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O CETICISMO NÃO É UM PESSIMISMO
ou: a filosofia de Machado de Assis
Gustavo Bernardo
Publicado inicialmente na Revista Interagir nº 8
em janeiro de 2007 (mas referente ao 2º semestre de 2005)
Na vasta fortuna crítica machadiana, muitos comentam a presença do ceticismo nas suas obras de ficção. Dentre eles, o professor José Raimundo Maia Neto produziu sem dúvida o melhor e mais abrangente trabalho, publicado em inglês em 1994, sob o título de The Brazilian Phyrronian. O livro deve sair em português, como O ceticismo de Machado de Assis, apenas no 1º semestre de 2007, publicado pela editora Annablume.
A quantidade de críticos que trata o mesmo tema com menos competência é, todavia, bem maior. Entre os mais conhecidos, os livros de Afrânio Coutinho e Miguel Reale tratam diretamente da filosofia do escritor, mas um e outro escapam de enfrentar a questão do ceticismo, ou a enfrentam mal. Como eles, quase todos os demais comentaristas se referem em algum momento, é verdade, ao ceticismo de Machado de Assis, mas sem saberem muito bem o que seja o ceticismo e como alguém pode ser definido como cético. Talvez o que mais se tenha aproximado, e em 1912, tenha sido Alcides Maya, ao tratar do humor de Machado. Os demais tendem a confundir o ceticismo com termos que lhe são próximos mas de maneira alguma iguais: pessimismo, ateísmo e niilismo. Portanto, o tema é recorrente mas mal tratado – ou maltratado.
Deveria espantar que a presença do ceticismo na obra de Machado de Assis, tão transparente, seja recalcada dessa maneira. O espanto seria equivalente ao que manifestam alguns escritores estrangeiros, como Susan Sontag, com o espaço diminuto que ocupa a obra do escritor brasileiro: “I am astonished that a writer of such greatness does not yet occupy the place in world literature he deserves” (em Sepúlveda, 1998: 135) – “fico espantada que um escritor de tamanha grandeza ainda não ocupe o lugar que merece na literatura mundial”. Sontag percebe a centralidade do ceticismo nessa obra, como se vê no seu texto sobre Memórias póstumas de Brás Cubas, que considera “um desses livros arrebatadoramente originais, radicalmente céticos, que sempre impressionarão os leitores com a força de uma descoberta particular” (Sontag, 2001: 59).
Para quem estuda esse campo filosófico, no entanto, o recalque do ceticismo, em particular na obra de um monumento da literatura brasileira, não deve surpreender tanto assim. A postura cética, por definição, põe sob suspeita todos os dogmas, sejam eles pedagógicos, patrióticos, ideológicos, religiosos ou filosóficos, dificultando sínteses ou classificações a ponto de tirar o chão do analista. Logo, suspeito que ainda haja o que dizer a respeito. Como veremos, Machado de Assis escreve no século dezenove, absorvendo aspectos dos ceticismos moderno e contemporâneo mas tendendo a dar um passo atrás: é ateu, ainda que não militante, mas desconfia profundamente da ciência e do cientificismo. Seu suposto ceticismo irritou a maioria dos seus comentadores, a ponto de mais de um ler toda a sua obra e escrever livros inteiros só para combatê-lo, como, por exemplo, Octávio Brandão.
Nos termos da história da filosofia, não há surpresa. Os argumentos céticos costumam provocar irritação, o que produz um paradoxo: os céticos procuram a tranqüilidade, mas geram dissensão e controvérsia. Renato Lessa observou, em recente colóquio sobre o ceticismo realizado na UERJ, que quem se irrita com os céticos reivindica, com razão, a necessidade do dogmatismo para qualquer postura civilizatória. De fato, sem dogmas não se fundam religiões, escolas, filosofias e economias. Acontece que os céticos não pretendem vencer os dogmáticos, primeiro porque essa seria uma pretensão vã, e segundo porque, se vencessem, se tornariam aquilo que combatem. O ceticismo é antes uma espécie de terapia da hýbris da razão dogmática e suas manifestações arrogantes.
