DUBITO ERGO SUM

 Páginas de Teoria

 

 

O NEGRO EM MACHADO – UMA ABORDAGEM INSÓLITA

Carolina Vicentini

 

 

Ensinar como viver com a incerteza, mas sem ser paralisado pela hesitação, seja talvez a principal coisa que a filosofia pode fazer.”

Bertrand Russel

“A realidade deixa muito para a imaginação.”

J. Lennon

 

        

Escolher a obra ficcional de Machado de Assis como objeto de estudo é um risco, chega a ser quase um atrevimento, mas é um atrevimento impossível de resistir e, por isso, aceitamos os eventuais ônus da escolha. Quando uma obra excede os limites de seu campo de atuação, sabemos que se trata de algo notável e que incita inesgotáveis reflexões. Assim é com a obra de Machado. Ela não desperta o interesse apenas dos homens de letras. Juntam-se a esses os juristas, os filósofos, os historiadores e até mesmo os integrantes de ONGs que lutam pela igualdade racial no Brasil. Acreditamos que isso aconteça pelo fato de o texto machadiano, através de sua linguagem, não apresentar respostas prontas para os questionamentos levantados, o que acaba gerando uma reflexão ainda mais ampla sobre linguagem

         Os afro-descendentes, por exemplo, têm opiniões diversas sobre Machado. Alguns vêem, em nosso mestiço Machado, uma fonte de orgulho; outros vêem nele alguém que, ao ascender socialmente, negou suas origens. Em meio à efervescência crítica acerca da obra desse grande escritor, encontra-se essa última dicotomia de que falamos. É por esse motivo que nos sentimos instigados a investigar o que se produziu de estudos sobre a questão do negro na literatura machadiana. Percebemos, nas análises produzidas, uma recorrente demanda crítica quanto ao absenteísmo do autor em relação ao tema do negro. Como não compartilhamos da mesma opinião, consideramos necessária a articulação de alguns conceitos para uma compreensão mais ampla do tratamento que Machado dispensou a esse assunto. Esperamos, com isso, contribuir para os avanços na reflexão sobre a ficção desse autor de grande fortuna crítica.

1. Questão do “realismo, do “retratismo” e da “mimesis”

         Mencionar Machado e aproximar dessa menção palavras comorealismo”, “retratismo” e “mimesis” sinaliza para qual tipo de debate pretendemos empreender. A retomada da discussão de um assunto bastante debatido se deve à insistência com que verificamos a presença de alguns pontos nebulosos. De fato, esses pontos persistem em boa parte do material crítico de sua obra e até mesmo em manuais de história da literatura.

Reconhecendo a singularidade da obra escrita por Machado de Assis, compreendemos a dificuldade encontrada por críticos e estudiosos da literatura em sua classificação. Analisaremos, brevemente, algumas dessas classificações. Existem aqueles críticos que dividem a obra machadiana em duas fases, tendo como marco divisor o período que Machado passou em Friburgo por razões de ordem médica. Essa divisão, longe de considerar diferenças na técnica narrativa, visa a exaltar os romances escritos na segunda fase e relegar aqueles escritos na primeira. Luiz Costa Lima, emSob a face de um bruxo”, apesar de não explicitar essa oposição, fala de uma “produção da maturidade”, o que nos mostra que, em algum grau, essa oposição permeia o pensamento crítico. Costa Lima (1981) assume a classificação obras da maturidade por acreditar que elas possuem uma constelação de elementosprimários” e “secundários que lhes confere uma fundação comum: a reflexão ficcional da sociedade (p.59). Assim, Dom Casmurro e Esaú e Jacó, por exemplo, teriam o dado da “representação socialcomoelemento primário”. No entanto, lemos em Silviano Santiago um questionamento sobre essa classificação, pois, para ele, Dom Casmurro constitui uma obra que diz do “esforço de criação”, mostrando que a narrativa em primeira pessoa problematiza a questão da ascensão social presente em Ressurreição. Tal articulação entre romances da primeira e segunda fases não poderia ser feita por um crítico que veja uma oposição entre as duas.

         Há também os críticos que, independente da divisão entre fases e movidos talvez pela necessidade de esquemas que associem os escritores a essa ou aquela escola literária, incorrem em erros gravíssimos, como o rótulo de realista atribuído a Machado. Apontar Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) como o marco inicial do Realismo no Brasil (como está no manual de literatura que estudamos no ensino médio) é até risível: como pode uma obra ser realista quando o seu personagem-narrador está morto? Existiria algo menos realista que isso?

