Páginas Machadianas
CRÔNICA SOBRE TRILHOS
o bonde carioca na obra de Machado de Assis e Olavo Bilac
Adriana Sardinha Ribeiro
“Na roça, é tomando café que se estabelecem e estreitam as relações; na cidade, é viajando no mesmo bonde que se consegue isso.” (BILAC, 1996: p. 325). A frase é do poeta Olavo Bilac, mas poderia ser de qualquer escritor da virada do século XIX para o XX no Rio de Janeiro. Ela atesta a importância do bonde não só como meio de transporte, mas como inaugurador de novas formas de se relacionar com a cidade e seus habitantes, modificando hábitos, introduzindo novos comportamentos, rejeitando outros tantos como atrasados ou inconvenientes.
Este trabalho se propõe a passear pelo bonde carioca através da crônica-homenagem “O bonde”, publicada por Olavo Bilac na Gazeta de Notícias em 1903 em meio às comemorações pelos 35 anos da inauguração do bonde na cidade, e diversos escritos de Machado de Assis sobre o assunto, buscando os pontos de contato e distanciamento entre os dois escritores-cronistas, ambos comentadores incansáveis da vida da cidade do Rio de Janeiro.
Machado de Assis deixou, em sua vasta colaboração para a imprensa carioca, diversas crônicas que têm o bonde como ponto de partida ou cenário do caso a ser contado, quando não personagem principal do texto. “Ocorreu-me compor certas regras para uso dos que freqüentam bonds. O desenvolvimento que tem sido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático! exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros.”, diz ele na abertura da famosa, divertida e irônica “Como comportar-se no bonde” (1883), em que arrola dez princípios de boas-maneiras condizentes com as novas formas de interação social proporcionada pela convivência entre diferentes grupos no espaço do bonde, e, de uma forma mais ampla, com as regras de etiqueta importadas da Europa em todos os níveis da vida carioca.
Olavo Bilac, por sua vez, dedicou uma crônica inteira ao bonde por ocasião do aniversário de 35 anos do meio de transporte que “matou a gôndola e a diligência, limitou despoticamente a esfera de ação das caleças e dos couplets, tomou conta de toda a cidade – e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tílburi” (BILAC, 1996: p. 319). Em seu texto inspirado, o cronista celebra o progresso representado pela chegada do bonde – puxado por burros, primeiro, elétrico, depois -, e o que ele representava de avanço também no plano simbólico:
Em 35 anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbe o aranhol dos seus trilhos metálicos, e assenhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colméia. São deles as ruas, são deles as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao rom-rom da corrente elétrica, ou ao som dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador – o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade. (BILAC, 1996: p. 319).
Professor de boas maneiras
Ao inaugurar uma nova maneira de se circular pela cidade, com mais rapidez e de forma coletiva, o bonde proporcionava também formas de interação social até então impensáveis. Somente no bonde, homens e mulheres de diferentes classes sociais se encontravam tão de perto, experimentando novas formas de se locomover pelo espaço urbano:
Assim, nos teus bancos, acotovelam-se as classes, ombreiam as castas, flanqueiam-se a opulência e a penúria. (...) Aí a miséria respira com a riqueza, e ambas se expõem aos mesmos solavancos, e arreliam-se com as mesmas demoras, e sufocam-se com a mesma poeira... (...)
De encontros fortuitos em bondes, têm saído negócios, namoros, combinações políticas e financeiras, empresas, bancos, e até... revoluções. O bonde põe em contato pessoas que nunca se encontrariam talvez na vida se não existisse esse terreno neutro e ambulante, em que se misturam diariamente todas as classes da sociedade. (BILAC, 1996: p. 324 e 325).
Para Bilac, entusiasta do progresso, defensor da reforma urbana e de costumes por que vinha passando o Rio de Janeiro durante o governo do prefeito Pereira Passos (1903-1906) com o intuito de dar à então capital federal uma aparência de metrópole moderna aos moldes parisienses, o meio de transporte inaugurado no fim da década de 1860 tornava-se um excelente “professor” de boas maneiras, um perfeito incentivador do sentimento de modernidade tão desejado entre boa parte da população carioca. Diz o cronista: “Ó bonde congraçador! tu fazes mais do que nivelar os homens; tu os obriga a ser polidos, tu lhes ensinas essa tolerância e essa boa educação, que são alicerces da vida social...” (BILAC, 1996: p. 326).