Os céticos admitem tranqüilamente que a sua posição não pode ser soberana ou constante. Para Bertrand Russell, o ceticismo é logicamente impecável mas psicologicamente impossível (em Watkins, 1984: 16). Não se pode ser cético o tempo todo, não se pode ser cético sequer na maior parte do tempo. Enquanto as filosofias dogmáticas supõem implicitamente a possibilidade de cada uma ser a única a ter razão, o ceticismo é forçado a abdicar dessa possibilidade, logo, de qualquer pretensão à hegemonia ou à unanimidade. Não faz sentido se pensar em uma eventual vitória do ceticismo.
Ceticismo e responsabilidade se relacionam estreitamente. A relevância do trabalho filosófico se dá a partir de imperativo duplo: “não desconhecer os fenômenos e objetos da vida ordinária e percebê-los ao mesmo tempo como itens contingentes de apenas um dos muitos mundos possíveis” (Lessa, 2003: 14). Enquanto o primeiro imperativo impede um relativismo absoluto (mas contraditório nos próprios termos) no qual nada possua qualquer valor de referência, o segundo imperativo impede que se reifiquem os fenômenos considerados. Enquanto absolutistas crêem que a verdade seja una e encouraçada, relativistas a afirmam ora inexistente, ora múltipla: ambos incorrem em erro. O cético não se pode contentar com a afirmação fácil de que todas as verdades seriam iguais ou equivalentes (Lessa, 1997: 238).
A concepção cética, na verdade todo estudo de ficção, rejeita ou deveria rejeitar escolher entre isso ou aquilo. No entanto, os estudos machadianos partem justamente de dicotomias do tipo “isso ou aquilo”. Esses estudos se sustentam em uma dicotomia básica, constante em todos os manuais de história da literatura brasileira, mas com duas variantes: primeira fase vs segunda fase; romantismo (da primeira fase) vs realismo (da segunda fase). Essa dicotomia se desdobra, nos estudos mais elaborados, em outras um pouco mais complexas, a saber: monumento literário vs desafio ao leitor; caráter reacionário (do cidadão) vs caráter revolucionário (do escritor); o filósofo vs o escritor; ceticismo vs niilismo (ou pessimismo); mensagem (ou conselho) vs ironia (ou desprezo).
Falemos um pouco da dicotomia básica, da qual partem todos os livros didáticos e manuais de história da literatura. Seria exaustivo, repetitivo e bastante aborrecido fazer esse levantamento. O leitor, se passou pelo ensino médio e continua estudando literatura, reconhece o fato. A variante inicial da dicotomia, primeira fase vs segunda fase, parece até mesmo corroborada por Machado, embora também se possa discuti-la. A segunda variante, entretanto, é seguramente contestada pelo escritor em várias ocasiões, acompanhado por um número expressivo de estudiosos machadianos. Ainda assim, os autores dos livros didáticos, em conseqüência os professores do ensino médio, a repisam edição após edição, aula após aula, prova após prova.
Considerar que os primeiros romances de Machado de Assis pertenciam à fase romântica e, portanto, são inferiores, enquanto os segundos pertenciam à fase realista e, portanto, são superiores, leva à conclusão inevitável de que o realismo é superior ao romantismo. Essa conclusão é um equívoco porque, como já demonstraram vários pensadores, o realismo não é na essência diferente do romantismo. Ambos os estilos são no fundo o mesmo estilo burguês, ocupado em fetichizar a realidade e denegar a imaginação: vistos da altura de hoje, romantismo e realismo “aproximam-se e descobrem a sua comum raiz realista” (Ortega Y Gasset, 1925: 28).
