Páginas de Ficção
VIAGEM AO CENTRO DO OLHO NU
Bruno Roza
Durante um longo tempo fiquei parado diante do espelho tentando encontrar o ‘Eu’, esse ser íntimo e indivisível – que só pertence a mim, e, supostamente, a mais ninguém. Ali perdido – “Parado enigma, e, sem querer, inutilmente recomponho visões do que não pude ser” – me contemplando, e se antes não havia notado nada de especial em ‘Mim’, agora se tornava patente à tristeza em vislumbrar aquele ser, que agora através de todo meu esforço ocular tornou-se estranho e distante.
Uma pergunta nesse momento faz-se necessária – quem nunca, ou sempre, ficou observando o seu próprio olhar diante do espelho? Se a resposta for sim e se o resultado não foi muito frutífero, talvez uma ajuda caia bem, e nesse sentido procurei três autores, que me pareciam captar bem à discussão que se acirrará neste pequeno texto. Cada um em sua área para me auxiliar nesta odisséia para fora e para dentro, uma viagem distante, aonde o início e o fim se confundem.
Meus olhos fitam as palavras de Sartre e seu Existencialismo, Lacan e seu Espelho Revelador e por último Hegel e sua Fenomenologia do Espírito.
Reclamo o ‘Eu’, urgente, enquanto fenômeno puro e de simples manifestação: que come, anda, morre, defeca, dentre outros. Esse ‘Eu’ se desenvolve ao nível mais sofisticado: consciência imediata, e contrariando um pouco Lacan, não se trata de um objeto abstrato, mas sim um objeto concreto no sentido último da palavra, e nesse caso, arbitrariamente colocado por mim: Biológico.
Você olha o outro ‘Eu’ e ao nível simples de consciência, e apenas enxerga os olhos (objeto), o que Sartre chamará de olhar olhado, aquele que nós damos, ou melhor, emprestamos muito rapidamente aos mendigos miseráveis, jogados na sarjeta. O contrário disso seria o olhar olhante, um nível sofisticado da consciência, aquele que percebemos não apenas o objeto, mas nós mesmos – lê-se: somos capturados pelo olhar do ‘Outro/não-Eu’ porque, em realidade, olhamos nós mesmos, enxergamos nossa própria miséria – essência. O ‘Outro/não-Eu’ e o ‘Eu’, se anulam simultaneamente, e juntos tornam-se um só, indefinidos. Os olhos se tocam.
E nesse combate de consciências, fica uma dúvida no ar. Quem é o sujeito (observador)? E quem é o objeto (observado)? – senhor e escravo. A brincadeira é mais complexa do parece. E para me auxiliar lembro da alegoria de Hegel. Este demonstra o seguinte: o senhor encontra-se em uma condição negativa, pois a sua liberdade só é possível com a existência do escravo – o senhor não vai ganhar a liberdade com a morte do escravo, e sim perdê-la. E o escravo, por sua vez, encontra-se em uma condição afirmativa, por se detentor do conhecimento prático do trabalho, e por isso sua liberdade só é possível com a ausência do senhor – com a morte do senhor este ganha a liberdade.
Contudo isso só será possível, com uma dinâmica simples, e, ao mesmo tempo, complexa. Nesse ponto do texto devo revelar que algo tão especial assim, se dá através do olhar. O escravo deixa de ser escravo quando percebe o medo no olhar do senhor, que precisa a todo custo conservar o seu domínio sobre objeto. E nesse jogo de projeções vence quem consegue viajar ao centro do olho nu, essa pequena janela que não esconde o desejo.