DUBITO ERGO SUM

 A respeito do editor

 

 

De:   Giselle Maria

Para: Gustavo Bernardo

Em:   20/11/2007

 

Acabei de ler o seu livro e gostei muito, muito mesmo! Quando terminei a última página lembrei-me de Julio Cortázar que, certa vez, afirmou: “só acreditam nos fantasmas os próprios fantasmas”. Falava ele de sua ficção que trazia uma realidade posta de “patas arriba”, cuja perspectiva desafiava o real como o conhecemos (conhecemos?), ao abrir portas de possibilidades, mundos alheios a nossa certeza de existência.

Cortázar não sabia, mas com sua afirmação acabava de criar a base sobre a qual a literatura se assentaria nas décadas subseqüentes. Base que desestabiliza principalmente a nós leitores e nossa concepção de possível.

Pois me pus a pensar, seria possível a um programa de renderização forjar a humanidade? Um programa que, por sua vez, desloca a lógica cristã, posto que é uma fêmea, uma sigla, a “parir” o real criado, afastando-se (será?) da crença no Deus masculino (?) do cristianismo e se aproximando das deidades femininas antigas? Da mesma forma, seria possível congelar o tempo numa noite eterna e transformar recordações em bonequinhos de chumbo?

Sim, tudo isso é possível e acontece em seu Reviravolta. Acontece no momento em que lemos as primeiras linhas e nos confrontamos com a tentativa de, pela ficção, recuperar um começo não contraditório como o de Gênesis. Contradição que é a do próprio narrador (narradora) que inverte a narrativa bíblica pondo a criação do dia e da noite como sendo no quarto dia (quando são criados os luminares) e não no primeiro, como de fato é relatado (“e fez Deus separação entre a luz e as trevas, e chamou a luz dia e as trevas noite. E foi este o primeiro dia”). Ao dar importância maior à criação do sol e da lua do que à da luz e das trevas, a narradora já se desloca no interior do mito e nos faz lembrar da adoração aos astros nas culturas pré-cristãs; ao mesmo tempo, em seu deslocamento, carrega consigo um leitor que pronto também se sente deslocado.

Acontece asimismo, Gustavo, quando nos deparamos com seus personagens de nome igual e alcunha Velho e Novo, estabelecendo assim o tempo como uma linha descontínua, já que o Novo se revela na narrativa anterior ao Velho e nos faz sentir, nós leitores, anteriores a nós mesmos.

Acontece conforme nos angustiamos com a noite que não passa, a luz que não incide sobre a treva, o programa refazendo o princípio do princípio, sem forma e vazio. Só um movimento, como o do Espírito pairando sobre a face das águas: o da casa, com as tias e seus doces, o pai e sua tristeza, os primos e os balões, o avô a girar o mundo em forma de cubo e os irmãos como segredo um do outro.

Como leitora que sou, acredito na Maria e em Pedro e me envolvo com o não-amor e o sexo que os envolve. E me surpreendo com a roupa que não cresce, a vida que envelhece no espaço já claustrofóbico do quintal, circundado pela morte, e da casa, plantada na escuridão.

O encolhimento do personagem de Maria e do Pai, transformados em bibelôs, fez-me lembrar do quanto somos diminutos e frágeis diante da vida que se agiganta com sua negrura de floresta, com sua incerteza de rio parado. Clarice já dizia que água parada é água funda, perigo. Assustada, deixei a continuação da leitura para outro dia.

Mas se o outro dia não chegar, professor? E se a noite continuar para sempre, se não houver amanhã? Noite-sempre, sempre-noite, sempre-noite. Veja, já começo a acreditar nos fantasmas (que paradoxo para minha "condição" (????) de crente).

Retomo então o livro. E, inesperado, que haja luz! A luz surge do balão que se incendeia e ilumina. Ilumina, além da rua, a casa, a vida, a mim? Mas com a luz, o incêndio, a morte, o desfazer-se. E o estranhamento: a claustrofobia não diminui com a claridade e a queda das paredes, o espaço que se amplia além do quintal. Ainda a angústia, o medo com o medo dos ursos, eu me afasto revirando e revirando-me no caminho, voltando nos próprios passos, a lógica do arrepender. Eu me arrependo? Gelo, enregelo com o Velho. Congelo as mãos que transparecem com o Novo. Até que descubro: os Pedros são fantasmas.

Fantasmas que passeiam confusos nas ruas confusas do Méier (eu indo para o Cap pela mesma confusão, na mesma confusão de passos que desejam voltar. Será esse o caminho?); fantasmas que andam pela escuridão iluminada por catedrais de sentimentos contraditórios (mal-me-quer-bem-me-quer-não-me-quer-quero); fantasmas sem sombras.

Cortázar, sem o saber, tinha razão.

A ficção constrói fantasmas que nos desestabilizam e deslocam, desordenam, à medida que suspendem as certezas que nos mantém de pé. Certezas que, em seu livro questionadas, professor, parecem deixar clara sua posição filosófica, se assim posso chamar. Mas há outras também, como a certeza na esperança, no futuro, na vida que queríamos (queremos) eterna, em nós. Ao termos questionadas essas certezas, diminuímos a ponto de visualizarmos o que... de fato somos? Brinquedos que se quebram ao menor golpe do tempo. Gente de brinquedo.

Os fantasmas que nos desestabilizam e desordenam, contraditoriamente, também  dão a medida de nós mesmos, nos reordenando. Sua ficção faz isso. Precisamos da ilusão para sabermos nossa real estatura, professor? Precisamos da ilusão para forjarmos nossas próprias sombras, para termos alma. Por isso acreditamos.

Se só acreditam em fantasmas os próprios fantasmas, como disse Cortázar afetando milhares de leitores no mundo, inclusive ele, inclusive você, Gustavo Bernardo, então é isso que somos, professor, no fundo - e no raso - é isso que somos. Afinal, somos todos fantasmas.

Beijão e desculpe o e-mail enorme: crente fala demais.

Giselle.