Estudos Bíblicos


Título: "Companheiros Covardes"
Autor: Sinval Teófilo
Texto Base: Mateus 26:56


Introdução

A narrativa do beijo de Judas, da prisão de Jesus, e da fuga dos discípulos em Marcos 14:43-52, para o leitor desprovido do senso de inquirição profunda, não têm significação muito importante. Entretanto, tudo o que se encontra nas Escrituras tem grande valor, tem significado perfeito e exato, que merece toda consideração: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”- II Timóteo 3:16-17. 

Todos os acontecimentos ocorridos nos evangelhos, em que a pessoa de Jesus Cristo esteja envolvida, merecem a nossa especial reflexão. Os fatos acima referidos são graves, são sérios, e são passíveis das punições divinas, devido a dimensão da intolerância das autoridades religiosas, do entusiasmo dos soldados e da turba no cumprimento daquela missão, da infidelidade e covardia de Judas e dos discípulos no abandono do Mestre.    

Este estudo não trata da austeridade e da intransigência das autoridades religiosas contra o Messias, nem da euforia dos que saíram armados com espadas, cassetes e tochas, cheios de ódio e violência, invadindo o Getsêmani, aterrorizando e ameaçando a Jesus e seus discípulos. O intento deste texto é expor resumidamente o detestável procedimento de covardia, deslealdade, traição e perfídia, de Judas e dos discípulos, com relação ao Senhor Jesus. O que recebi do Senhor, conforme o dom que o Santo Espirito repartiu a cada um de nós - Efésios 4:7, passo a quem tiver interesse de examinar as Escrituras, e tirar dela o alimento que tanto bem nos faz.  

 

A Covardia de Judas

“E, logo que chegou, aproximando-se, disse-lhe: Mestre. E o beijou”- Marcos 14:45.

Os principais sacerdotes, escribas e anciãos, enviaram soldados e uma turba armada com espadas e cacetes, liderados por Judas Iscariotes, que os levou ao lugar que ele sabia que mui provavelmente Cristo poderia ser encontrado. Ao chegarem ao Getsêmani, com suas armas em punho, Judas se aproximou de Jesus e o beijou: “Ora, o traidor tinha-lhes dado esta senha: Aquele a quem eu beijar, é esse; prendei-o, e o levai-o com segurança”- Marcos 14:44.

Judas se vendeu corpo e alma ao diabo. Negociou o Filho de Deus por trinta moedas de prata. Judas, foi o vendedor mais indigno, o mais odioso, o mais desprezível, o mais vil, o mais infame, de toda a história. O Cordeiro de Deus foi vendido por trinta moedas de prata. Comércio sórdido! Troca mesquinha! Negócio vergonhoso! Negociata suja e perversa! Desprezíveis moedas! Dinheiro maldito! Pobre riqueza do inferno!...

O Salvador do mundo foi avaliado em trinta moedas de prata. A Pérola de maior valor universal foi vendida por preço irrisório. Essa negociata suja e maldita, refletiu o desprezo do sinédrio e de Judas para com o Senhor da Glória. 

Aquelas peças de prata foi o lucro de um ósculo hipócrita, que serviu para comprar os gritos da multidão: “Crucifica-O! Crucifica-O!” Serviu para comprar a cruz, os cravos, a coroa de espinhos, o vinagre e o fel, para que o Salvador do mundo pudesse usar na sua morte! Serviu para comprar a soltura de Barrabás! Serviu para comprar a covardia de Pilatos! Serviu para comprar a zombaria da turba: “Se tu és o Filho de Deus desce da cruz!” O lucro entre o preço de compra e o de venda, sem levar em conta as despesas ocorridas entre as duas operações, serviu para selar o destino eterno daqueles negociantes malvados no fogo do inferno.

O Senhor Jesus Cristo foi ultrajado, difamado, injuriado, insultado por um ósculo! O beijo da traição! O beijo da entrega! O ósculo da hipocrisia e da falsidade! O beijo maldito do artifício e do homicídio! Judas aproximou-se de Jesus como um discípulo amigo – Marcos 14:45, não para dar uma abraço de amor, de carinho, de gratidão; mas, para dar-Lhe o ósculo do disfarce! O falso discípulo se apresentou com um rosto de anjo, que encobria um coração de diabo. Judas, depois de desfrutar por três anos da intimidade com Jesus e com os demais discípulos, se revela perverso e covarde, traindo o Salvador do mundo. Isso mostra até onde a natureza humana pode rebaixar-se! 