De acordo com o poeta e cronista de tendência positivista, a elevação moral e social da população era conseqüência quase natural do progresso material da cidade. Daí a importância fundamental do bonde: meio de transporte moderno que proporcionava um tipo de interação que exige maneiras modernas de se relacionar. Polidez, tolerância, boa educação, requisitos da vida social na metrópole; valores que Olavo Bilac, intelectual comprometido com o papel de orientador social, não se cansava de apontar.
Polidez ou afetação?
Vinte anos antes, Machado de Assis também comentava a mudança de costumes introduzida pelo bonde, não como orientador social que pretendia ensinar ao povo rude os caminhos da boa educação e dos bons costumes, mas antes como crítico do progresso, ou pelo menos desconfiado dele. Machado não contesta a importância do bonde para a vida da cidade – ele próprio freqüentador assíduo do veículo, bem como vários de seus personagens -, mas sua inclinação cética o leva a buscar sempre o outro lado da moeda, a fazer novas perguntas quando as respostas pareciam já ter sido dadas. A suposta polidez exigida pelo convívio no bonde torna-se então risível quando analisada pela lente irônica do cronista. O progresso que impõe novas regras para a vida social vira uma alegoria apontando para o ridículo e a fragilidade das convenções humanas. Daí que uma crônica como “Como comportar-se no bonde”, citada anteriormente, pode se transformar numa verdadeira peça de humor recheada pela mais pura ironia machadiana disfarçada de “utilidade pública”, como veremos nos exemplos abaixo.
Entre os dez artigos que compõem as regras de bom comportamento sugeridas pelo escritor para os usuários dos bondes, o primeiro vai para os “encatarroados”:
Os encatarroados podem entrar nos bonds com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro. Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: - ou irem a pé, que é um bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue.
O quinto para os “amoladores”:
Toda pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.
E o oitavo para as “pessoas com morrinha”: A
As pessoas com morrinha podem participar dos bonds indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para o outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-lo mesmo da janela.
Assim, Machado mostra como o progresso, representado aqui pela popularização do bonde, vai modificando a vida social e determinando novos padrões de comportamento. São exemplos caricaturais, mas que carregam boa dose de crítica se analisados de forma mais abrangente. A “febre do bonde” é também a febre da novidade, um sentimento de ansiedade por usufruir das maravilhas do progresso que tomou conta da população a partir da segunda metade do século XIX. A cidade moderna, e o bonde por conseqüência, exige novas posturas dos cidadãos. Os indivíduos, sob o risco de verem-se excluídos da vida social e alheios à novidade, procuram adaptar-se como possível aos novos modelos. (Daí a idéia genial de Machado de Assis de compor as regras de conduta para o bonde, que muitos devem ter levado a sério na época).
O progresso anda de bond. E tem pressa
O bonde é também para Machado de Assis motivo de muitas reflexões filosóficas. Seguindo uma tradição da literatura e do jornalismo da virada do século, que tendiam a reforçar a imagem da cidade moderna como um ambiente perigoso em que as pessoas estão expostas ao acaso e a sobressaltos nervosos, o escritor comenta em inúmeras crônicas o espanto diante dos avanços tecnológicos que, freqüentemente, resultavam em acidentes, vários deles fatais. E reforça o seu ceticismo com boas doses de uma ironia singela e quase melancólica, como se pode perceber no trecho a seguir, que abre a crônica “Conseqüências do Progresso”, de 1892:
Todas as cousas têm a sua filosofia. Se os dous anciãos que o bond elétrico atirou para a eternidade esta semana, houvessem já feito por si mesmos o que lhes fez o bond, não teriam entestado com o progresso que os eliminou. (...) Quando um grande poeta deste século perdeu a filha, confessou, em versos doloridos, que a criação era uma roda que não podia andar sem esmagar alguém. Por que negaremos a mesma fatalidade aos nossos pobres veículos?