A persistência no equívoco é mais uma prova, entre tantas outras que podem ser encontradas nas diversas disciplinas, de que a nossa pedagogia ainda não chegou ao século vinte, que dirá ao século vinte e um. Continua-se a fetichizar a realidade e denegar a imaginação para melhor controlar o sujeito, tornando-o objeto passivo da teoria e da ideologia inclusive em nome de uma pretensa subjetividade. Esse processo de transformar o sujeito em objeto justamente “em nome da subjetividade” se encontra na raiz do que George Orwell chamou de “duplipensar”, ou seja, do pensamento constituído por duplos vínculos contraditórios dos quais se perde justamente a consciência da contradição.
No caso específico de Machado de Assis, a persistência no equívoco realismo vs romantismo é mortal não apenas para a parte supostamente menor da sua obra, mas também para a parte supostamente maior, monumentalizada ao ponto de se tornar inócua ou insuportável. O equívoco, todavia, é tão forte, que os estudantes de Letras saem da faculdade, onde aprenderam a questionar o realismo de Machado, e caem no ensino médio esquecendo tudo o que discutiram: voltam a repetir que Machado é realista.
Por quê? Ora, porque ele tem de ser colocado em alguma gaveta e a gaveta mais à mão é a da cronologia bêbada dos estilos de época (ora razão, ora emoção, até cair no chão). Bem, claro que estou simplificando (e ironizando) para melhor combater esta concepção de que discordo. Mas penso que a grande maioria dos alunos (e dos professores), se perguntada à queima-roupa, vai responder que Machado é realista porque escreveu em uma época realista, assim como um negócio é um negócio e um pai é um pai.
Mesmo o melhor dos manuais, escrito por um dos melhores machadianos, assume que “o ponto mais alto e equilibrado da prosa realista brasileira acha-se na ficção de Machado de Assis” (Bosi, 1970: 193), embora, em extensa nota de rodapé, descarte opor uma segunda fase realista à primeira fase romântica. Em trabalho mais recente, Alfredo Bosi (2003: 79) reitera que “Machado nunca foi, a rigor, um romântico (o Romantismo está às suas costas)”. Ao se referir aos contos e romances dessa suposta primeira fase, considera que eles são inexatamente considerados como românticos: melhor seria dizê-los de compromisso, ou convencionais. Logo a seguir, especifica o estilo de Machado, entendendo-o como um “realismo de sondagem moral”. A especificação é suficiente para distinguir o escritor dos demais realistas do século, mas não deixa de contribuir um pouco para o equívoco.
Costa Lima (1981: 58) reconhece a obviedade de que Machado se deparasse com duas poéticas, a romântica e a realista. Avança na reflexão, no entanto, quando entende que o rumo estabelecido pelo escritor se contrapunha às duas poéticas, simplesmente porque nenhuma se ajustava ao tipo de reflexão que veio desenvolver. Em termos subterrâneos e insidiosos, o realismo que denega a imaginação (em conseqüência, a própria ficção) se torna um valor em si, prejudicando a compreensão de qualquer literatura. Perguntado, também à queima-roupa, porque tal livro de ficção é bom, a dona de casa desinformada e o aluno universitário vão responder provavelmente a mesma coisa: ah, porque tem tudo a ver com a realidade – ou “comigo”. Ora, se um livro de ficção tem “tudo” a ver com a realidade (ou comigo), trata-se de um documentário (ou de um espelho caseiro), não de um livro de ficção. Logo, trata-se de um livro ruim.
