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"Pra tocar viola, só os anos. Num tem método, nem escola, nem professor. Nunca fui
um bom violeiro, sempre segurei na voz mas só o tempo faz um violeiro (...) Àqueles que
pretendem começar, se tiver talento, cantar bem e tiver muita vontade, comecem... Mas só se
for por paixão. Quem quiser começar prá fazer sucesso ou ganhar dinheiro vai dar furo n'água.
Além disso a coisa mais importante que tem que saber é escolher um bom repertório. Isso vale
prá qualquer um que queira começar bem (...) Sou apaixonado pelo que faço. Nunca, nem uma vez
pensei em desistir. Arranco minhas músicas do coração, do fundo do peito. Faço o que gosto.
Num posso deixar disso. É minha vida. Gosto de compor. Ninguém aprecia mais do que eu as
minhas músicas. O grande fã de Carreirinho é Carreirinho. Quando sento prá ouvir Carreirinho
não atendo ninguém, nem telefone, nem nada..."
Palavras de Adalto Ezequiel, o Carreirinho, nascido na cidade de Bofete-SP (foto à esquerda) no
dia 15/10/1921. Filho do Sr. João Batista e da Dona Domitilde Maria Pereira. João Batista
plantava café, e tinha criação. Foram três filhos, um menino e duas meninas. "Seu" João
Batista era vizinho de "Sô" João Tropeiro, excelente violeiro de quem Adalto ficava
apreciando o pontear da viola.
Sendo neto de Alemães, seu nome seria Adauto Humziker; o escrivão, no entanto, "achou Humziker
complicado demais" e acabou registrando o menino como Adauto Ezequiel. E, dos Alemães,
Carreirinho só herdou os olhos azuis. De resto, é Bem Brasileiro!
Nunca "pegou duro" nas lidas da roça. Tendo sido o caçula, era "poupado". Mexia com o
gado leiteiro, com amansação das potrancas e quando sobrava um tempinho, lá estava o Adauto
com a Viola no colo, presente que lhe foi dado por seu pai, apesar de muita resistência
inicial, já que Seu João achava que "Viola era coisa de vagabundo...".
Com 15 anos, mudou-se para Pardinho-SP onde foi pedreiro e "ajudou a construir a Igreja
Matriz do lugar", como Carreinho se orgulha até hoje! Na foto à direita, a cidade de
Pardinho-SP com vista da Igreja Matriz.
Já na escola, fazia seus versos e tocava a Viola. Em 1936, no último ano do Curso Primário,
tocou pela primeira vez em público, apresentando a Moda de Viola (de sua autoria) "Minha Vida"
em sua festa de formatura, pelo que foi bastante aplaudido.
Começou a se apresentar em festinhas e circos de Sorocaba-SP, cantando músicas de
Raul Torres.
E foi num circo em 1945 que formou a primeira dupla, Adalto e Ferraz, a qual durou um ano.
Em 1946, seguiu para a Capital Paulista onde formou uma segunda dupla com Piracicaba, adotando
o nome de Botucatu, na dupla "Piracicaba e Botucatu". Ficaram juntos
durante um ano.
Em seguida Adauto mudou o nome para Pinheiro e juntou-se ao Investigador de Polícia José
Stramandiola, que passou a chamar-se Zé Pinhão, e formaram a nova dupla "Zé Pinhão e
Pinheiro". Em junho de 1947, estrearam no programa "Sítio do Bicho de Pé", na Rádio Record
de São Paulo.
Stramandiola, no entanto, sendo policial, não encontrava compatibilidade de
horário entre o seu emprego e a Música. Acabou optando pela Polícia. E a dupla "Zé Pinhão e
Pinheiro" se desfez naquele mesmo ano.
Em seguida, Adalto formou a nova dupla (e a primeira de grande sucesso) com Lúcio
Rodrigues de Souza (nascido em 1923, em Santa Rita do Passa Quatro-SP e falecido em 21/05/1970).
Adalto Ezequiel na verdade havia se sentido "perdido", sem dupla. "... Um dia, era Domingo, eu
estava ouvindo o "Chico Carretel" na Rádio Piratininga. Ouvi lá: Lúcio Rodrigues e Fortaleza.
