Páginas Machadianas
UMA POMBA PERDIDA NO LABIRINTO DA RUA DO OUVIDOR
uma leitura do conto "Capítulo dos chapéus", de Machado de Assis
Cláudia Dias Sampaio
O conto "Capítulo dos chapéus", de Machado de Assis, publicado em 1884, e ambientado numa "singular" manhã de abril de 1879, apresenta a história de Mariana, jovem esposa do advogado Conrado Seabra. Casados há cerca de cinco anos, os dois desfrutam, com prazer, da monotonia da vida conjugal, até o dia em que Mariana, provocada pelos conselhos de seu pai, decide implicar com o chapéu usado por Conrado desde que os dois se conheceram, e que era trocado apenas nas ocasiões especiais, como as idas ao "teatro lírico, enterros e visitas de cerimônia". O simples chapéu "leve, não deselegante, um chapéu baixo" é a alegoria central deste conto, exemplo da riqueza da ficção machadiana, que permite ao leitor um manancial de possibilidades.
Na dita manhã, Mariana pede a Conrado que ele não vá mais à cidade com aquele velho chapéu. Diante da insistência e da teimosia – que não condiziam com a personalidade passiva e meiga da esposa –, Conrado irrita-se, argumentando sua negativa com palavras nada familiares ao léxico restrito de Mariana cujos "hábitos mentais seguiam a mesma uniformidade" da monótona rotina que mantinha, "capaz de restaurar até mesmo a desordem dos livros". A intelectualidade rasa de Mariana é ilustrada por Machado com sua peculiar ironia: "Mariana dispunha de mui poucas noções, e nunca lera senão os mesmos livros – A moreninha de Macedo, sete vezes; Ivanhoe e O Pirata de Walter Scott, dez vezes; o Mot de l´enigme, de Madame Craven, onze vezes." Ofendida e sentindo-se humilhada pelo marido que justifica o uso do chapéu como uma "escolha regida por um princípio metafísico", Mariana decide rebelar-se e vai à casa de Sofia, antiga amiga de colégio, "muito senhora de si, mas também dos outros". Namoradeira e acostumada a transitar pelo burburinho social, Sofia leva Mariana para um passeio pelo centro da cidade, "ver as lojas, contemplar a vista de outros chapéus bonitos e graves". A experiência, que antes parecera uma possibilidade de vingança, torna-se um suplício para Mariana que fica atordoada com a agitação da rua, e passa a sofrer com a distância de seu universo uniforme e plácido. "Ela mal podia andar por entre os grupos, menos ainda sabia onde fixasse os olhos, tal era a confusão das gentes, tal era a variedade das lojas".
Do ponto de vista da construção ficcional de Machado, o passeio se torna mais interessante ainda no momento em que Mariana reencontra o antigo namorado, Dr. Viçoso – próspero na vida política, dono de um chapéu elegante e cuja ironia do nome e das características remetem à astúcia do ficcionista: oposto à falta de viço típica da monotonia matrimonial e com um "estojo de assuntos" que o torna um exemplar perfeito da sociedade a que Machado irá destilar sua mais requintada ironia. A crítica aos hábitos exibitórios da sociedade de então é uma das características da ficção machadiana, conforme observou Luiz Costa Lima no ensaio "Sob a face de um bruxo": "A sociedade que assim Machado apresenta é fundamentalmente exibitória." (Costa Lima, 1981: 70). O que Costa Lima afirma, e que vale ressaltar, é que a repulsa ao "balé da sociedade" para Machado não é algo filosofante, como pode parecer em uma primeira leitura, trata-se, sobretudo, de uma reflexão ficcional sobre a própria sociedade. Dr. Viçoso, Sofia e o sogro de Conrado – o que levantou a polêmica contra o velho chapéu – fazem parte dessa sociedade estéril, fútil, alvo da crítica de Machado, no entanto, são personagens, resultam da construção do autor interessado em assinalar não "a futilidade de uma vida, mas o seu desperdício, socialmente motivado". (Costa Lima: 1981, 72).