Vários outros estudiosos contestam o atributo de “realista” a Machado de Assis, apoiando-se não apenas na sua obra mas também nas várias manifestações explícitas do escritor. Sebastião Rios Jr (1998: 95), por exemplo, afirma que o estudo dessa obra “tem necessariamente de levar em consideração o fato básico de que o escritor era um desafeto do realismo escola”. Ele reconhece que o afastamento da notação da realidade e a conseqüente desobediência aos ditames da verossimilhança fazem parte de um movimento maior que inclui o retorno à reflexão sobre a realidade, o que justificaria chamar a obra de realista. Entretanto, tal realismo “deve ser entendido enquanto efeito e não enquanto procedimento” (Rios Jr, 1998: 109). Ou seja, toda e qualquer obra, em qualquer tempo, pode ser classificada como realista, uma vez que faz parte da intenção do autor falar da ou expressar a realidade – mas isso torna a classificação, no melhor dos casos, inócua. No pior dos casos, a classificação de realista se contamina com as marcas positivistas e denegadoras do século dezenove.
Por isso, a especificação de Bosi, atribuindo ao estilo machadiano a designação de realismo de sondagem moral, qualifica a discussão, mas ainda prefiro o comentário de Gledson (1986: 23): “encontram-se muitos críticos que nos dizem que Machado é realista [mas esse realismo] é sobretudo enganoso”. O epíteto de “realismo enganoso”, contraditório nos próprios termos, me parece mais adequado para esta obra, bem como para a melhor ficção.
Machado de Assis engana quando é lido como realista, assim como engana quando é lido como conservador e até mesmo reacionário. Essa última leitura é atualmente facilitada pela sua condição de monumento da literatura brasileira, mas já se dava com o escritor ainda vivo. Sua ironia, propriamente cética, complica sua recepção, uma vez que dificulta encaixá-lo em qualquer gaveta estética ou ideológica – exatamente por isto, são a sua ironia e o seu ceticismo, combinados, que configuram a sua qualidade e o seu poder.
Esta ironia se realizava plenamente nos romances e nos contos, mas também nas muitas crônicas que escrevia para o jornal. Um dos exemplos mais impactantes me parece ter sido a crônica que publicou na Gazeta de Notícias em 16 de junho de 1895, intitulada “O autor de si mesmo”. A crônica estava baseada em um acontecimento trágico e particularmente cruel que resultou na morte de uma criança de dois anos de idade. Machado de Assis construiu esse texto promovendo um diálogo dantesco entre a própria criança, à beira da morte, e o filósofo Arthur Schopenhauer e sua metafísica do amor.
Antes de quaisquer considerações, é importante relermos a crônica propriamente dita:
GUIMARÃES chama-se ele; ela Cristina. Tinham um filho, a quem puseram o nome de Abílio. Cansados de lhe dar maus tratos, pegaram do filho, meteram-no dentro de um caixão e foram pô-lo em uma estrebaria, onde o pequeno passou três dias, sem comer nem beber, coberto de chagas, recebendo bicadas de galinhas, até que veio a falecer. Contava dous anos de idade. Sucedeu este caso em Porto Alegre, segundo as últimas folhas, que acrescentam terem sido os pais recolhidos à cadeia, e aberto o inquérito. A dor do pequeno foi naturalmente grandíssima, não só pela tenra idade, como porque bicada de galinha dói muito, mormente em cima de chaga aberta. Tudo isto, com fome e sede, fê-lo passar "um mau quarto de hora", como dizem os franceses, mas um quarto de hora de três dias; donde se pode inferir que o organismo do menino Abílio era apropriado aos tormentos. Se chegasse a homem, dava um lutador resistente; mas a prova de que não iria até lá, é que morreu.
Se não fosse Schopenhauer, é provável que eu não tratasse deste caso diminuto, simples notícia de gazetilha. Mas há na principal das obras daquele filósofo um capítulo destinado a explicar as causas transcendentes do amor. Ele, que não era modesto, afirma que esse estudo é uma pérola. A explicação é que dous namorados não se escolhem um ao outro pelas causas individuais que presumem, mas porque um ser, que só pode vir deles, os incita e conjuga. Apliquemos esta teoria ao caso Abílio.