Escutei, prestei atenção e vi logo: tá aqui a minha segunda voz. Me arrumei e corri lá
prá Piratininga, que ficava ali na Praça Patriarca. Quando cheguei, tinha um café em baixo e
perguntei pelo tal Lúcio Rodrigues. Tinha acabado de sair. Me deram o endereço dele. Um prédio
na Alameda Gretchen, em frente a garagem dos bondes. Fui lá. Ninguém conhecia Lúcio Rodrigues.
Por sorte alguém lá no café tinha me contado como ele era. Mulato, magro, um metro e setenta,
cabelo
onduladinho... Já voltava, vindo embora, quando vi um moço indo em direção àquele prédio e que
se parecia com aquela descrição. Aí falei comigo: "Vou gritar Lúcio, se ele olhar é porque é
ele"... e gritei. Nos apresentamos, falei o que eu queria mas ele disse que num tinha interesse...
Que tava bom com o Fortaleza... Dava um dinheirinho prá pagar o cigarro e o almoço. Ai, eu disse
prá ele que comigo ele podia, no programa da Rádio Record, ganhar uns seiscentos por mês. Isso
era mais ou menos uns três ou quatro salários da época. Ele num disse nada mas ficou com meu
endereço. Na semana seguinte chegou em minha casa já trazendo "Canoeiro"..."
E a Rádio Record organizou um concurso para a escolha do nome da dupla. Foram dadas diversas
sugestões, tais como "Tupi e Tupã", "Pardinho e Pardal" e "Minguinho e
Mingote". Mas o nome escolhido pelo público, que havia votado por carta, foi "Zé Carreiro e
Carreirinho" que passou a ser o nome da dupla formada por Lúcio Rodrigues de Souza e
Adauto Ezequiel, respectivamente.
Aliás, ninguém melhor do que o próprio Carreirinho para nos dizer quem foi Zé Carreiro:
"...na minha vida foi tudo (...) Eu não me destacaria no meio artístico se não fosse o
Zé Carreiro. Eu reconheço isso. Fomos feitos um para o outro. Tínhamos duas vozes irmãs (...)
Aquela segunda voz era suave, bonita, e se encaixou com a minha que foi uma beleza (...)
Não nos dávamos muito bem, tínhamos alguns desentendimentos, mas profissionalmente, nos
respeitávamos muito..."
O primeiro disco da dupla "Zé Carreiro e Carreirinho" foi um "bolachão 78 RPM" contendo
num lado "Canoeiro" (Zé Carreiro - Alocin) e no outro lado, "Ferreirinha" (Carreirinho).
Lúcio e Adalto, na verdade, já faziam sucesso ao vivo no rádio com o cururu "Canoeiro" e
os Irmãos Perez, já famosos com o nome de
Tonico e Tinoco,
haviam se interessado em gravar a respectiva composição.
Zé Carreiro e Carreirinho consentiram em ceder a música, mediante a promessa do lançamento
do seu primeiro disco, que foi gravado em 20/08/1950, com as duas composições já
mencionadas; e o sucesso foi tão grande que a Continental assinou com a dupla um contrato de
três anos!
Algumas duplas que faziam sucesso na época:
"Raul Torres e Florêncio",
"Tonico e Tinoco",
"Palmeira e Luizinho" e
"Serrinha e Caboclinho",
apenas para citar algumas.
Zé Carreiro e Carreirinho gravaram vários LPs e atuaram por dez anos na rádio Record
com bastante audiência. No final da década de 50, no entanto, o parceiro Zé Carreiro teve
que abandonar a carreira artística devido a problemas nas cordas vocais e também por um
problema de surdez.
Carreirinho conheceu, na época, em Araçatuba-SP um mulato mineiro, bom violeiro com belíssima
voz grave que causava admiração geral. Carreirinho formou então a nova dupla com José Dias
Nunes, o
Tião Carreiro,
nome que foi sugerido por Teddy Vieira. Com 4 anos de duração, 10 discos 78 RPM e um LP
lançados, a dupla se desfez, já que Tião também "tinha luz própria" e procurou
por "um parceiro que permitisse que seu peito aparecesse mais". E o "deus carrancudo" formou
a inesquecível dupla com Antônio Henrique de Lima, o Pardinho (São Carlos-SP 14/08/1932 -
Sorocaba-SP 01/06/2001).
