao mesmo tempo que escreve regularmente para os jornais O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. Publica, primeiro em português e depois em várias línguas, mais de trinta livros, além de centenas de artigos em revistas e jornais de todo o mundo. Na verdade ele mesmo escreve e reescreve vários de seus livros e artigos em quatro línguas, e geralmente nessa ordem: alemão, português, inglês e francês. Não escreve em tcheco.
Em 1973 muda-se para Robion, na França, quando passa a publicar na Alemanha e a ser reconhecido como filósofo dos novos media. Sua filosofia da fotografia, publicada no Brasil como Filosofia da caixa preta, é editada primeiro em alemão e depois em português – encontra-se traduzida em mais de 15 línguas.
Em 1991, volta a Praga, pela primeira vez desde a guerra, para proferir conferência no Instituto Goethe. A conferência o emociona tanto que, sem perceber, troca de língua e passa a falar em português. É Edith quem o avisa que a platéia está um pouco atônita. A conferência é um sucesso. No dia seguinte, passeando com a mulher nas cercanias da cidade natal, morre num acidente de carro. É enterrado no cemitério judaico de Praga. A sua pedra tumular contém uma inscrição em três idiomas: hebraico, tcheco e português.
Em 1992, Bollmann Verlag publica em alemão, post mortem, sua autobiografia filosófica, intitulada: Bodenlos. O título, que pode ser traduzido como “sem chão” ou “sem fundamento”, assume sua condição de eterno migrante, de sujeito desenraizado: tanto de pátrias quanto de quaisquer sistemas. Ao escolher escrever uma “autobiografia filosófica” e não uma autobiografia simples, ele se restringe a não contar e comentar o que dissemos nos parágrafos anteriores. Pouco fala, por exemplo, de Edith, sua principal interlocutora e a que melhor o criticava, e que continua se dedicando, com 86 anos no momento em que escrevo, a traduzir, para o alemão, os textos de Flusser que ele mesmo não retraduziu para essa língua. Flusser preserva sua relação afetiva mais visceral para melhor falar dos diálogos filosóficos que manteve. Como se verá, ele dedica onze capítulos a onze personalidades que o marcaram e que, ele supõe, também teria marcado. Destas onze pessoas, sete são brasileiros natos e quatro são imigrantes que, como ele, vieram para o Brasil. Logo, todos os diálogos que elegeu para homenagear e desenvolver, ele os viveu no Brasil.
A publicação desse livro na Alemanha logo após a sua morte sugere que ele o vinha escrevendo e teria sido surpreendido pelo acidente, ou o teria terminado pouco antes. No entanto, a leitura dessa versão, feita a partir de uma cópia datilografada em português pelo próprio Flusser, tirada dos seus arquivos, indica que ele já a havia escrito por volta do meio dos anos 70, ou seja, pouco depois de emigrar do Brasil de volta para a Europa. A circunstância de ele ter destacado, em capítulos próprios, apenas pessoas com que dialogou ainda no Brasil, reforça essa conclusão: o livro foi pensado e redigido, em sua maior parte, logo depois que ele voltou para a Europa. Entretanto, alguma variação de estilo e estrutura nos capítulos, como o leitor pode observar, indica que eles não foram escritos todos ao mesmo tempo.
Cumpre observar que não se encontrou a versão brasileira do último e do antepenúltimo capítulos, que foram então traduzidos do alemão, especialmente para esta edição, por Raquel Abi-Sâmara. O esclarecimento é importante: nos demais capítulos, bem como em toda a sua obra, a comparação entre as versões em línguas diferentes escritas pelo próprio Flusser, principalmente entre o português e o alemão, mostra que ele não agia como um tradutor “normal”, preocupado em respeitar o original. O filósofo tcheco-brasileiro tentava deixar a língua-destino alterar seu pensamento na língua-fonte, na mesma medida em que se alteravam a semântica e a sintaxe. A tradutora dos dois capítulos referidos obviamente não pôde nem devia fazer o mesmo. O melhor estudo a respeito do movimento de auto-tradução de Flusser encontra-se no ensaio excepcional do suíço Rainer Guldin, publicado por Wilhelm Fink Verlag em 2005 e intitulado Philosophieren zwischen den Sprachen: Vilém Flussers Werk.
