DUBITO ERGO SUM

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CONTRADIÇÕES DO REALISMO SUPOSTAMENTE MÁGICO

Gustavo Bernardo

 

 

Publicado originalmente no Jornal do Brasil de 17/11/2007

 

“Realismo mágico” ou “realismo fantástico” são expressões atribuídas à literatura latino-americana do século XX, indicando a fusão da realidade narrativa com elementos fabulosos. Este tipo de literatura coloca um desafio para as noções correntes de “realidade” e “verdade”, mas tal desafio tende a ser escamoteado pelos próprios rótulos.

A tendência de fundir o real e o fantástico existe nas obras de romancistas de todos os tempos, como Rabelais, Cervantes, Sterne ou Nabokov. Entretanto, o rótulo do realismo mágico “pegou” melhor na literatura hispano-americana dos anos sessenta e setenta, porque ela explorou as discrepâncias entre a tecnologia e a superstição no momento em que o auge das ditaduras políticas converteu a palavra em ferramenta de resistência.

Os principais autores do gênero seriam Alejo Carpentier, Miguel Angel Astúrias, Carlos Fuentes, Julio Cortázar, Mario Vargas Llosa e, sobretudo, o Gabriel Garcia Márquez de Cem anos de solidão (1967) e Crônica de uma morte anunciada (1981). O segredo do realismo mágico residiria na descoberta de uma prática ficcional que recorre aos grandes temas sociais para envolvê-los numa auréola de sonhos e rituais lendários que dão origem a uma nova mitologia.

O problema reside não nos romances mas nos rótulos com que foram designados. O conceito de “realismo” gera um círculo vicioso: a literatura já fala sobre a realidade, logo, ela é realista – mas quando não se fala sobre a realidade? As determinações associadas de “mágico” e “fantástico” apenas ampliam o problema, gerando expressões contraditórias nos próprios termos.

Comecemos pela fala cotidiana. Quando digo para Fulana que ela é realista, quero fazer um elogio mas sem querer faço uma crítica. Ser realista implica ver a realidade como ela é, ou seja, cruel, e as outras pessoas como elas são, ou seja, desonestas – porque realista é quem vê o mundo com as lentes do pessimismo e do ressentimento.

Passemos agora ao território da ficção. Quando digo que um determinado texto literário é realista, quero fazer um elogio mas sem querer desqualifico o texto a que me refiro. Quando digo que tal texto é bom porque “tem tudo a ver com a realidade”, na verdade digo que o texto é ruim enquanto ficção: se ele tem “tudo a ver” com a realidade, então é um documentário e não um romance; se não há invenção, não há ficção.

Dizer que determinado texto é realista porque fala da realidade é na melhor das hipóteses uma tautologia: todo texto ficcional partilha com qualquer texto não-ficcional o desejo de falar da realidade de autor e leitores. Logo, dizer que tal texto é realista implica no mínimo não dizer nada. A pior das hipóteses ocorre quando se defende que determinado texto é realista porque “realmente” fala da realidade, enquanto outros textos ou estilos não o fariam. O problema é que realidade e verdade não se deixam reduzir a nenhum discurso.

No decorrer do estilo conhecido como realista outros problemas se somaram, quer pela falsa oposição ao romantismo (ambos os estilos são burgueses, logo, são o mesmo estilo), quer porque os melhores autores do período recusaram a atribuição. A frase de Machado de Assis, a esse respeito, é emblemática: “a realidade é boa, o realismo é que não presta para nada”. O problema persiste no contexto posterior dos diferentes neo-realismos e pós-realismos.

Sem resolvê-lo, o novo conceito do “realismo mágico” acresce uma contradição que, com boa vontade, poderia ser compreendida como uma ironia da teoria. No entanto, a divulgação do conceito pela academia e pela mídia perde de vista essa ironia, congelando as noções de realismo e de ficção. Na melhor das hipóteses, permanece aquela contradição insolúvel: se é realismo, não é ficção; se é mágico, não é realismo. Na pior das hipóteses, os divulgadores do conceito escondem, sob a atribuição de “mágico”, outra atribuição: a de “político”. O neo-realismo hispano-americano seria mágico porque escolheu a fantasia para criticar o absurdo das ditaduras que assolaram o continente.

No entanto, os romances desses autores, os de Garcia Márquez em particular, não são meros panfletos enfeitados com metáforas fabulosas; eles pertencem à melhor ficção e, como tal, recriam a realidade e multiplicam perspectivas – valem enquanto não se reduzem a nenhum rótulo reducionista e a nenhum tipo de realismo.