Após ter vivido algum tempo em Maringá-PR, Carreirinho retornou a São Paulo-SP em 1968 e formou
com sua esposa, também compositora, Iracema Soares Gama, a nova dupla "Zita Carreiro e
Carreirinho", a qual durou 16 anos, com 12 LPs, dois compactos duplos e um compacto simples.
Em 1984, Carreirinho formou dupla com Zé Matão, com quem gravou cinco LPs em cinco anos de
carreira.
E foi em 1991 que Carreirinho formou juntamente com Sebastião Gonçalo, nascido em Três
Corações-MG, a dupla "Carreiro e Carreirinho", tendo gravado um LP e diversos CDs. Com o atual
parceiro, Carreirinho se mantém "na estrada" até os dias de hoje!
Mesmo com a idade avançada, Adauto Ezequiel continua gostando do que faz!! E seu atual
parceiro, o Carreiro, é também um grande estudioso da obra da dupla "Zé Carreiro e
Carreirinho"!!
Conforme já foi dito acima, as cidades de Bofete-SP e Pardinho-SP foram fundamentais na vida e
na Obra Musical do Carreirinho, e são freqüentemente mencionadas nas letras de suas
belíssimas Modas de Viola. Observa-se até uma certa "competição" entre as duas cidades e muita
gente conta suas "estórias", com frases do tipo "...Carreirinho nasceu em Bofete-SP,
mas foi em Pardinho-SP que aprendeu a tocar Viola...".
De acordo com o especial "A História da Música Caipira", mostrado no excelente programa Globo
Rural que vai ao ar pela TV Globo, enquanto a cidade de Pardinho-SP planejava fazer um monumento,
algo como que um "Túmulo Simbólico" (Cenotáfio) para o Ferreirinha (personagem fictício),
já que a tragédia teria ocorrido "... No Campo do Espraiadinho / Era a 28 Km da Cidade de
Pardinho...", Bofete-SP "saiu na frente" e construiu o monumento ao Carreirinho (foto à
direita).
Lamentavelmente, porém, um ato de vandalismo destruiu a Estátua que homenageava o Carreirinho em
sua Bofete natal, restando somente a Placa Metálica, onde podemos ler: "Nasci em Bofete,
Na Costa da Serra, Até Aos 15 Anos, Vivi Nessa Terra. Adauto Ezequiel (Carreirinho). Começou a
cantar com 06 anos de idade. Ganhou sua primeira Viola aos 10 anos. Aos 15 anos mudou-se para
Pardinho. Até os dias de hoje são 1680 músicas gravadas. Esta é a homenagem de Bofete, através do
Prefeito José Carlos Roder e da Vice-Prefeita Patrícia Jamila de S. Correa. A um Ilustre Filho
de Bofete. Valorizando o que é nosso. Adm - 2001 - 2004."
Há a promessa da entrega da Estátua de Carreirinho restaurada, prevista para Setembro de 2005.
Esperamos que tal promessa seja cumprida e que o Monumento seja devidamente protegido. Quero
incluir o mais breve possível a nova foto do monumento nessa página dedicada ao Carreirinho!
E, na foto abaixo, Ricardinho (à esquerda) e
Ramiro Vióla
(à direita), no dia 11/06/2005 na localidade de Bom Jesus do Ribeirão Grande, onde pude conhecer
um pouquinho o Projeto de Construção da Capela em Homenagem ao Senhor Bom Jesus, para substituir
a anterior, que foi demolida devido à passagem de rede de alta-tensão. À nossa frente, o chão
onde antes havia essa capela. E, a alguns quilômetros atrás de nós, a localidade onde ficava o
Campo do Espraiadinho, onde se deu a tragédia narrada na música "Ferreirinha" (Carreirinho).
Quero aqui destacar a composição "Anna Rosa" (Carreirinho - Tião Carreiro), a qual foi gravada por "Zé Carreiro e
Carreirinho", "Tião Carreiro e Carreirinho" e
também por "Ramiro Vióla e Pardini",
que nos conta a tragédia vivida por Anna Rosa (foto à direita), brutalmente assassinada pelo marido Chicuta na cidade
de Botucatu-SP, no ano de 1885. Na foto abaixo,
Ramiro Vióla e Ricardinho,
no dia 10/04/2007, em frente à Capela Anna Rosa, construída no local do crime e que se tornou famosa na região pelos
Milagres e Graças Alcançadas, conforme garantem diversos Fiéis que já deixaram seus depoimentos na Sala dos Milagres
existente.
