Páginas de Ceticismo
DEUS NAS PERSPECTIVAS CIENTÍFICA E RELIGIOSA:
QUEM ESTÁ COM A RAZÃO?Aldo Bizzochi
Uma idéia freqüentemente difundida em nossa sociedade, e reforçada pelos meios de comunicação, é a de que a ciência é fundamentalmente atéia, isto é, procura negar sistematicamente a existência de Deus. Na verdade, ao contrário das religiões, que postulam a existência de Deus como um dogma incontestável, e chegam mesmo a descrever como Deus é e como fez para criar o mundo, a ciência não parte de nenhuma idéia preconcebida, mas, através da análise fria dos fatos e da construção de teorias sempre amparadas pela lógica, busca antes saber se Deus realmente existe — isto é, se ele precisa necessariamente existir para explicar a existência do Universo.
Assim, enquanto a religião simplesmente afirma a existência de Deus — e também eventualmente do demônio, do paraíso e do inferno — a ciência está preocupada em verificar se isso é realmente verdade. E mais, se Deus existe, então como ele é, e por que criou o mundo do modo como é? É evidente que a questão da existência ou não de Deus, e conseqüentemente do como e do porquê de sua existência, não é propriamente uma questão científica, já que a ciência, por definição, só se ocupa do estudo de dados observáveis, isto é, sujeitos à experiência, e Deus não parece ser um dado observável. Por isso, a discussão sobre a existência de Deus é muito mais uma discussão ontológica do que científica ou mesmo religiosa, e muitos filósofos e pensadores têm-se debruçado sobre esse tema ao longo dos séculos. Talvez seja desalentador — ou quem sabe alentador — assinalar que já se conseguiu produzir tantas teorias convincentes sobre a inexistência de Deus quanto sobre sua existência, o que significa duas coisas: em primeiro lugar, que a compreensão desse grande mistério transcende nossa capacidade intelectual (sem dúvida, não somos os seres mais inteligentes do Universo); em segundo lugar, tudo depende da conceituação que façamos de Deus.
O fato é que Deus é, de todos os conceitos, o mais difícil de definir, e o que admite mais definições diferentes. Por isso mesmo, eu arriscaria dizer que o problema da existência de Deus é antes de mais nada um problema lingüístico: o que tanto a ciência quanto a religião buscam é saber se existe um referencial extralingüístico para a palavra Deus. Como nos ensina a lingüística, uma palavra representa um conceito, uma idéia, que pode perfeitamente existir em nossa mente sem que para isso precise corresponder a algum objeto ou fenômeno do mundo real. Ora, o conceito de Deus, embora impreciso e variável de uma época a outra, de uma cultura a outra e até de uma mente a outra, é basicamente um conceito lingüístico, o que equivale a dizer que a palavra Deus possui um significado, qualquer que ele seja. A questão de sabermos se a esse significado corresponde um referente depende fundamentalmente do significado adotado.
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Dizem que a melhor maneira de compreender a mente de um artista é estudar sua obra. Assim, se quisermos compreender a mente de Deus, devemos estudar o mundo que ele supostamente criou. É precisamente o que faz a ciência. A física atual parece estar bem perto de uma explicação definitiva sobre como o universo se estrutura e também de como se originou. Resta ainda explicar por quê. Mas, para tanto, poderíamos lançar mão de um princípio filosófico chamado princípio antrópico: talvez o mundo seja como é simplesmente porque é o único possível. Alguns físicos demonstraram que se as leis da física fossem apenas um pouco diferentes do que são, o universo seria uma criação instável; talvez até pudesse existir, mas não ofereceria condições para o desenvolvimento da vida como a conhecemos — muito menos de vida inteligente. Assim, em outro universo, diferente deste, nós simplesmente não existiríamos, e conseqüentemente a pergunta “Deus existe?” perderia todo o sentido. Aliás, o cientista Andrei Linde, da Universidade de Stanford, propôs uma hipótese científica que postula não o universo, mas sim o multiverso — uma infinidade de universos diferentes uns dos outros, isto é, dotados de leis físicas diferentes. No entanto, segundo essa hipótese, apenas uns poucos dentre todos esses universos permitiriam a existência da vida como nós a concebemos, em especial da vida inteligente, capaz de formular a pergunta “Deus existe?”. Pode até ser que haja outros seres inteligentes habitando outros universos e fazendo essa mesma pergunta, mas provavelmente nós nunca poderemos entrar em contato com eles.
A própria questão de o universo ter tido uma origem não implica necessariamente que tenha tido um Criador, até porque isso recolocaria a mesma questão em outros termos: quem criou esse Criador? Assim, em vez de postular que Deus existe, é um senhor de barbas brancas que mora no céu e rege o nosso destino de maneira caprichosa e arbitrária, a ciência procura uma razão lógica para a existência ou inexistência de um Criador, e mais, busca formular hipóteses plausíveis sobre sua possível configuração. E isso sem partir de idéias preconcebidas, o que significa dizer que os verdadeiros cientistas estão dispostos a curvar-se diante das evidências, quaisquer que elas sejam, mesmo que estas contrariem suas crenças mais arraigadas. Já não é bem essa a postura dos religiosos.