O beijo foi a senha dada por judas à escolta armada, para que Jesus fosse agarrado e preso. Foi o ato mais vil, o mais infame, o mais detestável, o mais torpe, o mais abominável registrado na história, que demonstrou a profundeza da depravação humana.

Todos concordam que Judas foi insensível, perverso, desumano, ferino, cruel e covarde. Todavia, por incrível que nos pareça, muitos que se dizem cristãos em nossos dias, vivem atitudes à semelhança de Judas. Pregam amor, mas não amam o próprio irmão. Amam quando tudo vai bem, havendo crises o amor desaparece. Pregam unidade, mas vivem em desunião. Pregam a separação do mundo, e fazem concessões. Pregam lealdade, e vivem na covardia. Assim como Judas demonstrou  hipocrisia com um beijo traiçoeiro, de igual modo, muitos que brandem a bandeira da fé, são fingidos, falsos, desleais e mentirosos.

Judas não foi o primeiro e nem o último homem a proceder de maneira tão baixa, tão indigna, tão vergonhosa, tão falsa, tão hipócrita, tão infame e tão criminosa. Judas não foi o primeiro e nem o último homem que se vestiu de anjo para encobrir sua natureza maligna. O mundo está cheio de lobos vestidos de ovelhas. Desde o começo do mundo até hoje, existem homens desumanos e covardes, com aparência de santos. Assim dizia o Pe. Antônio Vieira: “Este mundo está cheio de hipócritas, e quase todos são cirineus, que, levando a cruz, não morrem nela.”

 

A Covardia dos Discípulos

“Então, deixando-o, todos fugiram”- Marcos 14:50

Momentos antes desses acontecimentos, os discípulos foram chamados para estarem em oração com Jesus. Entretanto, enquanto Jesus orava, os discípulos dormiam. Por isso, não estavam devidamente preparados para encarar situações difíceis. Um deles puxou da espada e cortou a orelha do servo do sumo sacerdote. Essa atitude irrefletida, imprudente e violenta, foi a demonstração clara do despreparo deles para resolverem situações arriscadas. 

Entretanto, Jesus se demonstrou manso, calmo e sereno, sem demonstrar sentimento de inquietação e covardia ante a noção da morte que se aproximava. Confiante no cumprimento dos eternos propósitos do Pai, sabendo que sua hora havia chegado, repara o erro de Pedro curando milagrosamente a orelha do rapaz - Lucas 22:51, repreendeu a violência de Pedro - Mateus 26: 52; e, logo depois, entrega-se voluntariamente à prisão. Aquele que se entregou de livre vontade à morte, para salvar os pecadores, nos deu o exemplo da nossa entrega voluntária à morte com ele na cruz. O Senhor Jesus  percebeu em tudo, o fiel cumprimento das profecias. Na hora da crise, quando se viu abandonado pelos companheiros, a profecia do salmista se tornou real: “Não te distancies de mim, porque a tribulação está próxima, e não há quem me acuda. Muitos touros me cercaram, fortes touros de Basã me rodeiam”- Salmos 22:11-12. Ele sabia que o consolo divino seria doravante sua única companhia.

Diante das ameaças e pressões dos soldados e da turba armada, os discípulos tiveram medo e fugiram. Esqueceram-se das promessas que haviam feito algumas hora antes, de estarem prontos a morrer com o Mestre – Marcos 14:31. Esqueceram-se de tudo, menos do perigo que os ameaçava. O temor e a inquietação prevaleceram, abandonaram o Mestre em debandada. A pior covardia é o abandono do companheiro na hora da crise e do perigo. 

Conta-se que dois amigos viajavam por uma floresta. De repente apareceu um urso. Um deles correu e subiu numa árvore. O outro não podendo correr, deitou-se no chão e ficou imóvel, como morto. O urso se aproximou, andou ao redor do falso morto, cheirou-o, bafejou-o, e foi embora. O covarde via tudo de longe! Ao descer da árvore, perguntou ao seu amigo: “O que é que o urso estava lhe falando?” O amigo respondeu: O urso me disse que aquele que abandona o companheiro na hora do perigo é um covarde. Foi exatamente isso, que os discípulos fizeram na hora em que Jesus foi preso.

O Senhor Jesus foi provado de várias maneiras: A malignidade dos planos satânicos, a intransigência das autoridades religiosas, a euforia dos guardas e da turba armada no cumprimento daquela missão, a traição de Judas, a covardia dos discípulos. Todavia, diante de toda aquela turbulência, Jesus permaneceu tranqüilo e sereno. Ele sabia que a Escritura estava se cumprindo em tudo: “Eis que vem a hora, e já é chegada,  em que sereis dispersos, cada um para sua casa, e me deixareis só; contudo não estou só, porque o Pai está comigo”- João 16:32.