Também não poderemos jamais nos esquecer que foi Carreirinho que, encantado com a semelhança
observada na interpretação de
Zé Mulato e Cassiano
com a dupla "Zé Carreiro e Carreirinho", levou-os para São Paulo-SP e, em 1978,
foi gravado o primeiro disco da "Dupla Três Em Um" ("Recordando Zé Carreiro e Carreirinho" -
pela "Discos Chororó / Madrigal Com. de Discos, Fitas e Editora" - 1978), com o
repertório todinho da dupla imitada, tendo o disco contado com a produção
do próprio Carreirinho (desconheço qualquer remasterização em CD desse primeiro disco de
Zé Mulato e Cassiano).
Na foto abaixo, Carreiro (à direita) e Carreirinho (à esquerda) num excelente show que
teve lugar na Granja do Torto, na Capital Federal, em 30/01/2004, por ocasião do IV Encontro
de Folias de Reis do Distrito Federal, coordenado por
Volmi Batista,
Produtor da
VBS - Viola Brasileira Show.
Na foto abaixo, também em 30/01/2004, o Empresário Cardoso, Carreiro, Ricardinho e Carreirinho,
momentos antes do emocionante show que teve lugar no IV Encontro de Folias de Reis do Distrito
Federal de 30/01 a 01/02/2004.
E, na foto abaixo, em 30/01/2004, Ricardinho,
Zé Mulato,
a Deputada Distrital
Eliana Pedrosa
e Carreirinho, também no IV Encontro de Folias de Reis do Distrito Federal que teve
lugar na Granja do Torto de 30/01 a 01/02/2004.
E, graças à Deputada Distrital
Eliana Pedrosa
e à LEI N.º 3.252/03 de 30/12/2003,
este importantíssimo evento foi incluído no Calendário de Eventos Oficiais do
Distrito Federal e mesmo realizar-se-á anualmente no último fim de semana do mês de Janeiro, sob
a coordenação de
Volmi Batista,
Produtor da
VBS - Viola Brasileira Show!
E, na foto abaixo, também em 30/01/2004, Carreirinho,
Zé Mulato e Cassiano,
num momento muito especial e repleto de emoção no IV Encontro de Folias de Reis do Distrito
Federal, pois foi a primeira aparição em público de Zé Mulato, após o susto que todos nós
tomamos com o acidente na estrada com ele ocorrido em Novembro de 2003.
E, na foto abaixo, Carreiro (à direita) e Carreirinho (à esquerda), numa apresentação no dia
11/06/2005 por ocasião do III FESMURP - Festival de Música Sertaneja Raiz de Pardinho que, por
sinal, nos revelou excelentes jovens duplas, com composições inéditas no genuíno estilo caipira.
Foi nessa ocasião que visitei pela primeira vez as cidades de Pardinho-SP e Bofete-SP,
importantíssimas para o Carreirinho e para a Música Caipira Raiz:
E, na foto abaixo, da esquerda prá direita, Carreiro, Ricardinho, Carreirinho e Cardoso, que é
o Empresário da dupla:
Contato para shows:
(11)6409-0586
Celular: (11)9574-1526
Falar com o Sr. Cardoso, o Empresário da Dupla.
Obs.: As informações contidas no texto desta página são originárias do livro "Enciclopédia das Músicas Sertanejas" de
Ayrton Mugnaini Jr. e também dos sites
Dicinário Cravo Albin de Música Popular Brasileira,
Globo Rural e
Junior da Violla.
Ver mais detalhes e links na página
Para saber mais...
onde constam as
Referências Bibliográficas
sem as quais a elaboração deste site teria sido impossível.
Essa viagem pela Música Caipira Raiz continua:
Clique aqui
e pegue o trem, que ele agora irá para Monte Azul, no Norte das Gerais e também passará por
Araçatuba, no Interior Paulista: conheça um pouquinho do Criador e Rei do Pagode
Tião Carreiro
que, por sinal, também já fez dupla com Carreirinho.
Ou então, se você preferir outro compositor ou intérprete,
clique aqui
e "pegue outro trem para outra estação", na
Página-Índice dos Compositores e Intérpretes.
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