DUBITO ERGO SUM

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PORQUE MACHADO DE ASSIS NÃO É UM “PORRE”

Gustavo Bernardo

 

 

Publicado originalmente no Jornal do Brasil de 08/03/2008

 

 

No ano do centenário de morte de Machado de Assis (sempre uma comemoração meio mórbida), a presença do escritor na cultura brasileira é inequívoca. Para os jovens, no entanto, essa presença é imposta como uma estátua que esmaga, ou apresentada como um pensamento que ajuda a pensar melhor?

Depende. Se o jovem leitor descobre Machado por conta própria, muito provavelmente se deslumbra. Se, todavia, o conhecido Bruxo do Cosme Velho lhe é apresentado na escola, corre o risco de perder toda a magia e lhe parecer “um porre”.

O deslumbramento com a leitura de Machado de Assis se justifica pela atualidade do seu ceticismo. A crítica às pretensões desmedidas da razão humana passa por toda a sua obra, crônicas, contos, romances. Na ficção, essa crítica toma corpo nos personagens e permite cultivar a dúvida que nos deixa sem dúvida (perdão pelo trocadilho) mais inteligentes, porque mais abertos aos mistérios do mundo e das pessoas. Através da ficção, a verdade que ele mostra e explora vem como que “de dentro”, permitindo ao leitor a vivenciar em movimento e não a congelar numa “descoberta” supostamente objetiva. Como Machado não se apressa a julgar seus personagens, ajuda seus leitores a não tirarem conclusões apressadas sobre os outros e a realidade em volta. Essa postura mantém o pensamento “acordado”, não o adormecendo com os soníferos do narcisismo e do dogmatismo.

O “porre” provocado pela leitura imposta de Machado ocorre não somente, nem creio que principalmente, por conta da imposição escolar, mas sim por conta de uma sucessão de clichês e equívocos que a crítica oficial produziu e a escola consagrou, passando ao leitor mais novo (e ainda crítico) uma impressão de inautenticidade. Se toda a ficção é na essência cética, caracterizando-se pela suspensão do juízo e pela proteção à dúvida, a ficção de Machado de Assis explora essa condição à máxima potência, evitando a controvérsia apaixonada que leva à certeza arrogante para melhor promover a dúvida crítica que leva à desilusão necessária quanto à suposta superioridade de determinada perspectiva, de determinada pessoa ou de determinada espécie – no caso, a humana.

Por isso, a ficção de Machado de Assis é eminentemente subversiva de qualquer ordem vigente. Sua subversão, entretanto, não é de modo algum panfletária nem estridente, ao contrário, mostra-se sempre sutil, irônica, semi-sorridente – o que só a torna mais perigosa ainda, capaz de abalar os alicerces de qualquer postura ou instituição dogmática ou autoritária. Ora, como conciliar esse caráter subversivo com o cânone escolar? Como admitir que o “maior escritor brasileiro” seja assim, perigoso?

De maneira semelhante àquela com a qual se neutraliza o fato de que esse importante personagem da história brasileira não pertencia à elite branca: numa sociedade ainda escravista, seu maior e melhor escritor era negro. Ao longo do tempo, os ilustradores e pintores esmeraram-se em “atenuar” seus traços de raça e “melhorar” seu cabelo e sua barba, como se repara até mesmo no retrato que Tarsila do Amaral fez do escritor, ao lado. Da mesma maneira que se embranquecem as feições de Machado, se tenta embranquecer e portanto se elitizar a sua obra. Esse equívoco orquestrado provoca outro: acusa-se Machado de esconder a própria raça, quando a leitura das suas crônicas e dos seus contos mostra todo o contrário.

Essa questão merece um outro artigo. Agora gostaria de chamar a atenção para outros dois equívocos recorrentes: a divisão da obra machadiana em duas fases e a atribuição de realismo à segunda fase.

Não posso contestar que nos romances da chamada primeira fase predomine o narrador onisciente em terceira pessoa, enquanto nos romances da segunda fase predomina o narrador-personagem em primeira pessoa. Entretanto, os manuais didáticos não destacam a diferença de técnica mas sim de estilo de época, considerando que a primeira fase seria romântica (portanto pior) ao passo que a segunda fase seria realista (portanto melhor).

O primeiro erro reside em considerar o realismo uma evolução do romantismo. Esse erro é tão entranhado na nossa cultura que elogiamos um romance dizendo que ele “tem tudo a ver com a realidade” ou então que “tem tudo a ver comigo”, confundindo ficção, necessariamente a invenção de um outro real, com a História ou com um espelho caseiro. O realismo não é superior ao romantismo, primeiro, porque a superioridade em arte é sempre uma falácia, e segundo, porque o realismo não é na essência diferente do romantismo. Realismo e romantismo são duas faces do mesmo estilo, o estilo burguês, que se caracteriza pela denegação da imaginação e pela crença ingênua na possibilidade de realmente se mostrar a realidade “como ela é” e não apenas como a conseguimos ver de tal ou qual perspectiva. Nenhuma perspectiva é capaz de ver ou deter a realidade-toda, vale dizer, tudo o que acontece, aconteceu ou acontecerá em todo e qualquer lugar. Logo, o que se pode dizer com segurança é que aquilo a que chamamos “realidade” é, no mínimo, “não-todo”. Machado talvez assinasse, junto com os filósofos contemporâneos, uma frase como essa: “a realidade é não-toda”.

O próprio Machado critica com a mesma virulência, na sua obra, tanto o romantismo quanto o realismo. É dele, esta sim, a frase que melhor condena qualquer realismo: “a realidade é boa, o realismo é que não presta para nada”. Ou seja, a realidade existe, é claro, e se encontra à nossa volta tanto quanto somos parte dela, mas não pode ser esgotada por nenhum discurso. O realismo não presta porque, por definição, ele procura a certeza sobre tudo e, em conseqüência, abomina a dúvida. É de Machado, também, o personagem que melhor caricatura os realistas, ou seja, aqueles que querem esgotar a realidade com um discurso supostamente científico: o médico de O alienista, Simão Bacamarte, que enlouquece de tanto querer curar e dominar a loucura.

A despeito de Bacamarte, da frase e de toda a obra, livros didáticos e professores continuam tentando convencer seus jovens alunos de que um dos maiores críticos do realismo enquanto escola teria sido não apenas um realista, mas até o principal representante do realismo brasileiro. Essa bobagem, não a posso chamar de outra maneira, se explica porque a postura realista é no fundo uma postura conformista e anti-subversiva. Desde seu surgimento não é possível negar a qualidade e a importância da obra de Machado de Assis, mas é possível escamotear e recalcar sua potência subversiva: é o que se vem fazendo desde então. Os jovens sentem a inautenticidade desse movimento, mas, com pouco instrumental teórico e filosófico (por culpa também da escola), traduzem-no como: “Machado de Assis é um porre”.

“Um porre”, no meu entender, é a insistência nesses equívocos. Exatamente a leitura dos contos e dos romances de Machado se mostra fundamental para superá-los e para superar o pensamento dogmático e esclerosado que se encontra por trás deles.