Um dia Guimarães viu Cristina, e Cristina viu Guimarães. Os olhos de um e de outro trocaram-se, e o coração de ambos bateu fortemente. Guimarães achou em Cristina uma graça particular, alguma cousa que nenhuma outra mulher possuía. Cristina gostou da figura de Guimarães, reconhecendo que entre todos os homens era um homem único. E cada um disse consigo: "Bom consorte para mim!" O resto foi o namoro mais ou menos longo, o pedido da mão da moça, as formalidades, as bodas. Se havia sol ou chuva, quando eles casaram, não sei; mas, suponho um céu escuro e o vento minuano, valeram tanto como a mais fresca das brisas debaixo de um céu claro. Bem-aventurados os que se possuem, porque eles possuirão a terra. Assim pensaram eles. Mas o autor de tudo, segundo o nosso filósofo, foi unicamente Abílio. O menino, que ainda não era menino nem nada, disse consigo, logo que os dous se encontraram: "Guimarães há de ser meu pai e Cristina há de ser minha mãe; é preciso que nasça deles, levando comigo, em resumo, as qualidades que estão separadas nos dous". As entrevistas dos namorados era o futuro Abílio que as preparava; se eram difíceis, ele dava coragem a Guimarães para afrontar os riscos, e paciência a Cristina para esperá-lo. As cartas eram ditadas por ele. Abílio andava no pensamento de ambos, mascarado com o rosto dela, quando estava no dele, e com o dele, se era no pensamento dela. E fazia isso a um tempo, como pessoa que, não tendo figura própria, não sendo mais que uma idéia específica, podia viver inteiro em dous lugares, sem quebra da identidade nem da integridade. Falava nos sonhos de Cristina com a voz de Guimarães, e nos de Guimarães com a de Cristina, e ambos sentiam que nenhuma outra voz era tão doce, tão pura, tão deleitosa.
Enfim, nasceu Abílio. Não contam as folhas cousa alguma acerca dos primeiros dias daquele menino. Podiam ser bons. Há dias bons debaixo do sol. Também não se sabe quando começaram os castigos, — refiro-me aos castigos duros, os que abriram as primeiras chagas, não as pancadinhas do princípio, visto que todas as cousas têm um princípio, e muito provável é que nos primeiros tempos da criança os golpes fossem aplicados diminutivamente. Se chorava, é porque a lágrima é o suco da dor. Demais, é livre — mais livre ainda nas crianças que mamam, que nos homens que não mamam.
Chagado, encaixotado, foi levado à estrebaria, onde, por um desconcerto das cousas humanas, em vez de cavalos, havia galinhas. Sabeis já que estas, mariscando, comiam ou arrancavam somente pedaços da carne de Abílio. Aí, nesses três dias, podemos imaginar que Abílio, inclinado aos monólogos, recitasse este outro de sua invenção: "Quem mandou aqueles dous casarem-se para me trazerem a este mundo? Estava tão sossegado, tão fora dele, que bem podiam fazer-me o pequeno favor de me deixarem lá. Que mal lhes fiz eu antes, se não era nascido? Que banquete é este em que o convidado é que é comido?".
Nesse ponto do discurso é que o filósofo de Dantzig, se fosse vivo e estivesse em Porto Alegre, bradaria com a sua velha irritação: "Cala a boca, Abílio. Tu não só ignoras a verdade, mas até esqueces o passado. Que culpa podem ter essas duas criaturas humanas, se tu mesmo é que os ligaste? Não te lembras que, quando Guimarães passava e olhava para Cristina, e Cristina para ele cada um cuidando de si, tu é que os fizeste atraídos e namorados? Foi a tua ânsia de vir a este mundo que os ligou sob a forma de paixão e de escolha pessoal. Eles cuidaram fazer o seu negócio, e fizeram o teu. Se te saiu mal o negócio, a culpa não é deles, mas tua, e não sei se tua somente... Sobre isto, é melhor que aproveites o tempo que ainda te sobrar das galinhas para ler o trecho da minha grande obra, em que explico as cousas pelo miúdo. É uma pérola. Está no tomo II, livro IV, capítulo XLIV... Anda, Abílio, a verdade é verdade — ainda à hora da morte. Não creias nos professores de filosofia, nem na peste de Hegel ...