         Sem dúvida, Machado viveu numa época em que as poéticas realista e romântica se apresentavam como alternativas para os escritores. No entanto, ele não escolheu seguir quaisquer desses caminhos, pois nenhuma das propostas se adequava ao projeto literário que, sabemos, empreendeu. (COSTA LIMA:1981) O próprio Machado recusa o rótulo de realista. Um de seus mais famosos aforismos é o que diz que a realidade é boa, o que não presta é o realismo. Nãopara entender como, mesmo depois disso, continuamos a ver referências a Machado como sendo o pai do realismo.

         Para o enriquecimento dessa discussão, precisamos trazer para a nossa reflexão o valioso conceito de mimesis. Sabemos das divergências existentes em torno desse conceito e elas podem ser sumarizadas na expressãoparadoxo da mimesis”. Tais divergências acontecem porque na própria Poética de Aristóteles encontramos algumas passagens que remetem à idéia de “criação” e outras que remetem à idéia de “imitação”. Partindo, então, da compreensão de A Poética, podemos, muito brevemente, definir as duas acepções da seguinte forma: a) imitação da realidade. Sob essa perspectiva,  o mundo real é o criador de referência e b) criação a partir da realidade.

         Pelo que acabamos de expor, seja qual for a interpretação dada à mimesis, ela sempre terá uma ligação com a realidade. Chamar de realista o que tem alguma conexão com a realidade é uma tentativa vazia de rotulação, pois se fosse assim, todas as obras seriam realistas sem que isso as definisse – ou mesmo as distinguisse das outras obras, pois o realismo seria efeito e não método (CORREIA JR:1998) O texto literário, como toda obra de arte, não pode ser entendido como imitação, até porque seu instrumento – a palavranão é refém das coisas ou dos referentes de qualquer espécie. Sendo assim, o que se chama de transparência da linguagem não passa de ilusão. O Morro do Castelo, por exemplo, que encontramos em Esaú e Jacó, não tem seu valor pela relação direta com a realidade, mas pela referência e significação que cria dentro da obra. Devemos, portanto, entender a arte como criação. Essa criação vai utilizar elementos do mundo real, sim, mas não para retratá-los. Sua intenção será, antes, a de conter elementos verossímeis para que o leitor tenha uma porta de acesso ao texto (COSTA LIMA: 2000). Além disso, como adiantamos acima, a mimesis precisa de um resquício de realidade para extrapolá-la.

         Avançaremos em nosso trabalho para a análise do material crítico tendo como norte a interpretação de que a ficção se comunica com a realidade, se apropriando, inclusive, de alguns de seus elementos sem, contudo, ter o compromisso de retratá-la tal e qual.  

2.Breves diálogos

2.1 Dialogando com a história

         Impregnada com o movimento escravista europeu, a palavranegro chega a terras brasileiras como sinônimo de “escravo”. Qualquer cativo, mesmo o índio, era chamados de negro. Assim, falar da temática negra é também abordar o tema da escravidão. Apesar de não ser o enfoque desse nosso trabalho, gostaríamos de refletir um pouco sobre as condições que favoreceram a consolidação da crença na inferioridade do negro. Para isso, vamos fazer uma breve retrospectiva da forma como o negro era pensado.

         Antes mesmo de os exploradores europeus chegarem à África, havia um certo misticismo quanto a seus habitantes. A fantasia em torno do africano ia desde sua aparência físicaora descrita de forma animalesca, ora de forma diabólicaaté seu comportamento, imaginado como sendo, basicamente, instintivo. Como se , antes de um primeiro contato com o negro, antes mesmo de se saber qual era a cor de sua pele, ele era visto como um ser diferente e inferior a ser dominado. Com a expansão marítima portuguesa, o europeu chega à África e que seus habitantes não correspondem à imagem que deles se fazia. A inferioridade do negro não se sustentaria apenas pela diferença  da cor da pele. Se, como pensa Barthes (1998), os signos criam os mitos, para sustentar tal inferioridade forjada e, assim, legitimar a dominação do negro, mesmo através de um discurso tão bem armado que fizesse não o branco se sentir superior, mas o próprio negro se encarar como inferior. E é na criação desse mito que somos levados a cometer o equívoco de falar de uma desigualdade racial quando, na verdade, o que existia era uma desigualdade social. A partir do Iluminismo, teorias científicas – como as teorias darwinistas sociais – vêm ao encontro dessa necessidade de legitimar a inferioridade do negro reforçando a idéia de que era natural que ele fosse tratado como um ser inferior.