Para investigar a formação e o desenvolvimento do seu pensamento, Vilém passa, na seção a que chama “Monólogo”: à explicação de “Bodenlos”, isto é, da falta de fundamento que, paradoxalmente, o fundou; à bela descrição da Praga dos seus primeiros anos, judeu de família de intelectuais destinado a ser ele também um intelectual; ao trauma, paradoxalmente fundador, da invasão dos nazistas em Praga; ao relato da fuga para a Inglaterra; ao comentário da chegada espantada ao Brasil (onde soube, no cais do Rio de Janeiro, da morte do pai) e de como a guerra continuava repercutindo em São Paulo, onde passou a viver; a destrinchar a relação lúdica e dramática que passou a ter, ao mesmo tempo, com a filosofia oriental e a idéia do suicídio; a relatar o seu contato com a natureza brasileira, tão diferente da natureza européia; a estudar o seu contato com a língua brasileira, tão intenso que o fez adotá-la como segunda língua materna, suplantando o próprio tcheco.
Para qualificar essa primeira parte, eu usaria um adjetivo que talvez Vilém não gostasse muito: emocionante. Emociona como se lêssemos um romance, como se encontrássemos um personagem intenso e, ao mesmo tempo, como se vivenciássemos a história trágica do século XX por dentro, ao acompanhar as peripécias e as perdas do filósofo praguense e da própria Praga, centro filosófico da Europa destruído pela barbárie nazista. Emociona, ainda, acompanhar como o Brasil recebeu, nem sempre muito bem, esse filósofo, ligando os fios da nossa história à história do mundo e do século.
Para fazer o contraponto à primeira seção, Flusser chama “Diálogo” à parte seguinte, introduzindo-a por uma distinção entre “discurso” e “diálogo” e concluindo-a por um belo comentário sobre o “Terraço”: como se fosse uma ágora paulistana, o terraço era o lugar da casa onde semanalmente os amigos e os amigos da filha, Dinah, se encontravam para discutir filosofia. No meio do volume, Flusser comenta os diálogos radicais que teve com os amigos: como ele era perturbado por eles e, naturalmente, como ele os perturbava.
Nos capítulos, Vilém Flusser fala de: Alex Bloch, também imigrante tcheco; Milton Vargas, engenheiro e professor de filosofia da ciência que o introduziu na Universidade e no Instituto Brasileiro de Filosofia; Vicente Ferreira da Silva, a quem reconhece como o melhor e talvez o único filósofo brasileiro, embora dele divirja profundamente; Samson Flexor, artista plástico romeno, que fez o seu retrato e a imagem da capa desta edição; João Guimarães Rosa, escritor igualmente poliglota e cuja obra considera a demonstração in fieri (em estado de vir a ser) de suas próprias teses filosóficas; Haroldo de Campos, poeta concretista, que já realizava a passagem, na sua poesia, para a pós-história das imagens técnicas; Dora Ferreira da Silva, poeta, tradutora e mulher de Vicente, cuja espiritualidade intensa o confrontava sobremaneira; José Bueno, aristocrata da tradicional e decadente burguesia paulista, um dos homens mais elegantes de espírito que conheceu; Romy Fink, judeu ortodoxo inglês de múltiplos talentos e que punha em crise sua ausência de fé; Miguel Reale, filósofo rigoroso, normalmente identificado à direita do espectro político, do qual discorda tão radicalmente quanto o respeita; finalmente, Mira Schendel, artista plástica suíça, que transformava letras e palavras em imagens e assim realizava o jogo de códigos que tanto o fascinava.
A terceira seção, “Discurso”, é relativamente inusitada para nós, acostumados que estamos ao desprestígio dos lugares do professor e do mestre. Flusser a dedica às aulas, cursos e palestras que ministrava na Universidade, principalmente sobre teoria da comunicação e filosofia da ciência. Discute o fundamento das suas teorias e a relação estimulante e conflituosa que estabelecia com seus alunos, inclusive questionando o seu próprio carisma. As salas em que atuava ficavam sempre lotadas, com dezenas de ouvintes e curiosos de outros cursos. É um professor tão heterodoxo quanto o escritor, não seguindo os protocolos acadêmicos nem numa situação nem na outra, o que incomodava sobremaneira os colegas. De cultura vastíssima, memória espantosa e oratória brilhante, provocava e espantava os alunos, mostrando-lhes um mundo onde a dúvida reinava.
Mas Vilém não se dedica a se elogiar, mas sim a mostrar como gosta de ensinar, como precisa ensinar, e como, ao final, se sente fracassado. Vê a juventude esmagada pela ditadura violenta e mediocrizante de um lado, por uma esquerda oportunista e igualmente mediocrizante, do outro. Essa sensação de fracasso ajuda a explicar sua decisão de, novamente, emigrar, agora do Brasil de volta à Europa. Fica para o leitor, com alguma amargura mas muita intensidade, o elogio do ser professor, que Flusser torna estrito sinônimo do ser pensador.