A crônica segue falando, entre outras questões, do suposto pagamento de indenização às famílias das vítimas de acidentes com os bondes no Brasil e em outros países, e de outros assuntos de interesse geral que estavam na pauta do dia. Mas o que emerge da leitura de forma contundente é o questionamento filosófico acerca das conseqüências do progresso, que para se instalar, precisa sempre eliminar algo já existente - vidas, modelos, tradições. Embora Machado não se decida a favor ou contra o bonde elétrico (“Em todo caso, não vamos concluir contra a eletricidade. Logicamente, teríamos de condenar todas as máquinas e, visto que há naufrágios, queimar todos os navios”), diz ele à uma certa altura, sua cautela em relação às maravilhas da modernidade é clara, na crônica e na vida:
Um precioso amigo meu, hoje morto, costumava dizer que não passava pela frente de um bond, sem calcular a hipótese de cair entre os trilhos e o tempo de levantar-se e chegar ao outro lado. Era um bom conselho, como o Doutor Sovina era uma boa farsa, antes das farsas do Pena. Eu, o Pena dos cautelosos, levo o cálculo adiante: calculo ainda o tempo de escovar-me no alfaiate próximo. Próximo pode ser longe, mas muito mais longe é a eternidade.
Na crônica, o escritor não deixa de criticar também, com o mesmo recurso sutil da ironia, os motivos por trás dos acidentes freqüentes, e que estão na base da organização social moderna: o capitalismo que exige sempre mais, por menos, no menor tempo. Patrões e empregados precisavam dar conta dos prazos nos negócios e nas linhas de produção para garantir o lucro. E o bonde era talvez o elemento mais importante na concretização dessa aceleração da vida na metrópole regida pela “pontual integração de todas as atividades e relações mútuas em um calendário estável e impessoal” (SIMMEL: 1979, p. 15):
Os jornais de quinta-feira disseram que o carro ia apressado, e um deles explicou a pressa, dizendo que tinha de chegar ao ponto à hora certa, com prazo curto. Bem, poder-se ia combinar as cousas espaçando os prazos e aparelhando carros novos, elétricos ou muares, para acudir à necessidade pública. Digamos mais cem, mais duzentos caros. Nem só de pão vive o acionista, mas também da alegria da integridade dos seus semelhantes.
Anteriormente, em 1877, quando comentava a instalação do sistema de bondes elétricos no bairro de Santa Teresa, Machado de Assis já apontava para a questão da pressa na vida urbana e suas conseqüências:
Quando um bond sobe, outro desce; não há tempo em caminho para uma pitada de rapé; quando muito, podem dois sujeitos fazerem uma barretada. O pior é se um dia, naquele subir e descer, descer e subir, subirem uns para o céu e outros descerem ao purgatório, ou quando menos ao necrotério.
Mas dessa vez, a crônica desliza, com o bonde de Santa Teresa, para uma outra discussão também muito presente na obra do bruxo do Cosme Velho: a substituição do velho pelo novo. E o faz através da mente do burro:
Escusado é dizer que as diligências viram esta inauguração com um olhar extremamente melancólico. Alguns burros, afeitos à subida e descida do outeiro, estavam ontem lastimando este novo passo do progresso. (...) E esse interessante quadrúpede olhava para o bond com um olhar cheio de saudade e humilhação. Talvez rememorava a queda lenta do burro, expelido de toda a parte pela vapor, como o vapor o há de ser expelido pela balão, e o balão pela eletricidade, a eletricidade por uma força nova, que levará de vez este grande trem do mundo até a estação terminal.
O texto, que no fim assume um tom falsamente otimista, brincalhão até (“Mas inauguraram-se os bonds. Agora é que Santa Teresa vai ficar à moda”), dialoga com outra crônica, esta mais contundente, também sobre a questão da substituição do sistema de muares pelo elétrico. Em “Crônica dos burros” (1892), Machado de Assis narra o “diálogo” entre dois burros filósofos sobre as vantagens e desvantagens de se verem livres do trabalho com a chegada da tração elétrica. O que poderia significar liberdade e uma “aposentadoria” tranqüila para o burro otimista, não passa de ilusão e é sinônimo de uma velhice decadente para o outro.