         A sociedade brasileira do século XIX incorpora essa forma de pensar porque “o racismo das teorias científicas européias do período tinha origem aristocrática, e se enquadrava perfeitamente no contexto social do Império no Brasil” (Miskolci: 2006). É no seio dessa sociedade que Machado produz sua obra e o que a distingue das tantos outros produções que datam de mesma época é o fato de Machado se colocar numa posição especial: aquela de alguém que conhece a sociedade de perto, sabe quais são os princípios que a regem por dentro, mas é capaz de observá-la de longe. Passaremos, agora, a dialogar com dois textos que tratam da presença do negro e da escravidão nas obras de Machado.

         Em seu estudo, Machado: três momentos negros (NASCIMENTO:2002), Gizêlda Melo do Nascimento faz uma bela seleção de passagens de algumas obras de Machado nas quais estão presentes personagens negras. Percebemos por essa seleção, a leitura atenta que Gizêlda empreendeu e acreditamos que foi justamente esse cuidado na leitura que a fez perceber que havia vazios nos textos sem que isso representasse um descuido do autor. Com sensibilidade, Gizêlda foi capaz de perceber que os vazios[1] representavam a habilidade do escritor para tratar do tema do negro “(...) não é nas linhas que se deve buscar esta questão [do negro]. O que está escrito não conta. Conta o que não foi dito nem visto com os olhos de fora; e o que fica fora das linhas permanece latente nos nervos do texto onde os olhos de dentro reclamam”.

2.2 Dialogando com leitoras críticas de Machado.        

         Pensamos, no entanto, que Gizêlda comete um equívoco no desenvolvimento de seu trabalho ao fazer uma correspondência direta entre esse vazio textual e o vazio da vida do negro na sociedade. Essa correspondência compromete sua compreensão, pois faz surgir uma equivalência entre o ficcionista e o retratista:

 

(...) seu compromisso era retratar a sociedade tal qual se lhe apresentava, e , o negro não constituía uma representação significativa, melhor dizendo, nem mesmo como ser social era reconhecido. Na ordem das representações, a lente do retratista não poderia alcançar o que nem sequer era cogitado.

E representar a sociedade no caso de Machado era, maioria das vezes, freqüentar salões. Daí a lacuna, a ausência do negro em sua obra. Numa sociedade escravocrata, onde senhor é senhor e escravo é escravo, os salões não abrigavam este segundo segmento. Neste espaço, o negro não transita; escapa ao campo de visão do retratista. (Gizêlda: 2002)

 

         Nesse momento, Gizêlda atribui a Machado a função de retratista, de um artista que deve pintar um quadro tal como a realidade. Ou seja, se o negro não tem espaço na sociedade brasileira do século XIX, ele também não pode estar presente na literatura produzida nessa época. Essa necessidade de transpor a realidade para o papel é ambição não da literatura, mas de outras áreas como a da história e a do jornalismo.

         Apoiando-nos no conceito de mimesis como criação a partir da realidade, rejeitamos essa argumentação de Gizêlda, pois sendo a ficção literária um ato criativo sem o compromisso de fidelidade à realidade, como poderia seu autor ter o compromisso de retratá-la?

         No excelente Imagens, Máscaras e Mitos, Mailde Trípoli (2006) faz um abrangente estudo sobre o negro na literatura oitocentista brasileira. Ela nos mostra como era difícil para os escritores da época falarem sobre a escravidão e o negro, pois a pena muitas vezes traía a intenção dos escritores[2] (pelo menos em relação aos seus posicionamentos publicamente conhecidos).  Para o nosso trabalho em particular, a primeira contribuição do estudo de Mailde é a compreensão de que Machado não trata o negro de maneira estereotipada, como faziam os outros escritores, mas, mantendo-se fiel ao seu interesse pelo ser humano acima de tudo, “não transforma o negro em herói ou ser extraordinário nem o pinta com as cores miseráveis da ideologia dominadora. Ele o apresenta como ser humano que é, sujeito em sua condição de oprimido.” (TRIPOLI: 2006)

         Mailde também nos chama a atenção para a presença do tema do negro - e do próprio negro - em alguns romances, contos, crônicas e até poesias, como “Sabina”, jogando por terra as críticas em relação ao absenteísmo de Machado em relação a esse assunto. Ela nos adverte, porém, para o fato de que não encontraremos na obra machadiana um levantar de bandeira deliberado para o fim da escravidão, pois “a tática não era o confronto, mas o desmascarar, ridicularizar”. Machado escolhia a via menos óbvia para abordar esse assunto e dar voz ao negro, muitas vezes até sem falar nada.

