Páginas de Ficção
O Sono
Bruno Roza
Deitado, talvez aguardando o toque sutil de Morfeu, ou seria Orfeu? Deus do sonho ou do sono? E se era Deus mesmo, era Grego, ou Romano? Nada daquilo importava, não valia a pena discutir semântica nessa altura da madrugada.
Deitado e apenas deitado, precipitando ao mergulho no Inconsciente Mar. Cortejando o teto estático, vigiando a hora invisível, o minuto enlouquecedor, o próximo segundo de desespero, o instante em que estaria no não-estar. Morto parcialmente, talvez.
Deitado, está bem – confesso – às vezes sentado também. ‘Ele’ vinha devagar, sorrateiro, quase imperceptível. Ludibriando a mente, já fraca de tanto esperar, subtraindo a consciência, afanando a vida, aliviando a dor.
Sob o cobertor embalsamado – mumificado Faraó – subindo ao céu, carruagem de ouro e prata – penetrando fundo.
O Ser, Outro, ainda é / há uma esperança a cada ritual, renovado dia após dia. E com o fim de cada mergulho, buscando oxigênio como se buscasse a própria existência, emergindo de si mesmo. Alvorada.