DUBITO ERGO SUM

 Páginas do Editor

 

ROMANCES APIMENTADOS

Gustavo Bernardo

 

 

publicado originalmente no suplemento Mais!
 
da Folha de São Paulo em 28/10/2007

 

 

Acabam de ser publicados dois livros sobre a história do romance: de Marthe Robert, Romance das origens, origens do romance (tradução de André Telles; São Paulo: Cosac Naify) e, de Sandra Guardini Vasconcelos, A formação do romance inglês (São Paulo: Hucitec/Fapesp). Os livros são tão densos e interessantes que, juntos, compõem um “romance do romance” e obrigam a uma resenha dupla.

Comecemos pelo trabalho de Marthe Robert. Publicado originalmente em 1972, relaciona a origem do gênero romance à noção psicanalítica de “romance familiar”. A ensaísta francesa compara o romance com aquela forma de ficção elementar que a criança cria para explicar porque não é quem deveria ser: primeiro ela diviniza os pais (e se torna o próprio Filho-Deus); depois, decepcionada, considera que eles não são os seus pais verdadeiros mas estranhos encarregados de tomar conta dela enquanto o Rei e a Rainha, seus pais desconhecidos, salvam o Reino distante de um perigo terrível.

Com essa ficção, a criança acusa os pais mas ao mesmo tempo os protege: “os pais são culpados de parecer o que não são, embora não estejam de fato em questão, já que o que decepciona neles é transferido para pessoas estranhas”. A Criança Perdida se torna então o Bastardo ocupado em recuperar o que perdeu, numa luta que Kafka sintetizou no lema: “em teu combate contra o mundo, apóia o mundo”.

Ora, esse romance familiar nutre o romance de papel, obrigando-o a ser ao mesmo tempo “sonho e substituto da realidade, fuga do mundo e retorno ao mundo, mito e ciência, tempo perdido e tempo redescoberto”. Marthe encontra as intenções profundas do romance familiar no conto de fadas, que vê a criança sempre como a vítima – da miséria, da bruxa ou da fera. Do conto de fadas, a autora chega aos dois grandes arquétipos do romance: Dom Quixote e Robinson Crusoe.

Robinson sai da casa do pai, contra a vontade dele, para correr mundo. Como punição, naufraga e passa a viver sozinho numa ilha. Mas o castigo o liberta, obrigando-o a construir o mundo e a si mesmo desde o começo. Quando finalmente deixa a ilha, casa com uma mulher sem nome e passa a viajar traficando todo tipo de mercadoria, inclusive escravos e ópio. Essa história simples gerou tantas versões e pastiches que se chegou a compilar uma “biblioteca robinsoniana”.

Já Dom Quixote duplica a condição de autor porque resolve reescrever na estrada os livros que leu, de fato o fazendo no papel em que o lemos. O Cavaleiro da Triste Figura é na verdade o Narrador da Mais Triste Lembrança – aquela em que o fidalgo percebe-se órfão aos 50 anos de idade. Dom Quixote “realiza ponto a ponto o programa megalomaníaco da criança perdida, mas o faz como nenhum outro herói da literatura universal o ousou, sem conceder o menor direito ao senso comum”. Como o Náufrago, o Cavaleiro reconstrói-se e ao mundo na Espanha da Inquisição.

O romance contemporâneo, fundado por Quixote e por Crusoe, é “arrebatado por essa dialética do sim ao mundo e do não à realidade”. Dizer “sim” ao mundo implica aceitar o que acontece, enquanto dizer “não” à realidade implica não aceitar que se possa dizer a verdade toda, como pretendem os realismos vigentes.

Exatamente de realismo trata o livro de Sandra Guardini. Ao apresentar um conjunto de prefácios e resenhas em que os escritores ingleses do século 18 discutiam o romance, Sandra contempla o leitor com uma obra fundamental de referência e, ao mesmo tempo, com um estudo pessoal competente e instigante.

Os textos da época mostram como o romance burguês nascia com medo de ser acusado de “romanesco”, de fictício no “mau sentido”, a saber, de irreal e de imoral. Por isso, os próprios romancistas falavam mal dos romances e se esmeravam em “achar” suas histórias nos célebres baús de cartas antigas.

Essa ficção que finge que não o é vai definir os realismos que lhe seguem (inclusive o romantismo, na verdade um sub-realismo), estabelecendo um contrato de ilusão com o leitor: todos precisamos desesperadamente de ficção, mas vamos fingir que falamos apenas sobre coisas e pessoas verdadeiras. “Diante da implicância mais recente com o realismo” (p. 21), Sandra alerta que toma o conceito de realismo como o definem Hegel e Lukács, por exemplo.

Confesso fazer parte desses que implicam com o realismo, por entender que o termo sempre supõe que se possa dizer a verdade toda sobre a realidade. Ora, essa premissa não pode estar na base de nenhuma ficção, sob pena de incorrer em petição de princípio. Os escritores que a defendem ou se protegem da censura burguesa, ou fazem ironia com as contradições do leitor, ou simplesmente estão errados.

O livro de Sandra, no entanto, explora muito bem seu argumento, acrescendo-lhe uma frase fluente e envolvente. Se não gosto do termo que ela usa, gostei muito da forma como o usou, o desenvolveu e o sustentou.