DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Ceticismo

 

 

COMO O “NÃO” REVIGOROU A LÍNGUA

Aldo Bizzochi

 

 

Publicado em Língua Portuguesa, n.º 13, novembro de 2006

 

 

Falar é algo tão natural que nem nos damos conta da maravilha que é a linguagem. Graças a ela, podemos nos referir a fatos e objetos ausentes, passados, futuros, hipotéticos e mesmo abstratos. Mais do que isso, podemos pensar, sonhar, imaginar – numa palavra, criar mentalmente antes de realizarmos materialmente.

Mas uma outra coisa de que não nos damos conta é que, quando falamos ou pensamos, estamos criando em nossa mente uma outra realidade, uma espécie de “realidade virtual”, paralela e, ao mesmo tempo, diferente do mundo real.

Para entendermos isso, é preciso ter em vista que os humanos (exceto os portadores de alguma anomalia sensorial, evidentemente) percebem biologicamente o mundo da mesma maneira. Isto é, os órgãos dos sentidos captam as mesmas imagens, os mesmos sons e cheiros, as mesmas sensações.

Entretanto, cada povo (e, mesmo, cada indivíduo) faz uma análise diferente do mundo que percebe em razão do seu particular sistema de valores. Embora os olhos de todos sejam, em princípio, iguais do ponto de vista funcional, quando um americano avista um mico e um gorila, ele interpreta esses dois espécimes como pertencentes a duas espécies animais diferentes, denominadas em inglês monkey e ape. Já um brasileiro, ao ver o mesmo par de animais, reconhecerá aí uma única espécie e dirá: estou vendo dois macacos. E o problema é que nem o brasileiro nem o americano percebem o mundo rigorosamente como é: nenhum deles, ao olhar para os animais, vê células ou átomos de que são formados.

Portanto, o mundo em que vivemos – ou acreditamos viver – é na verdade um simulacro do real, é o que resta da realidade depois de a informação que dela emana passar por dois filtros: primeiro, o filtro biológico dos sentidos; depois, o filtro ideológico da cultura. Na verdade, por mais paradoxal ou chocante que isso possa soar, o homem não vive no mundo real, vive num que só existe em sua mente e é criado pela linguagem. Esse universo paralelo que habita nossa cabeça é o que chamamos de “visão de mundo”.

O mais interessante de tudo isso é que só foi possível ao ser humano fazer essa abstração da realidade graças a um conceito extremamente primitivo e ao mesmo tempo extremamente complexo, que é o conceito do “não”.

A idéia de negação só existe na nossa mente – e isso faz toda a diferença. Talvez o não seja a essência da própria linguagem. A rigor, o conceito de negação marca a passagem da protolinguagem dos animais e dos primeiros humanos para a linguagem articulada do homem moderno.

Em algum momento de sua evolução, o Homo sapiens descobriu – e passou a expressar – a idéia do “não”. E passou a ter vantagem competitiva em relação a outros animais. Como vimos, a principal propriedade da linguagem é poder referir fatos e objetos ausentes, passados, futuros ou hipotéticos. Um macaco pode apontar uma banana a outro macaco; ambos pensam na banana, mas um macaco não pode, que se saiba, fazer o outro macaco pensar numa banana sem que ela esteja presente. Ele pode até fazer alguns gestos para indicar que há bananas nas proximidades, mas certamente não pode chegar dizendo:

“Ei, pessoal, quando eu estava vindo pela floresta, depois de ter fugido de um leão faminto, deparei com uma bananeira enorme, repleta de cachos de bananas; algumas ainda estavam verdes, mas outras já estavam madurinhas e deliciosas!”

Em resumo, um macaco pode reconhecer uma banana, mas não pode conceber uma “não-banana”. Aliás, só os seres humanos têm a capacidade de abstrair, isto é, de subtrair a substância de que algo é feito e manter apenas a forma (como, por exemplo, retirar mentalmente de um vaso a cerâmica de que ele é feito e reter apenas a sua forma geométrica). E subtrair significa tornar ausente ou inexistente, transformar algo em nada, fazer de conta que algo não existe. E isso só é possível se pensarmos em termos do não. A abstração é a negação hipotética de parte da realidade. E a aptidão simbólica do homem opera basicamente por oposições binárias do tipo sim-não.

Graças ao advento da negação, foi possível criar outras coisas que só existem em nossa mente: os antônimos, as oposições com/sem, mais/menos, muito/pouco, as relações matemáticas de igualdade e diferença, a lógica, a álgebra booleana dos computadores, baseada na oposição 1/0, e outras coisas.

O “não” é um conceito tão primitivo que não permite sua tradução em outros termos ainda mais simples (experimente ver como os dicionários definem o verbete Não). Não por acaso, “negação” deriva de “não” e não o contrário. O não é tão essencial que podemos conceber uma língua desprovida de palavras gramaticais, como preposições, conjunções, artigos (algumas línguas do mundo de fato não possuem tais palavras, apenas as chamadas palavras lexicais: substantivos, adjetivos, verbos), mas não existe nenhuma língua que não possua a palavra gramatical que indica a negação. Um exemplo disso é a linguagem telegráfica: para reduzir o custo do envio de um telegrama, podemos suprimir todas as palavras gramaticais, exceto o “não”.

