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O BRASIL É UM PAÍS SÉRIO?
Gustavo Bernardo
Publicado no Jornal do Brasil de 29/10/2007
A pergunta do título já foi feita em francês, mas recentemente me deparei com ela em alemão – poderíamos formulá-la assim: “Ist Brasilien ein ernsthaftes Land?”.
Essa pergunta ressurgiu no 7º Congresso dos Lusitanistas Alemães, realizado em Colônia de 6 a 9 de setembro deste ano. O Congresso contou com a participação de professores alemães que estudam a língua portuguesa e de pesquisadores dos países que falam a língua portuguesa. Estes ou já estudavam em universidades da Alemanha ou, como nós, foram convidados pela organização do Congresso. O Congresso, organizado pela Associação dos Lusitanistas Alemães, sob a presidência do professor Claudius Armbruster, contou com o apoio de países e entidades de língua portuguesa, em especial do Instituto Camões. O evento em si foi excelente, quer pelas conferências (por exemplo, dos alemães Markus Schäffaeur e Joachim Michael, dos brasileiros Lara Pamplona e André Valente, e da portuguesa Beatriz de Medeiros Silva) quer pelas atividades culturais com que fomos contemplados.
Mas então, quando surgiu a pergunta incômoda? Já na abertura dos trabalhos. Ainda que a abrilhantasse o coral “Vozes do Brasil”, composto por residentes brasileiros em Colônia, a abertura não contou com nenhuma autoridade brasileira, o que por sua vez traduzia a ausência de qualquer apoio brasileiro. Representantes do Instituto Camões, Ministros e Embaixadores pelo menos de Portugal, Angola e Cabo Verde estiveram presentes, tendo todos de algum modo apoiado o Congresso.
A ausência do apoio e da representação oficial brasileira foi de se lamentar, menos por conta do protocolo e mais por refletir uma política coerente de omissão cultural. O maior país de língua portuguesa parece o menos preocupado com sua inserção na cultura do mundo, como se soubesse que as pessoas se interessam pelo Brasil independentemente de qualquer ação oficial. De fato, vimos nos bares de Colônia referências ao café brasileiro, vimos nos muros anúncios do show das “brazilian girls” (assim mesmo, em inglês), e no Museu do Esporte, à beira do Reno, vimos o pé do Pelé, devidamente imortalizado em bronze.
Ora, é natural que esse seja o tipo de destaque dado ao Brasil, na Alemanha como em qualquer lugar do mundo, se o governo brasileiro preocupa-se tão pouco com a ciência, a literatura e o pensamento brasileiros, para não falar do seu ensino. Por que não há no Brasil um organismo como o Instituto Camões, que tem por missão exatamente “propor e executar a política de ensino e divulgação da língua e cultura portuguesas no estrangeiro, assegurar a presença de leitores de português nas universidades estrangeiras e gerir a rede do ensino de português no estrangeiro a nível básico e secundário”? Essa presença não implicaria apenas divulgar a variante brasileira do português, mas permitiria maior e melhor inserção da ciência, da literatura e do pensamento brasileiros.
Nesse momento, um burocrata me lembraria, triunfante, que desde 2005 existe a COLIP, isto é, a Comissão para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa, formada por vários pesquisadores notáveis e com os objetivos de pensar fórmulas inovadoras para fomentar a língua portuguesa, coordenar a unificação ortográfica dos países de língua portuguesa e criar, nos moldes do Instituto Camões, o Instituto Machado de Assis.
Alvíssaras!, exclamemos. No entanto, o fazemos de maneira reticente, quer porque se perdeu mais uma oportunidade de ouro no Congresso de Colônia, quer porque tememos a relação do futuro Instituto Machado de Assis com os governos e com o Itamarati. Um instituto desse porte precisa de dotação orçamentária permanente e condizente com sua missão, bem como de autonomia para exercê-la. Tememos que os notáveis da comissão referida, e não o são pouco, trabalhem muito mas, como diriam nossos amigos portugueses, “dêem com os burros n'água”, isto é, esbarrem no elogio da ignorância que via de regra acomete as políticas e os políticos brasileiros.