O conto termina com Mariana de volta a casa, com a "alma doente dos encontrões, vertiginosa da diversidade de coisas e pessoas", mas feliz por estar novamente na monotonia de seu lar que lhe fazia tanto bem. E quando Conrado chega do trabalho trazendo na cabeça um novo chapéu, ela leva um choque violento "igual ao que lhe dera o vaso do jardim que o jardineiro havia trocado de lugar", "ou ao que lhe daria uma lauda de Voltaire entre as folhas da Moreninha ou de Ivanhoe... Era a nota desigual no meio da harmoniosa sonata da vida". Certa de que havia cometido um equívoco em desejar outro chapéu, Mariana pede ao marido que ele bote fora o novo e volte a usar o antigo.
A cidade e a agitação social que ganha relevo naquela passagem de século são importantes chaves para a leitura deste texto. Foi na primeira hora da Rua do Ouvidor, que um proliferar de diversos tipos de chapéus despertou em Mariana o sentimento de angústia inerente aos habitantes de uma grande cidade. “E Mariana acudia a vê-los, femininos, ou masculinos, sem saber onde ficar, porque os demônios dos chapéus sucediam-se como num caleidoscópio.” Ao bufar de exaustão de Mariana, Sofia retruca: “Que é, meu Deus? Ora você! Parece da roça...”.
O aspecto mítico da metrópole surge como labirinto. A questão estudada por Renato Cordeiro Gomes, em Todas as cidades, a cidade, no ensaio “Gradus ad labyrinthum”, analisa como a imagem do labirinto é recorrente na representação da cidade grande. A metáfora foi e ainda é explorada por poetas, romancistas e pensadores dedicados ao fenômeno urbano na modernidade. O célebre poema “Laberinto”, de Jorge Luis Borges, é citado como epígrafe no ensaio de Renato Cordeiro. Segundo o autor espanhol, o leitor é aconselhado a não esperar um rigor dos caminhos, pois eles se bifurcam e jamais têm um fim. O homem citadino, preso em seu labirinto, lembra a fragilidade da personagem de Machado ao se deparar com a turbulência e a sucessão de acontecimentos da cidade. Afinal, a perplexidade, o assombro, a complicação do plano e a dificuldade do percurso são a tônica da experiência de Mariana pela Rua do Ouvidor.
A trama entre os personagens e os movimentos da cidade e a emergência da modernidade são temas recorrentes em vários textos de Machado. Por exemplo, no romance Esaú e Jacó, o Conselheiro Aires não chega a ser um ‘passeador’, como o personagem de Macedo, em Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, mas sua relação com a cidade é da adoração de um personagem que ‘sente’ a cidade. Podemos observar isso, claramente, no capítulo XXXII, quando a irmã de Aires pergunta se ele não quer vir morar no Andaraí. Ele responde que viverá com os bairros, as praças e com os chafarizes... “Lá os meus pés andam por si”. No caso do conto, Sofia é a passeadora que conduz Mariana à aventura de uma tumultuada manhã no centro da Cidade.
Nos textos de Macedo: Um Passeio pela cidade do Rio de Janeiro e Memórias da Rua do Ouvidor o que se observa é o caráter explicativo e didático. Ele fala sobre a matéria das crônicas, indica as suas fontes, e chega a apontar seus possíveis defeitos. Esta fase da obra de Macedo deixa clara sua intenção de dignificar os ‘homens notáveis’, aqueles que participaram do projeto de independência e aqueles que contribuíram para o melhoramento da cidade (vice-reis). Macedo vai valorizar nossos artistas, nossos oradores, o que os românticos, de certa forma, faziam. O cerne destas duas obras está na preservação do passado, por isso ele detém-se, minucioso, na história antiga.
