Páginas de Ficção
A RELATIVIDADE DAS LÁGRIMAS
Claudio Parreira
Ela já desperta com o rosto banhado em lágrimas. Desolada, a família lamenta:
- Ó, minha filha – diz a mãe.
- Ó, minha filha – diz o pai.
- Ó, minha irmã – dizem os irmãos.
Os tios, avós, et cetera também se desesperam com o desespero da menina, também se lamentam:
- Ó, minha menina – dizem.
A menina, no entanto, pouco se ocupa dos lamentos da família. Tem seus próprios interesses – e por isso chora. Antes de mais nada, agrada-lhe profundamente o sabor das lágrimas, o tempero balanceado do sal que lhe escorre pelo rosto. Ela é, sem que ninguém suspeite, uma artista, uma alminha dotada de extremo senso poético. Que coisa mais linda amanhecer e anoitecer aos prantos!, pensa ela, que alegria inigualável é chorar!
A sua família, contudo, pouco vai além das aparências: quem chora sofre, pensam, categóricos, os pais irmãos et cetera. À noite, no escondido dos seus lençóis, choram de verdade, preocupados, enquanto a menina descansa tranqüilamente para mais um dia de lágrimas.