Ao dar voz aos bichos e aproximar o universo humano do animal, transferindo para este questões filosóficas profundas, Machado de Assis novamente se aproxima do ceticismo. A relação homem x animal é um tema comum na literatura cética, e o escritor brasileiro sabe fazer muito bom uso dele, conseguindo fazer a reflexão a que se propõe com um efeito de graça e divertimento. A crônica, riquíssima, possibilita diversas leituras – a exploração do mais fraco pelo mais forte, a crueldade humana, a injustiça do sistema socioeconômico dominante, a discussão filosófica de valores como esperança e pessimismo, e outras -, mas o questionamento acerca das invenções do progresso e as mudanças que ele acarreta na organização social, tema que também permeia boa parte da obra de Machado de Assis e nos interessa mais diretamente aqui, aparece em “Crônica dos burros” mimetizada na questão do futuro incerto dos quadrúpedes prestes a ficarem “desempregados” e se tornarem seres obsoletos na nova ordem social.
A apoteose dos sentidos
De forma menos melancólica e cética, Olavo Bilac também questiona com freqüência as mudanças acarretadas pelo avanço tecnológico. Na crônica sobre o bonde, o escritor define bem o comportamento do homem urbano diante dessas transformações aceleradas: inicialmente espantado, ele rapidamente se acostuma às mudanças e passa a exigir novos avanços, mais novidades, sempre motivado pelo ambiente urbano – urgente, hiperestimulante -, num movimento circular que tem início no que Walter Benjamin e outros teóricos da modernidade chamaram de “experiência do choque”. Diz o cronista:
Vejam só o que é o hábito! Naqueles primeiros dias de existência dos bondes, tudo parecia bom: era um espanto ver que as rodas giravam debaixo das caixas, e que os carros não ocupavam mais espaço do que as gôndolas, e que uma só parelha de bestas bastava para puxar a pesada máquina, e que o passageiro quase não sentia o movimento! (...) Se naquele tempo tudo parecia bom, hoje tudo parece mau: o movimento é moroso, os solavancos são terríveis, a luz é escassa, os condutores só merecem censura, os horários nunca são cumpridos, e tudo anda à matroca...
Tudo isso é natural: depois da luz do azeite, já a luz do querosene não nos satisfaz, como não nos satisfaz a luz do gás; e a mesma luz da eletricidade já nos está parecendo insuficiente... (BILAC, 1996: p. 322)
Bilac levanta questões parecidas com as colocadas por Machado de Assis no exemplo anterior, porém sua lente é a do intelectual convicto das benesses do progresso. Embora fale com ironia da ansiedade moderna pelo novo, ele não deixa de compor o coro dos desenvolvimentistas como um intelectual compromissado com o discurso modernizador. No lugar do ceticismo, entra a certeza de um futuro glorioso regido pelo triunfo da técnica e da racionalidade:
Mas que te importa que digamos mal de ti, condescendente e impassível bonde? Tu não dás ouvido às nossas recriminações, e vais alargando o teu domínio, dilatando o teu aranhol, suprimindo as distâncias (...) e reinando como senhor absoluto e indispensável sobre a nossa vida. (BILAC, 1996: p. 323)
A celebração da técnica, aliás, se faz sentir na crônica “O bonde” também pela maneira efusiva com que o cronista descreve a “apoteose do bonde” em sua festa de aniversário:
No largo do Machado, vi ontem um bonde, encostado ao jardim, fulgurante e garrido, emergindo de entre tufos de folhagens, constelado de lâmpadas elétricas, apendoado de flâmulas, e ressoante de músicas festivas. Confesso que gostei imensamente dessa apoteose do bonde. (BILAC, 1996: p. 320)
Contagiado pela euforia dominante daqueles anos inaugurais do século XX, Bilac escolheu bem o termo que usaria para relatar a cena do bonde homenageado em seu aniversário. A “apoteose do bonde” é também a apoteose da eletricidade, do progresso, da cidade que substituía seus “feios telhados do século atrasado”, para usar um termo do autor, por novas e apoteóticas construções. A luz é a metáfora perfeita para simbolizar aquele momento de celebração, por isso o bonde aparece “fulgurante”, “garrido”, “constelado de muitas lâmpadas elétricas”, quase a cegar o leitor com seu brilho, que é também o brilho ofuscante e sedutor da vida moderna.