A fuga dos discípulos já estava prevista. O propósito do Pai é que os discípulos ficassem fora do sacrifício de Cristo. O Senhor Jesus fez um pedido àqueles que vieram prendê-Lo, e foi atendido: “Se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes; para se cumprir a palavra que dissera: Não perdi nenhum dos que me destes”- João 18:8-9. Ao ouvirem estas palavras do Mestre aos que vieram prendê-Lo, os discípulos fugiram, com exceção de Pedro, que foi seguindo ao Senhor de longe – Marcos 14:54.

A Escritura fala ainda de outro seguidor de Jesus, que também acabou fugindo: “Seguia-o um jovem, coberto unicamente com um lençol, e lançaram-lhe a mão. Mas ele, largando o lençol, fugiu desnudo”- Marcos 14:51-51. Esta resumida história que se encontra somente no evangelho de Marcos, aparentemente sem importância, oferece lições alegóricas significativas, para a nossa vida cristã.

Aquele moço tendo acordado com o alvoroço da prisão de Jesus, saiu depressa da cama e da casa onde estava, envolvido apenas em um lençol, pois não teve tempo de se vestir. No meio do tumulto dos discípulos fugindo diante da perseguição da turba, esse moço foi agarrado, mas, escapando, deixou o lençol e saiu desnudo. Segundo alguns autores, esse moço era o próprio Marcos, escritor do Evangelho, visto ser ele o único evangelista a narrar este fato.                                                        

A seguir, esta oportuna lição em sentido alegórico: Aquele que se propõe seguir a Cristo sem o devido “revestimento do novo homem” - Colossenses 3:10,  resultará em fuga desnudo e envergonhado.

Conclusão

Muitos daqueles que se intitulam cristãos, fazem o mesmo que os discípulos fizeram! No entusiasmo do momento, depois de participarem da comunhão, ou de ouvirem uma pregação eloqüente, muitos prometem que jamais negarão o nome de Cristo! Entretanto, passados alguns dias, sobrevindo crises, ao invés de testemunharem a fé no Salvador, esquecem-se de tudo, e O abandonam! 

Todo o mundo reconhece a perversidade, a crueldade e a frieza de Judas com relação ao seu Mestre. No entanto, muitos que se intitulam cristãos em nossos dias, procedem da mesma maneira: negam a fé no Salvador por motivos banais.

Assim como Judas simulou amor com seu beijo infiel, de igual modo, muitos que brandem a bandeira da fé, são também falsos, desleais, traidores, infiéis, desumanos e cruéis.  

Afinal de contas, de que lado você está, ao lado de Jesus ou ao lado de Judas? Muitos dizem que estão do lado de Jesus; mas, suas vidas mostram que estão do lado de Judas. E você?  De qual lado você está?

Pense bem!... Muitos dizem ser fiéis ao Senhor; mas, havendo reveses, fogem em debandada! E você? Que pretende fazer na hora da crise; lealdade ou covardia? 

COMPANHEIRO COVARDE

Certo passarinheiro estendia as redes

E lançava trigo para a chamariz.

Em breve a chama no ardil armado,

Incita as aves a picar os grãos,

Ficando um macho de calhandra enredado.

 

Os companheiros alarmados fogem lestos,

Afastando por um pouco do perigo.

Entremetes, dormia o passarinheiro,

Quando a fêmea do cativo volta e pica a rede

E conseguiu desvencilhar o companheiro.

 

Ao despertar o indolente caçador,

Observou os destroços na armadilha.

Depois de tudo novamente arrumado,

Derrama de novo a isca lá na rede

E espera de volta o bando alado.

 

Desta vez uma calhandra menos cauta,

Sente o pé enleado e bate as asas.

Ao ouvir do caçador contestes ais,

Os companheiros incluso o macho fogem,

Levantam voou e não regressam mais.

 

Naquele instante de infernal tortura,

A pobre ave presa na armadilha;

Quando às pressas surge o passarinheiro,

E mata a calhandra abandonada,

Sem a mínima ajuda do companheiro.

 

Veja como procedeu o sexo masculino,

Em face da fiel atitude do outro sexo!

Ao cair na rede o macho, a fêmea o salvou;

E esta, sendo vítima de igual desgraça,

O macho indiligente, então se acovardou.

 

Brasília, Outubro de 2002.

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