DUBITO ERGO SUM

 Machado de Assis

 

O AMOR E SUA SOMBRA

Gustavo Bernardo

 

 

Publicado originalmente como introdução ao livro

Contos de amor e ciúme de Machado de Assis

(Rio de Janeiro: Rocco, 2008)

 

 

Os romancistas sempre falaram do amor, apontando-o como aquele sentimento que num momento leva as pessoas ao céu (quando estão apaixonadas e são correspondidas) mas que no outro instante as joga no inferno (quando elas se sentem abandonadas ou traídas). Na descida para o inferno, como sabem os que sofrem, o amor se transforma em ciúme. O ciúme é um daqueles assuntos que freqüenta não apenas as conversas informais entre amigos como também os romances de escritores consagrados. Isso acontece porque o sentimento do ciúme talvez revele alguns dos segredos que se encontram na sombra do amor.

Nosso mais importante escritor, Joaquim Maria Machado de Assis, construiu toda a sua obra de ficção – poemas, crônicas, contos, peças de teatro e romances – sobre os mistérios do amor e do ciúme. Como se trata de mistérios que sempre queremos esclarecer pelo menos um pouco que seja, encontramos aqui uma boa razão para ler seus livros: seu pensamento sobre as venturas e as desventuras amorosas permanece atual e lúcido.

Tudo começa com o primeiro texto de Machado de Assis publicado, em 1861, quando tinha apenas 22 anos. Esse texto não era dele, mas sim uma tradução que ele fez de um ensaio satírico francês, dando-lhe o seguinte título em português: “Queda que as mulheres têm para os tolos”. O título já é uma provocação, ao dizer que as mulheres preferem a companhia dos tolos. O texto satiriza as mulheres e os homens, mostrando como as opções amorosas de ambos são muito pouco racionais. Machado parece ter absorvido as idéias principais desse texto para depois desenvolvê-las e refiná-las.

Que tolo é esse que as mulheres preferem? O tolo de Machado não é o bobo, mas sim aquele tipo de machão vulgar e pouco instruído que quer apenas “se dar bem” com as mulheres. Por que as mulheres preferem o tolo? Ora, como o tolo não ama ninguém exceto a si mesmo, ele domina as mulheres com facilidade: na visão machadiana elas se deixam enganar melhor por aqueles que as fazem rir e não as levam a sério.

O contrário do tolo é o “homem de espírito”, aquele sujeito inteligente, culto, ético, respeitoso. O homem de espírito de Machado leva o amor a sério e, conseqüentemente, trata a mulher de maneira igualmente séria: essa seriedade o leva a tal nível de exigência que acaba por humilhá-la sem querer. Com melhor noção das próprias imperfeições, a mulher se afasta desse sujeito que exige mais do que ela pode ou quer ser. Por isso, ela termina por ridicularizar o homem de espírito, mostrando sua principal falha: ele “se acha”, isto é, ele se pretende um ser humano próximo do perfeito, logo, ele se revela pedante e arrogante, o que leva a mulher a abandoná-lo pelo tolo.

O homem de espírito fracassa, sim, mas aproveita o fracasso para pensar e para desenvolver uma perspectiva irônica sobre a realidade, sobre as mulheres e sobre si mesmo. A resposta machadiana para o homem de espírito, portanto, é a ironia. Ele critica ironicamente os homens, pela sua tolice ou pelo seu pedantismo, e também critica do mesmo modo as mulheres – no mínimo, por seu baixo nível de exigência quanto aos homens. A mulher é o alvo principal da reflexão dos protagonistas masculinos não apenas porque eles a desejam e não a entendem, mas também porque ela acaba se mostrando como uma espécie de símbolo da vida social do seu tempo, vida social esta baseada em ostentação, afetação e fingimento.

A combinação amor e ciúme não é um tema trivial, ligado apenas às fofocas do dia-a-dia. É um tema atemporal que toca nas grandes questões da nossa existência: a importância do outro e a impossibilidade de se saber a verdade toda sobre as pessoas. E Machado de Assis ainda provoca essa reflexão em quem lê seus livros.