Pensando a cidade em movimento
Mas entre o ceticismo de Machado de Assis e a assertividade de Olavo Bilac, há um aspecto não menos importante na crônica dos dois escritores em que ambos concordam: o bonde é amigo daqueles que buscam conhecer a cidade e seus segredos, se inspirar nela, e refletir:
É meu costume, quando não tenho que fazer em casa, ir por esse mundo de Cris to, se assim se pode chamar a cidade de São Sebastião, matar o tempo. (...) Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro bond, que pode trazer-me à casa ou à Rua do Ouvidor, que é onde todos moramos. Se o bond é dos que têm de ir por vias estreitas e atravancadas, torna-se verdadeiro obséquio do céu.
Apesar de seus inconvenientes, o passeio demorado - dificultado pelos impedimentos do caminho -, proporciona a Machado de Assis a oportunidade ideal para pensar, ou ruminar, como diz o autor. O tom irônico carrega uma provocação aos excessos da vida moderna e aponta para uma postura simpática ao ceticismo, a do homem que prefere ouvir a falar, cada vez mais raro na sociedade carioca: “Ninguém sabe o que sou quando rumino. (...) Ruminando, a idéia fica íntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também.” E depois completa: “Oh! se todos ficássemos calados! Que imensidade de belas e grandes idéias! Que saraus excelentes! Que sessões de Câmara! Que magníficas viagens de bond!” Mas a sua crítica não invalida o gosto que tem de enfiar-se no bonde e sair por aí a explorar a cidade.
Bilac também agradece ao bonde – novamente de forma mais efusiva - por esses momentos de reflexão e silenciosa comunhão com a cidade em seus bancos:
E, já agora, deixa-me dizer-te tudo. Tu és o grande amigo dos poetas! Eu, por mim, devo-te, grande parte dos meus versos, dos meus pensamentos, das minhas páginas de tristeza ou de bom-humor... O teu suave deslizar embala a imaginação! o teu repouso sugere idéias; a tua passagem por várias ruas, por vários aspectos da cidade e da Vida (...) vai dando à alma do sonhador impressões sempre novas, sempre móveis, como as vistas de um cinematógrafo gigantesco.
(...)
Agora mesmo, quase ao terminar essa “Crônica”, toda consagrada à tua glória, estou antegozando a satisfação que me vais dar daqui a pouco... Por esta linda manhã, tão cheia de sol, vais levar-me por aí afora, embebido na contemplação das cousas e das gentes, adormecendo com o teu brando movimento a recordação dos aborrecimentos que me oprimem, e oferecendo-me, em cada esquina dobrada, um espetáculo novo e um novo germe de sonhos consoladores. (BILAC, 1996: p. 326 e 327)
Logo adiante, fechando a crônica, o escritor assume um tom mais crítico, apontando os principais problemas do bonde em seus 35 anos de vida na cidade com bom-humor e uma leve ironia endereçada aos pragmáticos em excesso - o cronista entusiasmado com o progresso ainda é um poeta afinal! -, ao típico homem urbano, ocupado e apressado, nascido, assim como o bonde, da modernidade: “(...) Nem todos gostam de sonhar como eu: há quem goste de agir – e, para esses, tu ainda és quase tão moroso como a velha gôndola que destronaste...” (BILAC, 1996: p. 328).
Cada qual à sua maneira, Machado de Assis - o funcionário público exemplar e escritor consagrado tanto pela sua obra quanto por sua retidão de costumes - e Olavo Bilac - o poeta de imensa aceitação popular e intelectual que personificava os ideais de uma sociedade em busca de sua identidade moderna - foram homens essencialmente urbanos que souberam ler a cidade em suas contradições.
Referências bibliográficas:
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. “Progresso”. In: www.ivt-rj.net/museus_patri/antariores/bonde/cronicas.htm. Acessado em: 23/07/2007.
-----. “Conseqüências do Progresso”. In: www.ivt-rj.net/museus_patri/antariores/bonde/cronicas.htm. Acessado em: 23/07/2007.
-----. “Como comportar-se no bond”. In: www.ivt-rj.net/museus_patri/antariores/bonde/cronicas.htm. Acessado em: 23/07/2007.
-----. “Meditações no bonde”. In: www.ivt-rj.net/museus_patri/antariores/bonde/cronicas.htm. Acessado em: 23/07/2007.
-----. “Crônica dos burros”. In: http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/. Acessado em 23/07/2007.
BILAC, Olavo. Vossa insolência. Crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
SIMMEL, Georg. “A metrópole e a vida mental”. In: VELHO, Otávio Guilherme (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.