Como o “não” inexiste na natureza, sua criação trouxe inúmeras conseqüências para o modo como vemos o mundo e concebemos a nós mesmos. Em primeiro lugar, o não permitiu conceber o nada (e daí a idéia religiosa da Criação) e o infinito (que é o que não tem fim). Na verdade, o nada não existe na natureza, ou, como diria Aristóteles, “a natureza tem horror ao vácuo”. Se bem que é preciso fazer aqui uma distinção: o vácuo é apenas um lugar do espaço desprovido de matéria, mas, ainda assim, é um lugar, é algo que existe e pode ser detectado; em suma, é alguma coisa concebível, portanto diferente do nada.

Já o Nada (a Inexistência absoluta), por definição, não existe. Ou, como diria o filósofo Demócrito, “o Ser é, o Não-ser não é”. Se o Nada não existe e o Não-ser não é, então a idéia de que o mundo surgiu do Nada, espontaneamente ou por obra de um Criador (anterior e exterior ao mundo, portanto participante do Nada), é apontada tanto por filósofos quanto por cientistas como absurda.

No entanto, essa idéia tem movido a humanidade durante milênios, criado religiões (e conflitos religiosos), alimentado a esperança de uma vida após a morte, a crença no sobrenatural, na justiça divina e em desígnios transcendentais que regem nosso destino. Mesmo que seja possível provar que aqueles que acreditam num Deus ou em deuses (isto é, a esmagadora maioria da humanidade) estão errados, a crença na transcendência é tão inerente ao ser humano que é, ao lado da linguagem – ou por causa dela –, o que nos tornou humanos.

Em segundo lugar, o “não” permitiu conceber o zero da matemática. E o advento do zero não só facilitou a aritmética como impulsionou todo o desenvolvimento da matemática que desaguou na ciência e tecnologia modernas. Aliás, o advento do não na linguagem foi tão revolucionário quanto o advento do zero na matemática.

Quanto ao infinito, os paradoxos lógicos que ele gera também parecem indicar que se trata de um mero conceito matemático sem existência real. Mas, então, como conceber um universo finito sem conceber um Nada exterior ao cosmo, aquele lugar “pra lá do fim do mundo”?

A resposta, a ser testada experimentalmente, é igualmente matemática: um universo autocontido, à maneira de um círculo ou uma esfera (só que em quatro dimensões ou mais), que não são infinitos mas tampouco têm extremidades. Todas essas questões lógicas e filosóficas complicadíssimas têm sua origem numa criação aparentemente inocente e óbvia: o “não”.

Uma pedra é um corpo absolutamente inerte: ela não atua sobre a realidade nem muito menos percebe essa realidade. O máximo que uma pedra pode fazer é sofrer a ação do mundo à sua volta (por exemplo, quando arremessada contra uma vidraça). Já um vírus é capaz de agir sobre a realidade – basta pegarmos uma gripe para nos darmos conta disso –, mas ele não é capaz de percebê-la, uma vez que não possui órgãos dos sentidos.

Uma formiga percebe o ambiente circundante com seus sentidos, mas ela muito provavelmente não tem nenhuma concepção do que seja o mundo. O homem não apenas percebe, como “concebe” o mundo. Por meio da linguagem, somos capazes de construir um modelo de mundo em que inserimos imagens mentais de tudo o que conhecemos. E mais: inserimos imagens de coisas que nunca existiram ou já deixaram de existir no real. Ou seja, criamos coisas mentalmente. Nisso consiste a memória, a imaginação, o raciocínio abstrato, a criação artística…

O “mundo” que a linguagem cria e no qual imaginamos viver guarda uma grande analogia com o mundo material. Não fosse assim, nossa sobrevivência estaria ameaçada. Entender a linguagem exige entender primeiro o que é o mundo material.

Segundo a física, o universo é formado de matéria, energia, espaço e tempo. Ou, para a teoria da relatividade de Einstein, como o tempo é apenas a quarta dimensão do espaço, e matéria e energia são mutuamente conversíveis, esses quatro componentes do universo podem ser reduzidos a dois: a dualidade espaço-tempo e a dualidade matéria-energia.

Portanto, o universo é um lugar onde coisas (corpos, ondas) dotadas de propriedades (massa, energia) se encontram em estados estáticos (repouso) ou dinâmicos (movimento) num determinado ponto do espaço-tempo. Esses estados são descritíveis por uma linguagem chamada matemática.

Mas antes que os cientistas inventassem a matemática para descrever o universo, os seres humanos já eram dotados de uma outra linguagem que faz basicamente a mesma coisa: a língua. Numa simples frase do português, encontramos coisas (sujeitos, objetos) dotadas de propriedades (adjuntos adnominais, predicativos) que se encontram em estados estáticos (João dorme. Os políticos brasileiros são honestos.) ou dinâmicos (As crianças corriam na estrada. O parlamentar recebeu a propina.) num determinado espaço e tempo (adjuntos adverbiais). Não é à toa que toda equação matemática pode ser traduzida em linguagem verbal.