3. Posição filosófica de Machado

         Machado poderia ter sido uma espécie de precursor dos movimentos de afirmação negra? Certamente. E se o tivesse sido, considerando toda sua maestria e articulação, o teria sido com excelência. Aliás, assuntos para o exercício de sua maestria não faltaram. Se fizermos um breve passeio histórico pela época na qual Machado viveu e escreveu, poderemos verificar acontecimentos de várias ordens na esfera política brasileira: desde o fim da Regência até a proclamação da República; desde a extinção do tráfico negreiro à abolição da escravatura. Fora da esfera política, o Brasil seguia tentando se modernizar com a criação de bancos, abertura de estradas e mudanças no transporte urbano, por exemplo. Machado assistiu a todas essas mudanças e não evitou ou fugiu de quaisquer desses assuntos. No entanto, sua formapor vezes insólita – de abordar tais assuntos, mais a habilidade com a qual dispõe os acontecimentos, somados, ainda, às estratégias estéticas que utiliza podem levar o leitor a acreditar que tal ou qual texto deixam de abordar determinados assuntos.

         No caso da temática negra, que é a que nos interessa neste trabalho, vemos uma quantidade significativa de críticas, como as de Afrânio Coutinho e Mário de Andrade atacando o absenteísmo de Machado no tratamento dessa questão. Os motivos que tais críticos atribuem à ausência da discussão do tema do negro na obra machadiana são, em geral, sua origem humilde e ascendência negra. Dizer que Machado era ressentido por conta de sua origem e que, por isso, não deu atenção ao tema negro é um argumento fácil (quase vergonhoso), porém leviano. Alguém que, minimamente conheça o estilo machadiano, há de suspeitar que existe uma razão para essa atitude ou, ainda, para essa falta de atitude. E há: seu posicionamento filosófico. Alguns, como Mário de Andrade, chamam Machado de pessimista. Outros o chamam de niilista e aindaaqueles que o consideram reacionário. Nós negamos qualquer uma dessas características. Para nós, Machado foi, antes de tudo, um cético, pois o ceticismo, entendido como “uma filosofia de investigação permanente, uma filosofia de proteção à dúvida, uma filosofia que dribla o caráter assertivo da língua e sua tendência ao dogmatismo através do humor e da ironia” (BERNARDO: s/d) é que melhor explica seu enfrentamento às questões cotidianas. Após um esforço de memória e uma revisitação a algumas de suas obras, não conseguimos recordar / encontrar quaisquer colocações machadiana que dessem a entender que ele estivesse tomando algum partido.

         Para ilustrarmos essa capacidade que Machado tinha de eximir-se da necessidade de defender uma ou outra posição, tomaremos uma passagem de seu penúltimo romance, Esaú e Jacó. A passagem escolhida é a que Custódio vai pedir conselhos a Aires, considerada a personagem mais cética da ficção de Machado, muitas vezes comparada ao próprio Machado. Custódio estava desconsolado por ter uma tabuleta nova para sua confeitaria, mas impossível de ser exposta na porta seu estabelecimento, uma vez que na placa lia-se “Confeitaria do Império” e a República acabara de ser proclamada:

Mas o que é que há? perguntou Aires.

— A república está proclamada.

governo?

Penso que ; mas diga-me V. Exª: ouviu alguém acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém. Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu socorro. Excelentíssimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado. — "Confeitaria do Império", a tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de título, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Exª crê que, se ficar "Império", venham quebrar-me as vidraças?

Isso não sei.

Realmente, nãomotivo, é o nome da casa, nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo.

Mas pode pôr "Confeitaria da República"...

— Lembrou-me isso, em caminho, mas também me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.

— Tem razão... Sente-se.

— Estou bem.

— Sente-se e fume um charuto.

Custódio recusou o charuto, não fumava. Aceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a atenção, se não fosse o atordoamento do espírito. Continuou a implorar o socorro do vizinho. S. Exª, com a grande inteligência que Deus lhe dera, podia salvá-lo. Aires propôs-lhe um meio-termo, um título que iria com ambas as hipóteses, — "Confeitaria do Governo." (ASSIS: 1937)

         Na transcrição acima, podemos ver que o Conselheiro procura não se posicionar. Ele, primeiramente, apresenta a opção de mudar o nome do estabelecimento paraConfeitaria da República”, mas não insiste que esse seja o melhor nome. Pelo contrário, ele facilmente abre mão dessa posição ao ser confrontado por Custódio sobre a eventualidade de uma nova mudança de governo. Mais adiante, ele sugere manter o nome politicamente neutro. Há, ainda, mais duas sugestões no capitulo que narra o acontecido (LXIII), mas ele não defende o império ou a república em momento algum. Adotando uma postura cética, o Conselheiro levanta possibilidades, mas não fecha o foco em nenhuma decisão ou conclusão simplesmente por não saber qual é a melhor. A falta de resposta faz com que Custódio saia da conversa tão ou mais perdido que antes e se enfie “confeitaria dentro com todo seu desespero”.

