DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

 

 

O RECORTE DO REAL

Aldo Bizzochi

 

 

Publicado em Língua Portuguesa, n.º 24, outubro de 2007

 

 

As línguas fracassam em descrever o mundo objetivamente, mas nos oferecem a oportunidade de conhecer tantos mundos quantos são os idiomas

A maioria das pessoas tem a impressão intuitiva de que a realidade é algo que existe objetivamente e que, além disso, nós a vemos exatamente como ela é. Nada mais falso. Embora a física já tenha demonstrado o quão enganoso é o mito da realidade objetiva, o próprio estudo da linguagem pode revelar aspectos interessantes da relatividade de nosso conhecimento sobre o mundo.

Ao longo do tempo, vários filósofos já se deram conta de que é o pensamento que instaura a realidade. Parmênides de Eléia (535-450 a.C.) dizia que “ser e pensar são a mesma coisa”, conceito reformulado séculos mais tarde por René Descartes na máxima “penso, logo existo”. Mas o pensamento que funda a realidade é sobretudo linguagem. Não por acaso, Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.) denominava por Logos, isto é, “o Verbo”, o princípio universal que dá origem ao Ser.

Só podemos pensar e compreender o mundo segundo as categorias da linguagem e, mais especificamente, as de nossa própria língua. Esse relativismo lingüístico fica claro quando aprendemos uma língua estrangeira, especialmente alguma que não seja muito próxima de nosso idioma nativo.

O problema é que a maioria das pessoas, sendo monolíngües, sequer imaginam que haja outra maneira de ver o mundo além da sua. E menos ainda têm consciência de que o modo como o vêem está “formatado” pela língua que falam.

Daí por que, ao depararem com outras culturas, torcem o nariz em sinal de desprezo por aquilo que sentem como estranho ou inferior. Afinal, se para mim é natural a distinção entre sino e campainha, devo achar absurdo que um inglês se refira a ambos como bell. Da mesma maneira, deveria achar estúpido que os ingleses chamem ora de clock ora de watch o que eu chamo de relógio.

Mas o pior é que muitos crêem que as línguas são meros conjuntos de etiquetas que pomos nas coisas. Ao passarmos de uma língua a outra, bastaria trocar as etiquetas. Em resumo, línguas diferentes dariam nomes diferentes a coisas iguais. Surge então a ilusão romântica de que poderíamos substituir todas as línguas do mundo por uma única, ganhando em praticidade e “objetividade”.

A literatura sobre o assunto nos conta até alguns casos folclóricos, como o da expedição francesa que deparou com um rio que nascia nas montanhas verdes do centro da África e a seguir adentrava o deserto do Saara, onde secava completamente. Como os franceses dividem os rios em duas categorias, fleuves (rios que correm para o mar) e rivières (rios que correm para outros rios), os membros da expedição ficaram perplexos e sem saber como nomear um acidente geográfico que, para eles, não era nem fleuve nem rivière.

Diz-se também que a língua inuit, dos esquimós do Alasca, tem mais denominações para o gelo do que línguas européias como o português, que só tem uma. É que, para eles, distinguir os vários tipos de gelo (o duro, o mole, o que permite construir iglus, o que afunda quando se pisa nele) é vital para sua sobrevivência.

Conhecer o real em si é impossível: a natureza impõe barreiras de diversos tipos ao nosso acesso sensorial e intelectual à realidade. Primeiro, o chamado princípio de incerteza da física quântica diz que, quando observamos uma partícula subatômica, nós modificamos seu comportamento. Logo, não poderíamos saber o estado que essa partícula teria se não estivesse sendo observada.

Além disso, esse princípio afirma ser impossível conhecer ao mesmo tempo a posição e a velocidade das partículas. Mais uma vez, nossa observação não nos diz o que realmente se passa na natureza. Nossos sentidos não são confiáveis nem mesmo quando olhamos para coisas macroscópicas (quem usa óculos sabe bem disso). Ou seja: nada nos garante que as coisas sejam do jeito como as vemos.

Mas enfrentamos também dois tipos de barreiras mentais à compreensão da realidade: as limitações de nosso cérebro e as estruturas de nossa linguagem. Isso nos faz pensar o mundo “ideologicamente”, portanto, sem a objetividade em que tanto acreditamos.

De acordo com Saussure, fundador da lingüística moderna, o signo lingüístico tem duas faces: significante (a pronúncia ou grafia da palavra) e significado (o que ela representa). Portanto, o que as palavras significam é algo que faz parte da língua e foi fixado arbitrariamente, tanto quanto os sons com que as pronunciamos. Natural então que falantes de línguas diferentes construam não apenas significantes diferentes, mas sobretudo significados diferentes para dar conta de suas experiências.

