O Lau Siqueira, além de
ser uma pessoa sincera e que a gente aprende a gostar até
mesmo à distância, também nos deixa diante de
momentos incríveis como seu mais novo livro ??? e sua migração
do Sul para o Nordeste, irritando a geopolítica tanto quanto
a geoliteratura que, normalmente, vê ocorrer o contrário.
Vamos conhecê-lo um pouco mais (já que tanta gente
o conhece).
Existe
alguma regionalidade em tua poesia? Ela passou por alguma variante
regional ao longo do tempo?
Absolutamente.
O fato de eu ter saído do Rio Grande do Sul e me instalado
no Nordeste, mais precisamente na Paraíba, deve ter contribuído
imensamente para que isso não acontecesse. Acho, no entanto,
que absorvi sim informações de diferentes regiões
do Brasil, por onde andei. Tenho poema neste livro, por exemplo,
para São Paulo. O poema para Sebastião Uchoa Leite,
me veio numa lembrança do Certo da Pólvora, que fica
em Jaguarão, onde nasci. Então é isso, acho
que fui incorporando sabedorias regionais, informações,
dialetos, para a construção de um caminho mais universal.
Fujo dos bairrismos, do tribalismo literário, das municipalidades
e, certamente, dos regionalismos que nada têm a ver com uma
poesia que está ancorada, sobretudo, na radicalidade da diversidade
estética que, por sinal, está disponível de
forma bem acentuada, principalmente do final do século XIX
até hoje. Sou absolutamente contra o "emplacamento"
da linguagem poética. Minha poesia se recusa ao pagamento
do IPVA canônico, até porque não busca caminhos
já percorridos e consagrados, mas um caminhio que seja surpreendente
até mesmo, e principalmente, para mim mesmo.
Como
se deu essa tua mudança do Sul para o Nordeste, quando a
maioria dos migrantes faz o percurso contrário?
“Malandro
que é malando vai pro Norte, enquanto os patos vão
pro Sul”, como diz Zeca Baleiro. Na verdade foi uma questão
pessoal. Há 23 anos eu casei aqui na Paraíba, onde
tenho duas filhas e uma neta. Divorciei há dez anos, mas
já tinha raízes muito fortalecidas e muitos apegos
na Paraíba, terra que me recebeu com carinho. Então
fui construindo minha vida inteira muitas referências aqui.
E, sinceramente, com todo o amor que tenho pelo meu pampa, acho
que foi uma decisão feliz. Vivo numa cidade linda, mas também
deixei um rastro de coisas boas lá no Sul. Coias que me permitem
sonhar com um possível retorno, ainda que ele nunca aconteça.
Amo minha terra, Jaguarão-RS. Amo Porto Alegre, cidade que
me atrai muito. Também amo a cidade onde vivo, por sua beleza,
por seu povo, por sua história e pelos desafios que se colcoam
diante de uma realidade em permanente mutação. Enfim...
me sinto cidadão do mundo, cada vez mais. Acho que esta migração
contrária parece ter grande influência nisso. Aliás,
também na poesia procuro não seguir os patos.
Quantos
livros você publicou e que comentários você faria
para cada um deles (se não forem muitos, é claro)?
O
Comício das Veias, em 1993, juntamente com a contista Joana
Belarmino. Eu acho este livro fundamental porque quebrou em mim
mesmo a aura de poeta marginal. Minha poesia nunca teve muito a
ver com poesia marginal, mas eu publicava folhetos e fanzines até
então. Sempre admirei a poesia marginal, mas também
sempre tive muita dificuldade de incorporar rótulos. O comício
das veias, em 1998, me trouxe a responsabilidade de expor as minhas
experiências com Poesia Concreta, Poesia Visual e outras experiências
futuristas, de uma vanguarda que soube se guardar no tempo. É,
talvez, o meu trabalho que mais radicaliza neste sentido. Sem meias
palavras, em 2002, é mais lírico. Apesar de trazer
ainda algumas experiências pouco aceitas para quem tem uma
visão mais conservadora acerca do que é e do que pode
vir a ser a poesia. Textro Sentido, em 2007, é uma fusão
disso tudo. É um livro que traduz a minha permanente inquietação
e que revela a minha disposição de continuar tendo
uma relação de busca com a linguagem, de investigação
permanente. Uma coisa bastante complicada porque algumas pessoas
acharam que eu tinha “encontrado uma fórmula”
em Sem meias palavras. Só que eu renego as fórmulas.
Se o caminho é de consagração, eu vou buscar
a consagração onde há apenas siilêncio,
então. Prefiro que minha poesia seja fruto desta minha permanente
inquietação. Por isso não sei como será
meu próximo livro. Aliás, nem sei se haverá
um próximo livro. Meu compromisso é com a poesia e
não com a publicação, apesar de uma vez publicado
a responsabilidade passa a ser de ter o livro circulando fora dos
padrões estabelecidos, fora dos processos excludentes do
mercado editorial.
Até
que ponto o poeta convive com cidadão Lau Siqueira?
O
poeta e o cidadão vivem com a mesma intensidade. Minha poesia
busca, na linguagem, uma relação muito direta com
a vida. Meus poemas são praticamente autobiográficos.
Não creio que deva haver uma separação. Minha
racionalidade é visceral demais para separar as coisas. Eu
tenho uma necessidade permanente de incorporar os movimentos da
vida nas coisas que escrevo. A poesia é a minha identidade
do mundo. Devo tudo à ela, o que eu sou e o que eu não
me permiti ser. Quando as coisas ficam turvas, é ela, a poesia,
como um pássaro dissonante, quem me revela os espantos necessários,
as saídas impossíveis mas necessárias e os
abismos que, inclusive, nos permitem seguir em frente. A poesia
é a minha utopia. Assim como a existência é
a minha utopia. Enfim, a convivência é pacífica
embora seja também uma ebulição permanente.
Coisa de quem, acima de tudo, prefere sempre seguir em frente.
Há
bração! Lau
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