E Abílio, entre duas bicadas:
— Será verdade o que dizes, Artur; mas é também verdade que, antes de cá vir, não me doía nada, e se eu soubesse que teria de acabar assim, às mãos dos meus próprios autores, não teria vindo cá. Ui! Ai!
O leitor já se espanta com a ironia veemente e indignada desta crônica, no melhor estilo swiftiano. Ela parece lhe confirmar o julgamento recorrente de Machado como cético e pessimista, grudando um adjetivo no outro. Mas o próprio escritor, em crônica datada de 28 de fevereiro de 1897, distingue um termo do outro e, curiosamente, recusa a imputação de ceticismo, admitindo o pessimismo:
Não achareis linha cética nestas minhas conversações dominicais. Se destes com alguma que se possa dizer pessimista, adverte que nada há mais oposto ao ceticismo. Achar que uma coisa é ruim, não é duvidar dela, mas afirmá-la. O verdadeiro cético não crê, como o dr. Pangloss, que os narizes se fizeram para os óculos, nem, como eu, que os óculos é que se fizeram para os narizes; o cético verdadeiro descrê de uns e de outros. Que economia de vidros e de defluxos, se eu pudesse ter esta opinião!
Trata-se, no entanto, de mais uma ironia. O escritor corretamente distingue o ceticismo do pessimismo, que seria uma variante negativa do dogmatismo, sugerindo que no final da vida se tem mostrado pessimista. Enquanto o otimista acha que os narizes se fizeram para os óculos – estamos no melhor dos mundos, ou, o que dá no mesmo, o mundo rima conosco e com nossas vontades –, o pessimista entende que os óculos é que se fizeram para os narizes: estamos no pior mundo possível, onde os óculos não se encaixam nos narizes mas têm de ser usados assim mesmo. Entretanto, como o senso comum costuma ver no cético alguém que tudo vê com tintas negativas, Machado dá uma rasteira no leitor ao colocar-se ele mesmo como pessimista, o cético sendo outra coisa: alguém que suspende suas crenças, não se afigurando nem pessimista nem otimista. Logo, o suposto pessimismo do escritor não passaria de um truque retórico, ou seja, de outra ironia: seu olhar sobre narradores, personagens e leitores é, antes de tudo, compassivo.
A frase final da sua crônica – “se eu pudesse ter esta opinião!” – deixa claro que Machado gostaria de ser cético, como se não o fosse... Como se ele não suspeitasse de todas as opiniões, apesar de, ou exatamente por, considerá-las mais necessárias do que a realidade, como comentara no conto “O segredo do bonzo”: “se uma cousa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existências paralelas a única necessária é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente”. Desse modo, o escritor defende-se da recorrente acusação de ceticismo, respondendo: quem me dera...
O cético não apenas não tem mestre ou guru, como não forma discípulos. Ele sabe que as escolas, tanto faz se políticas, religiosas ou literárias, se constituem tão-somente sobre dogmas, jamais sobre dúvidas. Muitos falaram da forte influência do filósofo pessimista Schopenhauer sobre Machado, mas poucos observam como, na crônica “O autor de si mesmo”, o escritor leva tanto o seu tema quanto o próprio Schopenhauer ao absurdo.
A professora de filosofia Rosa Maria Dias, da UERJ, no artigo “O autor de si mesmo: Machado de Assis leitor de Schopenhauer”, é uma destes poucos, ao demonstrar que a crônica do escritor brasileiro promove o diálogo exatamente com o capítulo 44 do segundo volume da obra de Schopenhauer, O mundo como vontade e representação. O título do capítulo em questão, “A metafísica do amor”, sugere um floreio romântico e edificante, mas o que se lê é o contrário.
