Páginas de Flusser
SOBRE A TRADUÇÃO DE VILÉM FLUSSER
Raquel Abi-Sâmara
(entrevista)
Flusser é um autor que, com muita freqüência, se auto-traduziu, de forma bem livre. Quais as referências para traduzir uma obra desta natureza, em que o próprio ato de traduzir é tomado como significativo?
Ao compararmos um texto de Flusser em idiomas diferentes, original e tradução feita pelo próprio autor, verificamos que sua liberdade é mais do que simplesmente uma liberdade de tradução: é uma liberdade de pensamento, um aprimoramento das idéias proporcionado por lógicas diferentes dos idiomas para os quais se auto-traduz. Certas reflexões funcionam em determinados idiomas e, em outros, não. Para Flusser, as línguas em que escreve não são definitivamente sua pátria, são chãos provisórios em que lança e desenvolve seus pensamentos filosóficos. A liberdade do tradutor de Flusser, por sua vez, não se compara a do auto-tradutor Flusser. Na condição de tradutora, a primeira pergunta que me faço é quanto ao "tom" do texto a ser vertido para o português. A maioria dos textos reunidos em O mundo codificado apresenta uma coloquialidade que procurei manter na versão. No entanto, achei necessário suprimir repetições que, em nosso idioma, soariam excessivas e não contribuiriam para a compreensão do texto. Focalizei a atenção na estruturação lógica, por vezes bastante matemática, de seu pensamento, na sutileza em que constrói determinadas passagens para chegar a uma conceituação. O resultado, em português, talvez soe um pouco menos coloquial que os originais em alemão e em inglês, e essa foi uma liberdade tomada na tradução.
Você é uma bem estabelecida tradutora da língua alemã. O que teria a dizer do alemão de Flusser?
Arriscaria a dizer que é mais difícil ler Vilém Flusser do que Martin Heidegger ou Immanuel Kant em alemão. A complexidade dos dois últimos autores, principalmente no pensamento crítico de Kant, é exposta com uma precisão matemática e uma limpidez semelhantes às composições a duas vozes de Johann Sebastian Bach. A "apatridade" (Bodenlosigkeit) de Flusser nos idiomas em que escreve, e, no caso, no alemão, em vez de transparência e limpidez, traz freqüentemente estranhezas e obstáculos a serem transpostos para seguirmos a fluência, acuidade e leveza de seu pensamento. Esses obstáculos, que se revelam em vocábulos deslocados, não totalmente apropriados (como por exemplo o verbo " transportar", e não "difundir" ou "divulgar", associado a informação midiática), trazem uma certa corporalidade às palavras, palavras como transporte de idéias e, ao mesmo tempo, como empecilhos que necessariamente exigem reflexão.
Flusser é um autor que trabalha a tradução e que flerta, a todo momento, com a literatura. Estas são duas áreas em que você atua. A obra desse filósofo é uma de suas referências?
Vilém Flusser, assim como todos os autores que verti para o português, passou a ser uma de minhas referências em termos de experiência tradutória. No entanto, em se tratando de teoria da tradução literária, num espectro temporal que abrange do Renascimento aos dias atuais, cultivo os seguintes autores como referenciais: Martin Luther e suas primorosas reflexões sobre a tradução do Antigo Testamento, o estruturalista checo Jíry Levy, o professor e teórico da tradução Mauri Furlan, e dois brilhantes tradutores de poesia da atualidade, Paulo Henriques Britto e Leith Morton.