A quarta parte, “Reflexões”, começa estabelecendo a relação estreita entre pátria e hábito e termina revisitando, depois de cinqüenta anos de ausência, a sua verdadeira pátria natal, concentrada toda na cidade de Praga. O capítulo final do livro fecha-o de maneira muito bonita, mas adquire dramaticidade adicional por conta da circunstância: Vilém Flusser morre, em Praga, naquele acidente, pouco depois de ter voltado para “casa”, e, portanto, pouco depois de ter escrito esse texto. Sua autobiografia, da forma como foi escrita e na situação em que o foi, torna-o um personagem de romance, daqueles que nos afeta de maneira mais intensa e real do que qualquer relato da realidade suposta.
A opção do autor por uma autobiografia filosófica obriga-o a investigar a formação e o desenvolvimento do seu próprio pensamento, que está ligado, de maneira mais estreita do que o usual, a seu estilo de escrever e às suas escolhas em cada língua em que se expressou. Nos anos 60, muitos o elogiaram pelo seu domínio da língua portuguesa, mas é preciso reconhecer que ele não tenta escrever como um nativo. Orgulhoso da sua condição de eterno imigrante, variante contemporânea do “judeu errante”, Flusser escancara essa condição na sintaxe da sua escrita. Coerente com a crítica que faz de Guimarães Rosa – o caráter revolucionário do escritor mineiro se mostraria na sintaxe e não na semântica, portanto, não nos neologismos tão incensados pelos críticos –, Vilém evita o jargão ou a invenção vocabular, esmerando-se antes em subverter a sintaxe para dizer melhor a sua diferença.
Por isso, no começo, o leitor decerto estranha a sua frase, de maneira semelhante a como estranha a frase do amigo Rosa. Mas, assim como no caso do escritor, se o leitor insistir um pouco e vencer as primeiras páginas é logo contemplado com pensamento e beleza em doses iguais e complementares. Como a frase do filósofo, mais do que expressar o seu pensamento, já é o próprio pensamento, os editores precisam resistir a uma revisão que a desfigure. Entre vários exemplos, o mais incômodo e, em decorrência, o mais significativo, é o seu uso da expressão “a gente” no lugar da primeira pessoa do singular, “eu”, ou do plural de modéstia, “nós”.
Esse “a gente” equivale ao “man” alemão e ao “on” francês, mas não é exatamente a mesma coisa. No caso alemão, a expressão consagrou a impessoalidade do das Man heideggeriano; no caso brasileiro, trata-se de uma das expressões mais coloquiais e menos formais da língua, com efeito simultâneo e paradoxal de pessoalização e de impessoalização. Flusser aproveita esse duplo efeito e incorpora a expressão ao cerne mesmo do seu discurso ensaístico. Essa incorporação provoca um estranhamento poético que desautomatiza a leitura, obrigando o leitor a um novo foco. No entanto, essa é apenas uma conseqüência benéfica secundária do recurso.
Com “a gente” no lugar do “eu” ou do “nós”, o filósofo diz “eu” e diz, ao mesmo tempo, “nós”, ou melhor, diz “toda a gente”. Assim ele questiona de dentro, na forma, o “eu solar”, isto é, o “eu” centro do sistema e do universo. Em decorrência, questiona igualmente todo o cogito cartesiano que informa e modela o pensamento ocidental e a sua expressão. Seu texto muito pessoal, tanto na forma quanto no conteúdo, preocupa-se justamente em se despersonalizar, para assim apontar melhor na direção de uma transcendência, não mística, mas existencial. Todavia, ao fazê-lo dessa maneira, que mistura o mais coloquial ao mais formal possível, ele torna o seu texto perturbadoramente único, ou seja, adquire uma nova pessoalidade – melhor seria dizer, uma nova e elegante persona.
O pensador-poeta realiza, no texto filosófico, os versos do poeta-pensador: “O poeta é um fingidor, / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente. // E os que lêem o que escreve / na dor lida sentem bem, / não as duas que ele teve, / mas só a que eles não têm”. Faz sentido, então, a designação de “ficção filosófica” que Abraham Moles atribuiu ao pensamento de Flusser: trata-se de um pensamento que tanto investiga quanto inventa, ou: que inventa para melhor investigar, que investiga para melhor inventar. No processo, o filósofo e escritor reinventa quer a si mesmo, quer ao leitor.
O livro precioso que esse leitor tem em mãos é, portanto, a autobiografia filosófica de um pensador-poeta chamado Vilém Flusser, seu sobrenome mesmo sugerindo o fluir de um rio (Fluss, em alemão) de idéias à maneira de Guimarães Rosa: idéias que não param, que não param, que não param, nas suas longas beiras: “rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio”.