Defendendo que o amor seja pensado pela filosofia, o filósofo constrói uma concepção próxima do naturalismo: apenas a metafísica da vontade poderia dar a chave do grande enigma do amor, que não é função do espírito nem desejo de unidade no outro, mas, bem o oposto, implica um engenhoso artifício da natureza para preservar a existência. Na síntese de Rosa Dias, “a ilusão do amor é um estratagema biológico, por meio do qual a natureza atinge seus fins. O indivíduo pensa perseguir os seus fins próprios, quando na verdade trabalha para algo universal: a espécie. A vontade atua, dessa maneira, enganando a consciência do amante no que diz respeito à perfeição da pessoa amada, a fim de dirigir seu apetite sexual para os fins da reprodução” (Dias, 2005: 388).
No âmbito da crônica, é como se Guimarães visse em Cristina sua beleza, mas o amor, por trás, visse apenas Abílio, isto é, o filho futuro, a reprodução da espécie. Embora os jornais da época não expliquem porque os pais depois deixaram o filho “ao cuidado” das galinhas, Rosa Dias, baseando-se na obra de Schopenhauer, tece algumas conjecturas a respeito: “depois da realização da grande obra – Abílio – Cristina e Guimarães sentem-se ludibriados sem terem mais a ilusão com a qual o gênio da espécie os tinha animado e enganado; percebendo que se sacrificaram por um objetivo que não surgiu deles mesmos, que contraria mesmo os seus interesses pessoais, vêem, então, sepultada a sua felicidade, passando a ter um companheiro ou companheira odiosa” (Dias, 2005: 391).
O ressentimento pela perda da ilusão estaria na raiz do abandono particularmente cruel, justificando o pessimismo de Schopenhauer e a aproximação que realiza Machado de Assis: “tal como Schopenhauer, Machado pôs em cena o grande drama da existência humana. Sistematizou no ‘Autor de si mesmo’ sua visão pessimista da vida. Os seres humanos estão condenados à infelicidade, não só porque são títeres de uma força inconsciente e instintiva, mas porque a estrutura inata do afeto impede de maneira inerente a aquisição da felicidade” (Dias, 2005: 392).
Rosa, assim, parece concordar com Machado, que se dizia antes pessimista do que cético. Entretanto, ela mesma observa: “por que a natureza precisou de um Abílio para depois tirar sua vida não temos dados para explicar” (Dias, 2005: 391). Schopenhauer desconstrói, sim, com a sua filosofia pessimista, a ilusão do amor, mas não teria como explicar a emergência de Abílio, isto é: a existência de uma criança de dois anos de idade abandonada numa estrebaria para ser morta aos poucos pelas bicadas das galinhas. Desta maneira, o escritor não apenas confirma a filosofia de Schopenhauer por meio de uma ficção tirada de um dos fait divers mais cruéis do seu tempo, mas ainda a leva ao absurdo. A conversa da criança com o filósofo tem um tom cômico que contrasta fortemente quer com a gravidade da filosofia, quer com a gravidade do acontecimento. Não é que Machado de Assis faça o procedimento inverso e desconstrua o pessimismo do filósofo, mas sim que ele, levando-o ao absurdo e reforçando-o pela crueldade do próprio humor, acaba por mostrar que o pessimismo também não é uma explicação suficiente. Em outras palavras, que a solene metafísica schopenhaueriana do amor é “apenas mais uma teoria” no concerto diafônico da filosofia, restando inexplicado o amor, o ódio, a vida e a morte – tudo, enfim.
Mesmo numa crônica sobre o terrível, e terrível de ler, o escritor brasileiro não nos parece isto ou aquilo, pessimista ou otimista, revolucionário ou conservador, promovendo antes uma permanente suspensão do juízo tipicamente cética, que não o impede, como a nenhum cético, de continuar pensando, se espantando e levantando dúvidas fundamentais, ou seja: que fundam o pensamento dos seus leitores de então e de agora.
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