Já em Machado encontramos também a preocupação com a preservação do passado, mas a reflexão ficcional confere outro status ao escritor. A questão central do “Capítulo dos chapéus” está na relutância de Mariana em aceitar seu íntimo desejo de que tudo permaneça imutável. O conflito é deflagrado pela oposição inicial do marido em mudar o chapéu que há vários anos o acompanha. A briga com Mariana se dá justamente pelo apelo que ela faz a Conrado para que ele compre um novo chapéu, o que, inicialmente, ele se recusa a fazer. No entanto, não é pela própria vontade que Mariana desperta para o caso do Chapéu. O pai instiga a filha a tomar uma atitude para que o marido troque o antigo pelo novo.
Quando, de pirraça, Mariana decide passear com Sofia pelas ruas do centro, o leitor começa a conhecer melhor a personagem, construída por Machado com o esmero condizente à dedicação que Mariana mantinha pelas "arestas de suas cortinas". Voltando ao passeio das duas, podemos pensar a relação entre o autor e a cidade, próxima, à que Macedo adotou anos antes em Um Passeio pela cidade..., Macedo realizou alguns procedimentos também presentes no conto de Machado, como, por exemplo, o tom disfórico em relação ao panorama político da cidade.
Podemos observar o uso da ironia no trecho em que as duas personagens femininas estão na Câmara dos Deputados e Sofia insiste para que Mariana olhe o Ministro da Justiça. “Mariana não teve remédio senão ver o Ministro da Justiça. Este agüentava o discurso do orador, um governista, que provava a conveniência dos tribunais correcionais, e, incidentemente, compendiava a antiga legislação colonial.”
Outra característica comum entre o “Capítulo dos chapéus” e o romance Esaú e Jacó é em relação aos espaços descritos por Machado, a boa sociedade e o centro da cidade. Aires e Santos, Paulo e Pedro, tanto quanto Sofia e Mariana fazem parte desta ‘boa sociedade’. Em Esaú e Jacó, segundo descreve Samira Nahid, no ensaio "A cidade do Rio de Janeiro e a obra de Machado de Assis", a cidade é metáfora do estado interior de Flora. “[...] a luz intermitente das lojas refletindo no rosto da moça”. (Mesquita: 1986, 84).
No conto, após a discussão com o marido, o espírito de Mariana encontra-se tão agitado quanto às ruas da cidade que ela percorre, aflita, ao lado da amiga. “Mariana teimou ainda um pouco; mas teimar contra Sofia – a pomba discutindo com o gavião – era realmente insensatez. Não teve remédio, foi. A rua estava agora mais agitada, as gentes iam e vinham por ambas as calçadas, e complicavam-se nos cruzamentos das ruas”.
Encontramos, portanto, a cidade também como metáfora do estado interior da personagem. “A rua, a entrada do bonde completaram a fadiga do espírito de Mariana, que afinal respirou quando viu que ia a caminho de casa”. Após tal experiência, nada mais coerente que ela pedir ao marido que não trocasse mais o chapéu antigo pelo novo.
Segundo Costa Lima, o "tratamento alegórico facilita a entrada em cena do leitor, que, com seus valores e expectativas socialmente condicionadas, empresta ao texto uma pluralidade de significações, com base na própria estratégia de composição do texto". (Costa Lima: 1981, 76). No entanto, para o crítico a ênfase no leitor resulta não só da organização alegórica de Machado, "mas da atenção especial que ela lhe presta". Afinal, para quem se volta à riqueza da ficção machadiana, a sofisticada combinação dos elementos ficcionais, se não, para o leitor?
Referências bibliográficas
ASSIS, Machado de. "Capítulo dos chapéus". Obras completas. Vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
COSTA LIMA, Luiz. Dispersa demanda: ensaios sobre literatura e teoria. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.
GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
MACEDO, J. M. de. Memórias da rua do Ouvidor. Brasília: Ed. UNB, 1988.
________________. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Edições de ouro, 1966.
MESQUITA, Samira Nahid. "A cidade do Rio de Janeiro e a obra de Machado de Assis". In: Revista Tempo Brasileiro. Cidades, ficções. Abril/ junho. 1986. Nº 85. Rio de Janeiro.