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ENTREVISTA A PAULO POLZONOFF JR.
Publicada no jornal O Rascunho de 27 de Março de 2000
Gustavo Bernardo, 45 anos, não é um estreante nas letras. Professor de Literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, já publicou poesia, três livros infanto-juvenis e quatro ensaios, todos tendo a literatura como tema. “Lúcia”, sua primeira incursão pela literatura adulta, já lhe rendeu uma prestigiosa indicação ao prêmio Jabuti deste ano. “Lúcia” pretende resgatar valores românticos que, na verdade, jamais se extinguiram na nossa sociedade. Além disso, traz à tona um dos escritores mais injustiçados da nossa história literária: José de Alencar. Sobre “Lúcia”, Gustavo Bernardo concedeu esta entrevista.
PP: Gostaria que você falasse um pouco do seu narrador, Paulo. Me parece que, ao longo do romance, ele, por ser um professor de gramática, age de acordo com uma “lógica gramatical”, ou seja, seus atos são definidos pelas possibilidades sintáticas que suscitam.
GB: Essa é uma idéia bem interessante, que talvez pudesse ser demonstrada — mas, se verdadeira, não foi deliberada. O que pensei com o “professor de gramática” foi explorar a idéia de que a gramática tanto pode ser uma filosofia altamente abstrata e produtiva da língua (logo, da cultura) quanto sua denegação, de tão estéril que se apresenta nas aulas usuais.
PP: Seu romance pretende resgatar um pouco do ideário romântico. Por que os críticos e, pior, os leitores de hoje em dia, renegam tanto a escola romântica?
GB: Provavelmente porque permanecemos nela, uma vez que o romantismo é o supra-sumo de um estilo maior, a saber, o estilo burguês, o qual é preciso sempre negar para tentar sempre superá-lo, superando seu sentimentalismo kitsch, seu patriotismo nefasto, seu culto do gênio e do sujeito que finge que não é sujeitado às circunstâncias.
PP: Como é retomar Lúcia, de “Lucíola”, um personagem já construído e consolidado pelo tempo?
GB: Lúcia, de “Lucíola”, é um dos personagens femininos mais ricos da literatura brasileira, a despeito do próprio José de Alencar, que deu um jeito de enfraquecê-la, a partir do meio do livro, até a morte. Retomá-la é uma tentativa de recuperar aquela riqueza, ao mesmo tempo iluminando a nossa miséria, nos termos das relações com o “outro” e com a mulher.
PP: Que sentido faz — se é que faz — o código do amor cortês atualmente?
GB: As regras do código do amor cortês são absolutamente fascinantes, parecendo-nos em muitos aspectos mais ousadas do que as nossas regras do amor burguês. No fundamental: o código cortês aceitava a ficção como central na relação amorosa, não pedindo do amante “conte-me tudo, não me esconda nada”, como o fazemos hoje através da psicanálise e das revistas populares.
PP: Fiquei meio indeciso quanto ao público a que se destina seu romance. Isto porque ele tem um forte caráter lúdico e, digamos, “pedagógico”.
GB: Meu “leitor ideal” é um rosto-mosaico: um pouco de intelectual universitário, outro tanto de aluno adolescente, velhas senhoras inteligentes e professores decerto inquietos. Há esse caráter lúdico, no sentido de brincar com os seres de papel que seriam não apenas os personagens como os próprios leitores e quiçá este autor. Há também um aspecto “pedagógico” que você colocou muito bem entre aspas, porque se quer antes provocar do que ensinar.
PP: José de Alencar é um escritor hoje restrito a duvidosos exercícios paradidáticos. José de Alencar é leitura para crianças de 13, 14 anos?
GB: Alencar pode ser lido com adolescentes, desde que não seja apresentado como uma estátua pesada e chata, desde que se aproveite seu potencial de provocação — ou seja, importa antes a paixão e o exemplo do professor do que o livro escolhido. E o ensino de literatura é um tema imenso: o que normalmente se ensina são historinhas edificantes, primeiro, e depois a bobagem chamada “estilos de época”, pela qual se convencionou que determinado século É razão, logo, o século seguinte SERÁ emoção — isto é, começa-se ensinando moral e cívica para depois se pregar uma historiografia pré-positivista. Dessa maneira, nem se chega na literatura como a entendemos. Claro que há professores fantásticos, mas os programas e os livros didáticos confirmam um ensino no mínimo indigente.
PP: Você faz uma ligação bastante interessante entre o idealizado século XIX e os chamados “Anos Dourados” do século XX. Gostaria que você falasse um pouco desta relação.
GB: A relação é tanto histórica quanto pessoal e imaginária: a história de “Lucíola” se passa bem a meio do século 19, em 1855, enquanto a história de “Lúcia” se passa bem a meio do século 20, em 1955, ou mais precisamente, no ano em que nasci. Tentei então juntar as pontas de dois séculos pelo centro deles, ao mesmo tempo que juntava as pontas da minha vida pesquisando tudo o que eu não sabia a meu próprio respeito e a respeito da minha circunstância.
PP: Agora uma pergunta que não tem muito a ver com o romance, mas sim com o “ser escritor”. Por que fazer literatura às portas do século XXI?
GB: Faço literatura porque não quero ficar reclamando que ninguém lê, ou pior, que ninguém me lê; faço literatura porque se a história acabou e nos encontramos na pós-história este é o lugar das narrativas assumidas como tal; faço literatura porque insisto há muito e pretendo continuar, faço leitura porque resisto a ser pragmático, porque é preciso suspender tanto a descrença quanto todas as crenças, porque é preciso aprender a olhar sempre o próprio rabo para se poder algures colher um olho no vento; faço leitura porque é necessário desconfiar ironicamente tanto do discurso alheio quanto principalmente do próprio discurso, porque tão feia é a pessoa que acredita piamente em si mesma.