No seu primeiro romance, Ressurreição, o escritor exercita a ironia desde o título: ele anuncia a ressurreição de um amor que, no entanto, nunca acontece. O protagonista se chama Félix, mas não é feliz. Ele ama a bela Lívia, uma jovem viúva que já tem um filho, mas tem tanto medo de se comprometer e de ser traído que a acusa de traição baseado apenas na intriga sem provas de um rival, terminando por afastá-la e afastar-se. Eles não se casam e terminam ambos sozinhos.

O mesmo tema retorna com toda força no seu romance mais conhecido, Dom Casmurro: os noivos, Bentinho e Capitu, chegam a se casar mas são infelizes para sempre. Bentinho, o narrador, sempre em dúvida se Capitu o traiu ou não com o seu melhor amigo, acaba optando pela certeza mais fácil e decidindo, sem provas, que ela o teria traído sim. Há um século esse romance vem gerando uma discussão divertida entre os críticos, alguns jurando que Capitu traiu, outros apostando que ela não traiu, que o marido é que era paranóico. Entre os advogados de acusação e de defesa deste processo contra Capitu, encontram-se aqueles que consideram que nem Bentinho nem nós, os leitores, podemos saber a verdade, ou seja, que nós precisamos aprender a conviver com a incerteza a respeito de Capitu – e, conseqüentemente, com a incerteza a respeito da pessoa amada.

Sua primeira peça de teatro também já trazia o sugestivo título de Desencantos, mostrando a disputa de dois homens, Pedro e Luís, por uma viúva, Clara. Luís “perde” a disputa e faz uma longa viagem para se curar da paixão. Ao retornar, supostamente curado, encontra Clara vivendo um casamento infeliz com Pedro. Interessa-se justamente pela filha de Clara. Quando pede sua mão à mãe, não perde a chance de soltar uma frase irônica e cruel: “Se V. Exa. não teve bastante espírito para ser minha esposa, deve tê-lo pelo menos para ser minha sogra”.

Na poesia de Machado, um dos melhores exemplos sobre o tema é o poema “Verme”, publicado originalmente em Poesias completas, em 1901. Nele, o poder do ciúme é descrito como o de um verme terrível que corrói a flor do coração sem que se perceba: “um verme asqueroso e feio / gerado em lodo mortal, / busca esta flor virginal / e vai dormir-lhe no seio. // Morde, sangra, rasga e mina, / suga-lhe a vida e o alento; / a flor o cálix inclina; /as folhas, leva-as o vento, // depois, nem resta o perfume / nos ares da solidão... / Esta flor é o coração, / aquele verme o ciúme.” Sem dúvida o coração do personagem Luís, da peça Desencantos comentada no parágrafo anterior, terá sido completamente corroído pelo verme do ciúme, a ponto de exercitar a crueldade com a antiga paixão na hora mesma em que pede a mão de outra pessoa em casamento.

O poema “Verme”, no entanto, se contrapõe a um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira, chamado “A Carolina”. Nele, Machado de Assis faz uma bela declaração de amor à sua mulher, que acabara de falecer, e como que decreta o triunfo do amor sobre o tempo. Por essa razão, consideramos pertinente reproduzi-lo ao final dessa série de contos do autor, como homenagem a esse triunfo.

Nos contos reunidos aqui neste livro, o amor é sempre o problema mais sério, no mais das vezes dialogando com sua sombra, o ciúme. Ler sobre ciúme e amor para discutir sobre eles, a partir das histórias de Machado de Assis, pode ser tão divertido quanto instrutivo. Divertido, porque vemo-nos e aos nossos amores, devidamente ampliados no espelho da ficção; instrutivo, porque podemos aprender a conviver melhor com a dúvida e a incerteza, isto é, com os limites da nossa condição humana.