Estudiosos perceberam a íntima relação entre língua e pensamento, dentre eles Franz Boas, Edward Sapir e Benjamin Whorf. Estes dois últimos formularam a famosa hipótese Sapir-Whorf, segundo a qual os seres humanos vivem em universos mentais distintos, condicionados por suas culturas e expressos pelas línguas que falam. Ou, dito de outro modo, há uma relação sistemática entre as categorias gramaticais de nossa língua e o modo como compreendemos o mundo.

Whorf dizia que cada língua “recorta” a realidade de um modo particular. Isso não quer dizer, evidentemente, que a língua tem o poder de criar limites reais entre coisas. Quando digo que o Amazonas nasce como um filete de água, torna-se um córrego, depois um riacho, a seguir um ribeirão e, finalmente, um rio caudaloso, minhas palavras não criam diques que dividem esse curso d’água em trechos separados conforme sua largura ou volume de água. Tampouco a natureza provê tais divisões no contínuo do real, de tal modo que bastasse às línguas reproduzi-las com palavras.

Por isso, Émile Benveniste usou uma bela metáfora para explicar esse “recorte” lingüístico. Para ele, a língua é como uma rede de pesca estendida acima de um lago. A rede não toca a superfície do lago e, portanto, não recorta a água, apenas projeta sua sombra sobre ela. Igualmente, a língua projeta sobre o mundo uma sombra, que chamamos de visão de mundo.

As visões de mundo podem ser muito diferentes, como no caso já prosaico da análise do espectro das cores. Para a maioria dos povos, o arco-íris tem seis ou sete cores (ou seja, aqui já há uma discordância). Porém, algumas tribos vêem apenas duas cores. É o que narra Henry Allan Gleason em seu livro An introduction to descriptive linguistics. Segundo Gleason, há na Libéria a língua bassa, que divide o espectro luminoso em hui e ziza. A primeira cor corresponde, grosso modo, às nossas cores “frias”, e a segunda, às “quentes”.

Situação semelhante apresenta a língua dani, da Nova Guiné. Já o pirahã, língua indígena brasileira, não tem propriamente cores, mas distingue apenas entre claro e escuro. A razão dessa simplicidade cromática dos povos primitivos, de acordo com os antropólogos, é que caçadores-coletores não precisam de termos precisos em relação à cor porque isso não é essencial para sobreviverem. Já nas sociedades industriais, uma gama mais rica de cores é vantajosa e imprescindível.

Do mesmo modo, culturas tribais não costumam contar além de três. Um sistema numérico decimal, com frações, quantidades irracionais, logaritmo, etc., definitivamente não tem nenhuma utilidade para eles. Já para nós…

Entretanto, o relativismo lingüístico não afeta apenas o confronto entre línguas muito distantes como o português e o bassa. Uma simples comparação entre os usos de dois idiomas próximos como o nosso e o inglês é bastante ilustrativa sobre a noção de sinonímia. Na verdade, sinônimos interlingüísticos (isto é, palavras de línguas diferentes que têm supostamente o mesmo significado) são termos que mantêm um núcleo semântico comum, mas, por apresentarem diferentes acepções em cada língua, não correspondem um ao outro em todos os casos.

Sabemos que o verbo português “poder” se traduz em inglês por can ou may, conforme se trate de possibilidade ou permissão. Mas can significa também “saber” (por exemplo, I can cook quer dizer “eu sei cozinhar”). E “saber” em inglês pode ser can ou know, sendo que este último verbo também significa “conhecer” (ver quadro).

Se eu conheço alguém há um certo tempo, direi em inglês I know him/her. Mas se acabei de conhecê-lo, o verbo indicado é meet e não know. Só que meet também é encontrar um conhecido. E, se encontrar pessoas é meet, encontrar coisas é find, que em português também pode ser traduzido por “achar”. Mas em nossa língua não só é possível achar algo como também se pode achar que um livro é bom. Neste caso, o inglês emprega o verbo guess, que também quer dizer “adivinhar”.

Já deu para perceber como é difícil expressar-se numa língua estrangeira quando não se conhecem a fundo todas as nuances de significado do léxico. Essa é uma das fontes das gafes que estrangeiros cometem. Mas é também o que faz a riqueza da linguagem humana. Alguém disse um dia que a língua de um povo é uma enciclopédia única, de tal sorte que, quando uma língua se extingue, toda uma riquíssima experiência humana é perdida para sempre. Se as línguas fracassam em descrever o mundo objetivamente, elas nos oferecem a oportunidade de conhecer tantos mundos quantos são as línguas.