         Acreditamos que a atitude do Conselheiro Aires de se manter bastante flexível em suas opiniões se deva a uma impossibilidade de decidir qual das duas formas de governo é a melhor. Indo além, a impossibilidade de defender uma ou outra posição revela também que, no fundo, seja império, seja república, poucoou mesmo nadamuda efetivamente.

         Essa indefinição de posicionamento caracteriza também a atitude de Machado quando o assunto é o negro. Acreditamos que Machado sabia que apenas a abolição da escravatura não resolveria o problema. A assinatura de um papel não causaria uma mudança de valores e crenças na sociedade e, por isso, a diferença social e a discriminação social e racial permaneceriam. Preconceitos, construtos psíquicos que são, não acabam por força da lei, mas por reflexão. Machado nos chama a essa reflexão para que, assim como Helena foi capaz de “lavar o espírito” e se livrar do medo, nós também sejamos capazes de nos lavarmos da pregação que ouvimos há séculos sobre a superioridade branca.

         Machado não faz do negro nem herói nem tampouco vilão. Não ratifica a visão de superioridade racial que dava suporte à escravidão nem ataca à instituição da forma propagandística convencional. Com efeito, o texto de Machado jamais poderia ser panfletário. Sua obra não é uma convocação à luta pelos direitos humanitários; é tão somente um convite à reflexão. Machado nos chama à reconfiguração de seu texto. E nós aceitamos esse convite, mas antes de voltarmos nosso olhar para alguns de seus textos, faremos uma exposição sobre qual matriz teórica nos servirá de guia para essa análise.

4. Pressupostos teóricos

         Há várias maneiras de nos aproximarmos de um texto para interpretá-lo. Podemos, por exemplo, partir da premissa de que um texto esconde uma verdade que deve ser buscada, numa abordagem estruturalista. Ou então, podemos entender que o texto tem seu significado nos seus próprios significantes e não para além deles, não sendo necessária, então, uma incursão ao fundo do texto. Mesmo sabendo que esses são apenas dois exemplos das diversas formas de aproximação com o discurso literário, nos restringiremos  a eles, pois são suficientes para o propósito  desse trabalho.

         A descrição da segunda forma de pensar a interpretação é a de pensadores como Nietzsche, Freud e Marx, Foucault e Derrida, para os quais nãorazão para buscarmos a verdade que estaria no palimpsesto porque ela não existe. E, se não existe, o ato de “escavar” o texto seria inútil, pois revelaria a superfície da profundidade (BORBA:2004). Nós nos colocamos ao lado desses nomes no modo como entendemos a interpretação. Pensamos que dificilmente encontraríamos uma significação no fundo do texto machadiano à espera de ser descoberta, pois sua obra menos que se construir pela tendência ao fechamento, provoca o leitor a pensar sobre ela. As narrativas de Machado não se decidem por uma ou outra informação que venha das personagens, como no caso das tabuletas mencionado neste trabalho.

         A rejeição à profundidade do texto implica a rejeição ao conceito da existência de uma verdade escondida, como vimos acima, e também ao conceito de origem. Ao partir ao encontro dessa verdade original, a interpretação caminharia para seu próprio fim, pois partiria do pressuposto de que os símbolos existam primariamente. (FOUCAULT: 1972) Esse pensamento de Foucault se aplica, originalmente, aos discursos em geral, e a ficção está incluída. Essa reflexão sobre o texto se estende e se articula à noção de história e sujeito. Foucault rejeita também a concepção da história das idéias como algo em constante evolução que se constitui por continuidade. Para ele, essa história se forma antes pela relação de ruptura que as idéias estabelecem entre si. Essa descontinuidade abala a concepção do sujeito como sendo inteiro e controlador dos fatos e isso pode contribuir para a leitura de texto literário. Uma síntese de suas idéias nos ajuda a sinalizar para o que queremos dizer.

         Para Foucault, com o surgimento da Psicanálise, há uma ruptura na integralidade do sujeito, ele deixa de ser suficiente em si. Como o inconsciente tem sua sintaxe própria, ou seja, sua sintaxe não é a mesma usada pelo consciente, o sujeito estará sempre fraturado, convivendo com a impossibilidade da consciência completa de si. Ou seja, o