Páginas a respeito do editor
De: Mário Amora
Para: Gustavo Bernardo
Em: 06/10/2007
Em primeiro lugar, sinto muito pela perda recente de seu pai. Percebo muitas referências carinhosas a ele no livro, a começar pela epígrafe. Seu livro é sensacional! Vai dar o que falar... Há nele um "autor dentro do autor", como no Dom Quixote, e uma "história dentro da história", como em Hamlet, mas você estende a subversão muito além. Não quero acrescentar mais nada para não tirar o prazer da descoberta por eventuais leitores destes comentários.
Como sempre, vejo referências a Shakespeare onde muitas vezes elas não existem. A começar pela sugestiva capa "Céu Vermelho", de Oswaldo Goeldi, que lembra Tróia, na advertência de Cassandra em "Tróilo e Créssida", bradando fora de si: "Cry, cry! Troy burns, or else let Helen go" (2.2).
Muito oportuna a citação inicial de Nietzsche: "O que diz a profunda meia-noite?". Creio que há uma resposta satisfatória em "Macbeth", quando ele diz a si mesmo: "Stars, hide your fires;/ Let not light see my black and deep desires" (1.4).
Sim, meu amigo, Shakespeare viu antes de todos que a noite esconde nossos fantasmas. Tanto é assim que na primeira cena de "Hamlet" tinha acabado de soar a meia-noite.
Por falar em fantasmas, o estranho "lume azul no interior da igreja" lembra uma fala de "Ricardo III", quando ele acorda de seu sonho e comenta: "The light burns blue. It is now dead midnight" (5.3).
Moro em Salvador, na Bahia, e como você sabe, aqui a festa de São João tem uma importância quase tão grande quanto a do Natal. Costuma-se viajar para o interior nesta época para rever parentes e aproveitar as festas tradicionais que ainda se preservam. Assim, suas muitas referências ao São João têm para mim um sabor especial, como carioca que conheceu o Chave de Ouro na tenra infância, e hoje como baiano adotivo. Anavan, anarriê!
Espero não me tornar enfadonho, mas a noite interminável de 17 de junho de 1962 lembra novamente "Macbeth", nesta fala de Malcolm que encerra o quarto ato: "The night is long that never finds the day" (4.3).
Seu livro aborda limites do conhecimento que não devem ser transpostos. É preciso ouvir o conselho de uma das feiticeiras de "Macbeth", ao adverti-lo: "Seek to know no more" (4.1). As conseqüências podem ser terríveis.
De resto, parabéns pela bela pesquisa sobre a "renderização de imagens tridimensionais" e os "hologramas da sétima geração" e seus instrutivos comentários sobre as "mãos de Escher". Como diz a inscrição do velho sino (cap. 36), "eu vago sempre entre enigmas".
Um grande abraço, com parabéns entusiasmados,
Mário Amora.
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