Afinal, se a ciência conseguir provar que o universo em que vivemos é o único possível — a única alternativa a ele seria o nada, e o nada, por definição, não existe —, então ficaria definitivamente descartada a necessidade de postular um Criador. Se for verdade, como disse Albert Einstein, que “a coisa mais incompreensível a respeito do Universo é o fato de ele ser compreensível”, e se, por conseguinte, chegarmos a uma compreensão racional de toda a existência, então teremos chegado à “morte de Deus” de que falou Nietzsche. Se, por outro lado, a ciência jamais conseguir explicar racionalmente o como e o porquê da existência, a crença em Deus permanecerá preservada, já que seremos obrigados a aceitar a existência de algo maior, que transcende nossa compreensão, e que eventualmente é o que chamamos de Deus.
Desse modo, sem querer ser excessivamente agnóstico, creio que, muito mais importante do que sabermos como Deus é, é sabermos como ele não é. A diferença básica entre as explicações científicas sobre a origem e a natureza do universo e as “explicações” mísitico-religiosas é que aquelas procuram basear-se nos fatos observáveis e na lógica, ao passo que estas se baseiam em dogmas, isto é, em afirmações não comprovadas e não comprováveis que têm sido dignas de crédito apenas em função de quem as proclamou, geralmente algum líder religioso carismático que afirma ter tido uma “revelação” feita a ele pelo próprio Deus.
Não sabemos ao certo qual das duas espécies de explicações sobre a origem do universo — a científica ou a religiosa — está correta e talvez nunca cheguemos a saber. Mas, sem dúvida, podemos afirmar que a explicação científica é mais provável do que a religiosa. Em outras palavras, é bem mais provável que o mundo tenha se originado de algo parecido com o big bang do que com qualquer descrição cosmogônica de qualquer tradição mitológica, seja o Gênesis judaico-cristão, seja a cosmogonia greco-romana, ou a hindu ou a chinesa. Além disso, a explicação científica é única — as pesquisas de todos os cientistas da atualidade convergem para uma mesma teoria — ao passo que as explicações religiosas são tantas quantas são as religiões, e são todas conflitantes entre si. (Cada religião reivindica para si o monopólio da verdade e acusa de heresia a explicação das demais religiões.) Mais ainda, as teorias científicas procuram se adequar aos fatos e não fazer os fatos se adequarem às suas teorias. Por isso, se novas evidências mostrarem que a teoria do big bang está errada, os cientistas terão certamente a humildade de reconhecer o fato e alterar a teoria, como, aliás, já vêm fazendo ao longo dos séculos. É o que se chama de mecanismo autocorretivo da ciência. Já as doutrinas religiosas são imutáveis e resistem teimosamente a todas as evidências empíricas.
Mas, como eu disse, se queremos compreender um pouco a mente de Deus, devemos observar sua obra, isto é, a natureza. No entanto, é chocante vermos que muitas religiões pregam exatamente que contrariemos a natureza, e isso em nome de Deus. Em primeiro lugar, se observarmos atentamente a natureza, veremos que nela não existe a noção de certo e errado, de bom e mau, de justo e injusto. Existem apenas leis que devem ser obedecidas para manter o equilíbrio, seja físico, seja biológico. Se alguns animais são predadores e se alimentam de outros animais, isso não é cruel, é apenas natural, e essa forma de alimentação tem garantido a perpetuação da vida na Terra há milhões de anos. A noção de crueldade é um conceito fundamentalmente humano, isto é, é a consciência humana que classifica arbitrariamente o que é cruel e o que não é (e essa classificação varia de época a época e de lugar a lugar; basta lembrarmos que sacrifícios humanos eram praticados em épocas passadas, justamente por motivos religiosos), e por isso vemos crueldade em coisas que não são intrinsecamente cruéis. Até aqui, não há nenhuma novidade. Entretanto, muitas religiões pregam que façamos certas coisas porque “Deus assim o quer”, coisas que contrariam a ordem natural. Por exemplo, existe na natureza um mecanismo de controle biológico chamado eugenia. Como a sobrevivência na selva é basicamente competitiva, apenas os seres mais bem dotados fisicamente têm condições de sobreviver. Por isso, embora todo animal ame seus filhotes, se um filhote nasce defeituoso, a própria mãe exerce um controle de qualidade semelhante ao que é feito na linha de produção das indústrias e, assim, elimina esse filhote antes que os predadores o façam. Isso porque a lei básica da natureza biológica é a da perpetuação e do aprimoramento genético das espécies. O indivíduo defeituoso não tem condições de sobreviver para procriar, e se conseguir, provavelmente dará origem a outros indivíduos igualmente falhos, o que porá em risco a continuidade de sua espécie. Se analisarmos por esse ângulo, a natureza é extremamente sábia em suas leis. No entanto, a eugenia entre seres humanos é veementemente repudiada por todas as religiões, pois, segundo elas, “a vida é um dom de Deus” e não cabe ao ser humano decidir quem deve ou não viver. Por essa mesma razão, as religiões têm-se colocado contra o aborto e a eutanásia, mesmo de indivíduos que não têm a menor possibilidade de sobreviver dignamente, e, numa defesa intransigente — eu diria burra — da vida, condenam a uma existência miserável criaturas para quem viver é um fardo pesado demais de carregar. E tudo porque supostamente “essa é a vontade de Deus”. (Será que é mesmo?)
A nudez em público também é proibida na maioria das comunidades humanas por razões religiosas, embora todos os animais andem nus sem que isso seja imoral; no caso do catolicismo, a moral proíbe aos sacerdotes o matrimônio e o sexo, indo mais uma vez contra a natureza, isto é, contra Deus. (A meu ver, o absurdo voto de castidade dos sacerdotes e a educação repressora dos seminários católicos deixam claro por que há tantos padres pedófilos.)
É evidente que há inúmeras implicações éticas em todas essas questões e, certamente, sem respeito a princípios éticos (sejam eles religiosos ou leigos), não haveria civilização. No entanto, é preciso lembrar que não existe uma ética universal, existem éticas particulares de comunidades e de épocas particulares. Além disso, a finalidade de toda ética é — ou pelo menos deveria ser — a busca do bem. Por isso, me parece que uma ética mais próxima dos sábios princípios criados pela natureza está ao mesmo tempo muito mais próxima do bem — e, portanto, de Deus — do que uma moral fundada em dogmas estabelecidos arbitrariamente por líderes religiosos carismáticos e autoritários. Em outros termos, proibições como não comer certos alimentos ou não fazer sexo em certos dias da semana e imposições como orar, jejuar e autoflagelar-se, estabelecidas pelas religiões, não conduzem a nenhum tipo de bem.
Nessa perspectiva, discussões sumamente importantes para a própria sobrevivência da espécie humana, sobretudo em condições social e moralmente dignas, como o controle da natalidade e o planejamento demográfico, por exemplo, acabam sempre empanadas por posições dogmáticas intransigentes de grupos religiosos que, em nome de Deus, contrariam a própria ordem natural do mundo, segundo eles criada por Deus. Esses dogmas, postulados em nome de Deus sem sua real autorização por manipuladores religiosos, conscientes ou inconscientes, honestos ou desonestos, são exatamente o oposto do que Deus — isto é, a natureza, o universo — parece ter estabelecido como leis. Paradoxalmente, parece que a ciência tem andado mais próxima de Deus do que a religião.
Aliás, descobertas recentes no campo de uma nova ciência, a neuroteologia, parecem indicar que a própria tendência humana a acreditar no sobrenatural, no divino — aquilo que chamamos de religiosidade ou de espiritualidade — tem uma explicação biológica. Em outras palavras, somos programados geneticamente para acreditar em Deus. Em seu livro Why God won’t go away (Por que Deus não vai embora), o neurocientista norte-americano Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, explica que existe uma região do cérebro localizada no lóbulo parietal esquerdo que é a responsável pela definição da fronteira entre o eu e o restante da realidade. Durante o chamado transe místico (que ocorre na prática meditativa ou numa prece fervorosa, por exemplo), o fluxo de informações neurais, provenientes dos sentidos, que circulam por essa região vê-se comprometido: o resultado é o apagamento da fronteira entre o eu e o mundo circundante, levando a consciência a uma sensação de fusão com a totalidade da existência. É o que os místicos chamam de experiência totalizante, a sensação de tornar-se um com o Todo. Conseqüentemente, o que se tem é um estado de consciência expandida. Assim, as “revelações” religiosas, o estado de iluminação — ou estado de graça —, a sensação de falar com Deus e até mesmo o fenômeno da autocura, freqüentemente atribuído ao milagre da intervenção divina, são na verdade processos biológicos que a ciência caminha rapidamente para compreender.
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É próprio da postura religiosa a defesa incondicional da doutrina, o que resulta, as mais das vezes, numa atitude arrogante e autoritária. Nesse sentido, tenho uma particular admiração pelo budismo, embora não seja — nem pretenda me tornar — budista. Certa vez, o falecido astrônomo norte-americano Carl Sagan perguntou ao Dalai Lama como o budismo reagiria se a ciência conseguisse provar a inexistência da reencarnação, um dos pilares da doutrina budista. Sua Santidade respondeu que, nesse caso, a doutrina teria de mudar. Essa é uma atitude extremamente moderna e democrática provinda de um líder religioso. Mais do que isso, é uma atitude sábia. É uma pena que poucos líderes religiosos tenham tal sabedoria e tal humildade.
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